22/02/2024 - Edição 525

Saúde

OMS pede que imagens de cemitérios no Brasil não sejam esquecidas

Após milhões de mortos em 3 anos, Organização decreta fim de emergência da covid

Publicado em 05/05/2023 2:14 - Jamil Chade (UOL) - Edição Semana On

Divulgação Pixabay

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No dia em que a OMS decretou o fim da emergência sanitária internacional da covid-19, a agência foi clara em dizer que o mundo não pode esquecer dos cemitérios e hospitais lotados. Ao serem questionados sobre o Brasil e as lições que o mundo deve aprender do país, alguns dos principais diretores da agência fizeram questão de destacar as imagens de hospitais lotados e cemitérios.

Maria van Kerkhove, diretora técnica da OMS, elogiou os cientistas brasileiros. “Mas, ao olhar ao passado, precisamos ser respeitosos e humildes sobre o que ocorreu”, afirmou. “Fui para Manaus e todas pessoas que eu conheci tinham perdido uma pessoa amada”, disse.

“O que não podemos nos esquecer é da quantidade de mortes que ocorreram. Não precisava ser assim”, insistiu. “Não podemos nos esquecer das imagens de hospitais, dos túmulos que foram cavados”, disse.

O Brasil chegou a estar entre os países com o maior número de casos e mortes, enquanto o governo de Jair Bolsonaro atacava a OMS, negava a gravidade da crise e forçava uma abertura da sociedade. O ex-presidente chegou a criticar a direção da OMS, questionou a vacina e zombou das vítimas.

Na cúpula da OMS, a ordem é a de saudar o novo governo de Luiz Inácio Lula da Silva, que indicou o retorno da ciência e da diplomacia como pilares da relação com a agência.

“Diplomatas e representantes da Saúde estão envolvidos na negociação da revisão dos textos sobre o acordo para evitar que uma nova crise ocorra”, declarou Mike Ryan, diretor-executivo da OMS.

Num recado duro ao governo anterior, Ryan deixou claro ficou “impressionado” com a nova liderança do país. Segundo ele, a atual administração está liderando o debate hoje em Genebra e é uma das âncoras do processo.

“Estamos felizes com o engajamento do Brasil”, completou Ryan, deixando claro que o país terá um impacto no futuro da saúde pública.

Após milhões de mortos em 3 anos, OMS decreta fim de emergência da covid

Numa data que entra para a história recente da ciência e do mundo, hoje chega ao fim a emergência internacional causada pela covid-19, que em pouco mais de três anos causou trilhões de dólares em perdas e matou 7 milhões pessoas — segundos os dados oficiais, bem baixo dos cálculos da própria OMS, que apontam que cerca de 20 milhões morreram da doença.

Nesta sexta-feira, a OMS anunciou que seus especialistas chegaram à conclusão de que o vírus não representa mais uma ameaça sanitária internacional e que, portanto, a crise é oficialmente declarada como encerrada. Central para o fim da fase mais aguda foi a expansão da vacina.

Pelas regras da agência, não existe uma declaração oficial do final da pandemia. Assim como a Aids, portanto, a covid-19 continuará a ter o status de pandemia. O regulamento sanitário criado pelos governos há quase 20 anos apenas permite que os cientistas anunciem o início de uma emergência global ou seu ponto final. Não há uma definição de pandemia e o termo está em negociação para o estabelecimento de um acordo que permitirá modificar a resposta global a novos surtos.

Michael Ryan, diretor-executivo da OMS, confirmou que a emergência acabou. “Mas a ameaça não. A batalha não acabou. Provavelmente não haverá um ponto em que a OMS anunciará o fim da pandemia”, disse. “O vírus continua a contaminar. Levou anos para que a pandemia [da gripe espanhola] de 1918 terminasse”, afirmou.

Didier Houssin, chefe do comitê de Emergência da OMS, indicou que a decisão de encerrar a emergência foi apoiada por 95% dos cientistas do grupo. Segundo ele, três critérios foram estabelecidos para definir se a crise havia sido superada e, agora, a agência irá constituir um grupo que permitirá monitorar a evolução do vírus.

Uma morte a cada três minutos

A crise que abalou famílias, sonhos, economias e projetos foi a maior pandemia em cem anos. Mas segundo o diretor-geral da agência, Tedros Ghebreyesus, o anúncio não significa que o vírus desapareceu. Segundo ele, se necessário, a OMS voltará a restabelecer a emergência, dependendo da direção da doença.

Hoje, a cada três minutos, uma pessoa ainda morre pela covid-19. Para ele, portanto, governos precisam fazer uma transição para uma normalidade. Mas sem abandonar o monitoramento da doença e sem desfazer os investimentos que foram realizados.

“Perdemos vidas que não precisavam ter sido perdidas”, insistiu Tedros, denunciando o fracasso da comunidade internacional. “Precisamos prometer a nossos filhos e netos que não voltaremos a fazer esses erros”, disse.

A emergência havia sido declarada no final de janeiro de 2020. Naquele momento, 7,7 mil pessoas tinham sido contaminadas na China, com 170 mortes no país. No restante do mundo, apenas 82 casos eram conhecidos em 18 países. Fora da China, nenhum registro de mortes tinha sido anunciado.

O vírus, cuja origem até hoje é fonte de mistério, foi responsável por uma explosão sem precedentes da pobreza e desemprego no mundo, desmontando 30 anos de avanços sociais. As perdas econômicas atingiram trilhões de dólares, enquanto a própria realidade política de diversos países foi profundamente alterada.

A covid-19 zombou de fronteiras, de ideologias e da postura de líderes supostamente “fortes” que se recusavam a aceitar a gravidade da crise. “Ninguém estava preparado”, disse Jarbas Barbosa, diretor-geral da OPAS (Organização Pan-americana de Saúde).

Ao longo de três anos, o vírus, a vacina, a ciência, as máscaras, os tratamentos, o isolamento social e até os sobreviventes foram politizados.

No Brasil, diante de um governo que adotou uma postura negacionista, a doença matou mais de 700 mil pessoas e o país esteve entre os locais de maior contaminação no mundo.

Se governos em várias partes do mundo já tinham encerrado a fase de emergência, a OMS ainda insistia que não era o momento de dar fim à declaração. O temor da instituição é de que, sem uma pandemia, governos vão reduzir investimentos e o monitoramento da doença, além do sequenciamento de amostras e a identificação de novas variantes.

Ainda assim, Tedros decidiu seguir a recomendação dos especialistas e decretar o fim da emergência.

Atraso de um ano e vírus que não desaparecerá

O anúncio acontece com um ano de atraso, em comparação ao que a OMS esperava. Nos primeiros meses da crise, em 2020, a previsão da agência era de que, até 2022, a pandemia perderia força. Mas, em 2021, a segunda onda da doença foi ainda mais violenta que a primeira. Já as vacinas, produzidas em tempo recorde, levaram meses para serem distribuídas aos países mais pobres.

Para a cúpula da OMS, essa concentração de doses nas mãos de poucos países no início da imunização foi um dos legados mais dolorosos da crise e um exemplo do fracasso da comunidade internacional.

Apesar de declarar o fim da emergência, a OMS deixou claro que a medida não significa que a covid-19 desapareceu. A entidade insiste que os sistemas de saúde terão conviver com a presença da doença e lidar com ela de maneira permanente.

Ao abrir o encontro entre os cientistas na quinta-feira, Tedros afirmou que é “muito bom ver que a tendência de queda (de casos) continua”. “Em cada uma das últimas 10 semanas, o número de mortes registradas semanalmente foi o menor desde março de 2020”, comemorou.

“Essa tendência sustentada permitiu que a vida voltasse ao “normal” na maioria dos países e aumentou a capacidade dos sistemas de saúde de lidar com possíveis ressurgimentos e com o ônus da condição pós-covid-19″, disse.

“Ao mesmo tempo, persistem algumas incertezas críticas sobre a evolução do vírus, o que dificulta a previsão da dinâmica ou sazonalidade da transmissão futura. A vigilância e o sequenciamento genético diminuíram significativamente em todo o mundo, tornando mais difícil rastrear variantes conhecidas e detectar novas variantes”, alertou.

Segundo ele, as desigualdades no acesso a intervenções que salvam vidas também continuam a colocar milhões de pessoas em todo o mundo em risco desnecessário, principalmente as mais vulneráveis.

“E a fadiga da pandemia ameaça a todos nós. Todos nós estamos doentes e cansados dessa pandemia e queremos deixá-la para trás”, afirmou. “Mas esse vírus veio para ficar, e todos os países precisarão aprender a gerenciá-lo juntamente com outras doenças infecciosas”, completou.

Apelo aos governos

Um dia depois, ao anunciar o fim da emergência, Tedros fez ainda um apelo aos governos. “A pior coisa que qualquer país pode fazer agora é usar esta notícia como uma razão para baixar a guarda, desmantelar os sistemas que construiu ou enviar a mensagem ao seu povo de que a covid-19 não é motivo de preocupação”, disse.

Outra preocupação da OMS se refere aos impactos de longo prazo da doença, que provoca uma longa série de sintomas que se podem arrastar durante anos. Uma a cada dez pessoas contaminadas pelo vírus estaria na situação, o que exigirá dos sistemas de saúde um cuidado extra com milhões de pessoas.

Tedros ainda insiste sobre a necessidade de reformar as regras internacionais para declarar uma emergência e que governos invistam no longo prazo para permitir que uma eventual nova crise não pegue o mundo desprevenido, como aconteceu em 2020. “Não podemos cometer os mesmos erros. Essa é a geração que pode fazer a mudança e reformar o sistema”, completou.


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