Entre em nosso grupo
2
19.485.790/0001-70
Saúde
Canetas à base de semaglutida dificilmente ficarão baratas no curto prazo
Publicado em 10/03/2026 9:57 - Semana On
Clique aqui e contribua para um jornalismo livre e financiado pelos seus próprios leitores.
A patente da semaglutida, princípio ativo do medicamento Ozempic, expira no Brasil em 20 de março. A expectativa de uma rápida redução de preços, porém, tende a esbarrar em obstáculos regulatórios, industriais e comerciais que devem retardar a chegada de versões nacionais e limitar a concorrência no curto prazo.
SIGA A SEMANA ON NO YOUTUBE, INSTAGRAM, FACEBOOK E WHATSAPP
Embora a queda da patente permita a entrada de novos fabricantes, especialistas do setor avaliam que a popular “caneta emagrecedora” dificilmente ficará muito mais barata nos primeiros meses. O processo envolve desde autorizações regulatórias até investimentos bilionários em infraestrutura produtiva — fatores que reduzem o ritmo de expansão da oferta.
Ao mesmo tempo, a dinamarquesa Novo Nordisk, criadora do Ozempic, prepara estratégias para preservar participação em um mercado estratégico: o Brasil é hoje o oitavo maior mercado global da companhia. A farmacêutica planeja iniciar a produção local das canetas emagrecedoras em Minas Gerais, hoje totalmente importadas.
A empresa também analisa recorrer da decisão judicial que negou a extensão de sua patente. O argumento da companhia era compensar o tempo gasto pelo sistema brasileiro para conceder o registro. No país, a validade de 20 anos começa a contar a partir do pedido de patente, e não da concessão.
Após derrotas no Superior Tribunal de Justiça (STJ), a disputa poderia chegar ao Supremo Tribunal Federal (STF). Especialistas, no entanto, consideram improvável uma reversão, já que uma eventual decisão favorável poderia alterar toda a estrutura legal de patentes no país.
Mesmo sem uma vitória judicial, a combinação de barreiras regulatórias e industriais sugere um cenário de concorrência inicial limitada — o que tende a manter os preços relativamente próximos dos atuais.
O mercado, por sua vez, cresce rapidamente. Em 2025, as vendas de canetas emagrecedoras dobraram no Brasil, movimentando cerca de R$ 12 bilhões.
A seguir, os principais fatores que explicam por que o chamado “Ozempic brasileiro” ainda pode levar tempo para chegar às farmácias.
Regulação ainda em andamento
O primeiro obstáculo é regulatório. A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) ainda analisa pedidos para produção nacional de semaglutida.
Ao todo, 14 solicitações estão em avaliação. A agência prevê conceder até três autorizações por semestre, o que indica que o processo de liberação pode se estender até 2028.
Entre as empresas interessadas está a EMS, maior farmacêutica brasileira. A companhia estima que suas canetas poderiam chegar às farmácias cerca de três meses após a aprovação regulatória, o que aponta para um lançamento no segundo semestre.
Projeções do banco Itaú BBA indicam cronograma semelhante: segundo analistas, o primeiro produto nacional provavelmente chegaria ao mercado apenas em agosto.
Mesmo após a aprovação, a produção exige tempo para aquisição de insumos, fabricação e distribuição — especialmente em um país de dimensões continentais como o Brasil.
Descontos iniciais devem ser limitados
Outro fator que reduz a expectativa de queda rápida nos preços é o tipo de medicamento que deve chegar ao mercado.
A maioria das empresas solicitou registro para medicamentos similares, e não para genéricos.
A diferença é relevante. Os genéricos são obrigados por lei a custar pelo menos 35% menos que o medicamento de referência. Já os similares exigem um desconto menor, em torno de 20%.
Com base no preço atual de tabela do Ozempic — cerca de R$ 1.299,70 —, versões similares poderiam chegar ao mercado por algo próximo de R$ 1.040.
Na prática, o preço pago pelo consumidor pode variar. A própria Novo Nordisk costuma oferecer descontos promocionais que reduzem o valor para cerca de R$ 999 em algumas farmácias.
Estudo do Itaú BBA indica que os preços podem cair até 50% em cinco anos, mas no curto prazo a redução provavelmente ficará abaixo de 30%.
Experiências recentes reforçam essa projeção. A chegada de versões similares da liraglutida — princípio ativo de medicamentos como Saxenda — reduziu os preços em cerca de 20%, pouco acima do mínimo exigido.
Produção exige investimento bilionário
Produzir canetas injetáveis envolve um nível de complexidade muito maior do que fabricar comprimidos ou cápsulas.
As fábricas precisam cumprir requisitos rigorosos de esterilidade, monitoramento ambiental e controle microbiológico. Além disso, os dispositivos passam por testes para garantir estabilidade durante transporte e armazenamento — que deve ocorrer sob refrigeração.
Esse tipo de estrutura exige investimentos bilionários.
A EMS afirma ter aplicado R$ 1,2 bilhão em sua planta industrial em Hortolândia (SP). Já a Novo Nordisk investe R$ 6,4 bilhões na expansão de sua fábrica em Montes Claros (MG).
Poucas empresas no país possuem infraestrutura para esse tipo de produção, o que naturalmente limita a concorrência.
Além da fabricação, as empresas também precisam investir em equipes médicas e representantes comerciais, responsáveis por apresentar os medicamentos aos médicos — que, em última instância, decidem qual produto será prescrito.
Concorrência nacional deve crescer lentamente
Apesar do interesse de diversos laboratórios brasileiros, a entrada efetiva no mercado tende a ser gradual.
Muitas empresas devem optar por parcerias com fabricantes estrangeiros, especialmente na Ásia — em particular na Índia, conhecida pela produção de insumos farmacêuticos a baixo custo.
Essas parcerias geralmente seguem dois modelos:
Licenciamento, com importação do produto pronto para reembalagem no Brasil
Terceirização da produção, com fabricação no exterior e marca nacional
Ambas as alternativas, contudo, envolvem importações e possíveis impactos tributários, o que pode reduzir a competitividade frente à produção local.
Algumas farmacêuticas também optaram por não entrar na disputa. A Eurofarma, por exemplo, desistiu de desenvolver sua própria semaglutida após firmar parceria de distribuição com a Novo Nordisk.
Novos medicamentos já pressionam o mercado
Mesmo antes da queda da patente, a disputa entre medicamentos para perda de peso já se intensificou.
O principal concorrente atual é o Mounjaro, da farmacêutica americana Eli Lilly, baseado na substância tirzepatida.
Em janeiro de 2026, o medicamento registrou R$ 850 milhões em vendas no Brasil, quase o dobro do faturamento somado dos produtos de semaglutida da Novo Nordisk no mesmo período.
Essa competição ilustra a rápida evolução dessa classe de medicamentos.
A primeira geração, baseada na liraglutida, pode levar a reduções de cerca de 8% do peso corporal. A semaglutida elevou esse patamar para cerca de 15%. Já a tirzepatida promete resultados ainda maiores.
Novos medicamentos em desenvolvimento podem ampliar ainda mais esse desempenho. A retatrutida, atualmente em testes, pode levar à redução de até 25% do peso corporal.
Mercado bilionário sustenta corrida industrial
Apesar das barreiras, o crescimento acelerado da demanda mantém o interesse da indústria.
As vendas de canetas emagrecedoras no Brasil devem alcançar R$ 24,6 bilhões em 2026, segundo estimativas do Itaú BBA. Até 2030, o faturamento pode chegar a R$ 50,8 bilhões.
A expansão não se limita ao tratamento da obesidade. Pesquisas avaliam o uso desses medicamentos para doenças cardiovasculares e outras condições metabólicas.
Há ainda um fator cultural relevante: o país é um dos líderes mundiais em procedimentos estéticos, o que amplia o público potencial.
Nesse cenário, a queda da patente do Ozempic marca apenas o início de uma nova fase do mercado — mas não necessariamente o começo imediato de medicamentos baratos.
Deixe um comentário