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Saúde

Negacionismo bolsonarista prejudicou vacinação de crianças

Brasil volta ao topo do ranking mundial de crianças não vacinadas

Publicado em 15/07/2025 11:18 - Semana On

Divulgação Semana On - IA

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Quando, em 1973, o Brasil criou o Programa Nacional de Imunizações (PNI), o país dava um passo civilizatório: o direito à saúde, inscrito na Constituição de 1988 como dever do Estado e direito de todos, começava a ser efetivado com ações sistemáticas e universais de vacinação. Décadas depois, o mesmo país volta ao noticiário internacional por razões opostas. Em 2024, segundo dados da Unicef e da Organização Mundial da Saúde (OMS), o Brasil retornou à lista dos 20 países com maior número de crianças sem vacinas básicas, ocupando a 17ª posição global. Foram 229 mil crianças que não receberam sequer a primeira dose da vacina tríplice bacteriana (DTP), que protege contra difteria, tétano e coqueluche.

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O dado é alarmante, mas não surpreendente. Ele é o desfecho previsível de um ciclo político de corrosão institucional, negacionismo sistemático e desinformação deliberada, intensificado durante os quatro anos do governo Jair Bolsonaro (2019–2022), cuja política de saúde pública pode ser definida como uma inversão trágica do lema iluminista: ao invés de conhecimento e progresso, ignorância e regressão.

Um Brasil que já foi exemplo

Durante os anos 1980, 1990 e início dos 2000, o Brasil era internacionalmente reconhecido como referência em campanhas de vacinação. Com estratégias de ampla cobertura e articulação entre União, estados e municípios, o país conseguiu erradicar doenças como a poliomielite (desde 1994 não há casos) e eliminar o sarampo, status perdido em 2019. Em 2012, a taxa de cobertura da vacina DTP ultrapassava 98%. O sucesso se devia não apenas à logística, mas a uma cultura de confiança social na medicina preventiva e na atuação do Estado como agente protetor.

Tudo isso começou a mudar com a chegada ao poder de Jair Bolsonaro. O discurso do então presidente — frequentemente hostil à ciência, às universidades, à imprensa e à própria medicina baseada em evidências — encontrou eco em movimentos conspiratórios e negacionistas que já circulavam nas redes sociais desde 2014, mas que ganharam musculatura institucional a partir de 2019. O marco simbólico foi a pandemia de covid-19, quando Bolsonaro declarou que não tomaria vacina e zombou dos imunizantes dizendo: “se virar jacaré, problema de vocês” (dezembro de 2020). O efeito dessas declarações foi devastador.

Segundo levantamento do Instituto de Comunicação e Informação Científica e Tecnológica em Saúde (ICICT/Fiocruz), divulgado em 2023, houve queda na adesão à vacinação infantil em cidades com maior índice de apoio ao ex-presidente. A vacina, que historicamente simbolizava proteção, passou a ser alvo de campanhas de medo e desinformação — promovidas, muitas vezes, por agentes públicos, médicos negacionistas e influenciadores digitais com acesso direto ao Palácio do Planalto.

O desmonte institucional da confiança

Do ponto de vista filosófico e sociológico, o fenômeno não pode ser lido apenas como “queda de cobertura vacinal”. Trata-se de uma crise de confiança nas instituições e no próprio pacto civilizatório que sustenta o Estado democrático. Como escreveu o filósofo e sociólogo Jürgen Habermas, a legitimidade democrática depende da “confiança comunicativa” entre cidadãos, ciência e política. Quando essa confiança é rompida — seja por autoritarismo, desinformação ou manipulação ideológica — o tecido social se esgarça.

O PNI foi alvo direto dessa corrosão. Cortes orçamentários, desorganização logística e a ausência de campanhas públicas coordenadas minaram a base material e simbólica da vacinação. No auge da pandemia, enquanto outros países investiam em comunicação clara e mobilização da população, o governo brasileiro promovia medicamentos ineficazes, atacava instituições como o Butantan e a Fiocruz, e tratava a vacina como ameaça à “liberdade individual”.

O Brasil no espelho do mundo

A crise da vacinação não é exclusividade brasileira. Nos Estados Unidos, 2025 já é o pior ano de surtos de sarampo desde 2000: 1.288 casos foram registrados até julho, segundo o CDC (Centro de Controle e Prevenção de Doenças). Na Europa, os casos de coqueluche triplicaram em 2024, e os de sarampo dobraram, ultrapassando 125 mil. Segundo a OMS, 14,3 milhões de crianças no mundo seguem totalmente sem vacinas, enquanto outras 20 milhões não completaram o esquema básico.

Mas o Brasil tem uma singularidade trágica: diferentemente de países em guerra ou com infraestrutura precária, como Sudão ou Iêmen, o país regrediu por opção política. E isso o diferencia — e agrava a responsabilidade dos atores públicos envolvidos.

Tedros Adhanom Ghebreyesus, diretor-geral da OMS, foi categórico: “Cortes drásticos na ajuda internacional, somados à desinformação sobre a segurança das vacinas, ameaçam desfazer décadas de progresso.”

Reconstruir o pacto vacinal

Para especialistas como a pneumologista Margareth Dalcolmo, da Fiocruz, o caminho da recuperação passa por “reconstruir a autoridade científica diante da população, com informação, diálogo e políticas públicas baseadas em evidência”. Ela afirma: “A vacinação infantil é um pacto civilizatório. É uma defesa coletiva da vida — não uma decisão privada submetida a redes sociais ou a ideologias pessoais.”

Esse pacto, no entanto, só será refeito com investimento maciço em educação científica, comunicação pública de qualidade, valorização do SUS e responsabilização dos agentes que promoveram a desinformação. Como já dizia Hannah Arendt, “a banalidade do mal” reside justamente na repetição inconsequente de ações e discursos que, ao se normalizarem, destroem o mundo comum.

O desafio, portanto, não é apenas técnico — é moral, político e civilizatório. O Brasil, que já ensinou o mundo a vacinar, precisa agora reaprender a confiar.

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