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Saúde
Alta rotatividade nas regiões mais pobres escancara desigualdades na saúde
Publicado em 04/06/2025 10:17 - Semana On
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Num país que construiu um dos maiores sistemas públicos de saúde do mundo, a ausência de continuidade no cuidado básico se tornou um problema estrutural. Um levantamento inédito realizado pela organização Umane e pelo Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV/Ibre) revela que 33,9% dos médicos deixaram seus postos na Atenção Primária à Saúde (APS) entre 2022 e 2024. O número, por si só expressivo, torna-se ainda mais alarmante quando se observa que a rotatividade é inversamente proporcional ao Produto Interno Bruto (PIB) per capita dos estados: onde há menos riqueza, há menos médicos permanecendo.
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Estados como Maranhão e Paraíba, com alguns dos menores PIBs per capita do país, lideram a evasão. Já Rio de Janeiro, São Paulo e Distrito Federal — os mais ricos — concentram os menores índices de saída. Essa geografia da rotatividade não é casual: ela espelha o histórico desequilíbrio federativo brasileiro e o descaso com políticas de fixação de profissionais em regiões vulneráveis.
O problema ultrapassa as estatísticas. Ele se materializa na ruptura de vínculos entre médicos, pacientes e territórios — uma quebra que compromete o propósito central da APS, como alerta a médica de família e pesquisadora do FGVsaúde, Marcella Abunahman:
“Uma saída é sempre péssima, porque é rompida a continuidade com paciente, família, equipe e todo o território. Os estudos mostram que é preciso pelo menos um ano para eu começar a conhecer meu paciente. E para que o meu paciente comece a me reconhecer como médico dele”.
A Atenção Primária à Saúde é a porta de entrada do SUS. É na Unidade Básica de Saúde (UBS) que se promovem ações de prevenção, rastreamento de doenças crônicas, acompanhamento de gestantes e vacinação infantil. Mas quando médicos entram e saem sem permanecer o tempo necessário para formar vínculos e compreender as realidades locais, toda a lógica do sistema se fragiliza.
Essa precariedade é mais aguda nas regiões Norte e Nordeste. Segundo o estudo, no segundo quadrimestre de 2024, apenas essas regiões não atingiram metas básicas como o atendimento de gestantes com ao menos seis consultas e o rastreamento de câncer de mama em 70% das mulheres. A cobertura vacinal em crianças menores de um ano também não atingiu a meta de 95% em nenhum estado da federação, sendo Alagoas e o Distrito Federal os que chegaram mais perto, com 87%.
Outro dado preocupante diz respeito às internações por condições sensíveis à APS — ou seja, hospitalizações que poderiam ter sido evitadas com um acompanhamento adequado desde os primeiros sinais. A média nacional em 2024 foi de 20,6%. Enquanto Sul, Sudeste e Centro-Oeste ficaram abaixo dessa média, Norte e Nordeste superaram-na, revelando uma vez mais a desigualdade na capacidade de resposta da rede básica.
Esses dados são mais que números: são indicadores do risco de retrocesso sanitário num país que, desde a criação do SUS em 1988, tem como premissa a universalidade e a equidade. A erosão silenciosa da APS ameaça justamente o alicerce desse projeto.
Do ponto de vista da sociologia e da ciência política, essa desconexão entre políticas públicas e desigualdades estruturais revela a dificuldade do Estado brasileiro em promover justiça distributiva. Como argumenta o filósofo John Rawls, “a justiça é a primeira virtude das instituições sociais”, e o critério para sua legitimidade está em beneficiar os menos favorecidos. Nesse sentido, um sistema de saúde que não assegura continuidade de cuidado básico nos territórios mais pobres falha em seu compromisso democrático.
Pedro Ximenez, cientista de dados da FGV, pondera que, apesar das limitações de alguns registros, a base recém-lançada oferece um retrato útil para orientar políticas públicas:
“Apesar das limitações e inconsistências observadas em algumas informações, a base de dados proporciona um diagnóstico preliminar valioso, que pode orientar gestores e formuladores de políticas públicas na identificação de oportunidades de melhoria”.
No entanto, políticas de dados não bastam sem ação estruturante. Fixar profissionais exige mais que salários: requer condições dignas de trabalho, apoio técnico, incentivo à formação em medicina de família e reconhecimento da importância estratégica da APS.
No plano histórico, o problema não é novo. Desde o ciclo da redemocratização e a Constituição de 1988, houve avanços importantes — como os programas Estratégia Saúde da Família e Mais Médicos. Mas ambos enfrentaram descontinuidade, subfinanciamento e pressões corporativas que limitaram seus impactos duradouros. A lição é clara: sem compromisso político e financiamento adequado, a APS seguirá à mercê da rotatividade.
A saída passa por uma aliança entre ciência, planejamento público e vontade política. Uma Atenção Primária forte não apenas salva vidas — ela reduz desigualdades, fortalece o pacto social e impede que os territórios mais vulneráveis fiquem à margem da cidadania sanitária.
A base que sustenta tudo: por que a Atenção Primária à Saúde é o coração do SUS
Em tempos de crise, é comum que os holofotes se voltem aos hospitais, aos leitos de UTI e à falta de medicamentos. Mas a verdadeira espinha dorsal de qualquer sistema de saúde sólido está num lugar menos visível, mais cotidiano e, justamente por isso, mais vital: a Atenção Primária à Saúde. É ali, nas Unidades Básicas de Saúde, onde se previne o agravamento de doenças, se fortalece o vínculo com a comunidade e se constrói, na prática, o direito à saúde.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) é clara: sistemas centrados na atenção primária são mais eficazes, equitativos e sustentáveis. Um estudo publicado na revista The Lancet mostra que países que priorizam a APS têm melhores indicadores de saúde, menores desigualdades e custos mais baixos com hospitalizações e emergências. Ou seja, apostar na atenção primária não é apenas uma escolha ética — é uma estratégia inteligente.
No Brasil, o conceito de APS ganhou força com a Constituição de 1988 e o nascimento do Sistema Único de Saúde (SUS). A criação do programa Estratégia Saúde da Família (ESF) na década de 1990 foi um marco: com ele, equipes multiprofissionais passaram a atender territórios definidos, conhecendo de perto as realidades locais. Em 2023, o Ministério da Saúde contabilizava mais de 50 mil equipes da ESF espalhadas pelo país. Mas quantidade não significa qualidade — e os recentes dados sobre a alta rotatividade de médicos são um alerta.
A lógica da APS não se resume a consultas ou exames. Trata-se de uma política de presença, de proximidade com o território. É no cotidiano das UBSs que se detecta o aumento de casos de hipertensão, se previne o câncer de colo de útero, se identifica uma criança com atraso no desenvolvimento ou uma gestante em situação de risco. Essa vigilância territorializada é o que impede que problemas pequenos se tornem tragédias clínicas — ou dramas familiares.
A rotatividade de profissionais compromete esse elo. Quando o médico vai embora, perde-se o vínculo, a escuta acumulada, o conhecimento do histórico familiar. Como lembra a pesquisadora Marcella Abunahman, leva pelo menos um ano para que um médico comece a conhecer verdadeiramente sua comunidade. A APS, portanto, exige tempo. Exige permanência. E, sobretudo, exige valorização.
Do ponto de vista filosófico, a APS é também um reflexo da concepção de saúde como direito e não como mercadoria. Inspirada nos princípios da universalidade e da equidade, ela confronta modelos que veem o cuidado como uma transação e o paciente como um cliente. Como propõe o filósofo francês Paul Ricoeur, “o cuidado autêntico é aquele que reconhece a vulnerabilidade do outro como espelho da nossa”. A APS é, nesse sentido, uma ética do cuidado que vai além do biológico: é comunitária, relacional, política.
Ignorar a importância da APS significa investir em um modelo de saúde reativo, caro e ineficiente, que trata as consequências em vez das causas. Significa aceitar que os territórios mais pobres tenham que pagar com vidas aquilo que o Estado se recusa a financiar com orçamento.
Os dados apresentados pela FGV e pela Umane, embora preocupantes, oferecem uma oportunidade: a de reconstruir o pacto pela saúde pública a partir da base. Fixar profissionais, fortalecer vínculos, qualificar o cuidado e ouvir os territórios não são luxos, mas pré-requisitos de uma nação que se quer democrática e justa.
Se o SUS é uma das maiores conquistas civilizatórias do Brasil, a Atenção Primária é o seu chão. E, como toda casa, um sistema de saúde só se sustenta quando tem base sólida.
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