Entre em nosso grupo
2
19.485.790/0001-70
Saúde
Estilos de vida saudáveis podem ser uma chave para a prevenção
Publicado em 08/12/2024 11:10 - Semana On
Clique aqui e contribua para um jornalismo livre e financiado pelos seus próprios leitores.
O elo entre o corpo e a mente é uma discussão antiga na filosofia e na ciência, mas as descobertas mais recentes mostram que essa relação pode ser ainda mais estreita do que se imaginava. Uma nova pesquisa revela que pessoas com menor massa muscular esquelética têm um risco cerca de 60% maior de desenvolver demência. O estudo, apresentado na Reunião Anual da Radiological Society of North America (RSNA), lança luz sobre uma questão que, até recentemente, era vista apenas como uma correlação: a perda de músculos poderia, de fato, antecipar o surgimento de doenças neurodegenerativas.
Clique para seguir a SEMANA ON no Instagram, no Facebook e no Whatsapp
O estudo seguiu 621 pessoas com idade média de 77 anos durante seis anos. Inicialmente, os participantes foram divididos em dois grupos: os que possuíam maior área transversal do músculo temporal e os que apresentavam menor volume muscular. Ao longo do período de observação, os pesquisadores identificaram que o grupo com menor massa muscular teve uma incidência desproporcionalmente maior de casos de Alzheimer, além de pior desempenho em testes de memória, capacidade funcional e volume cerebral.
Causas em comum: o papel da inflamação sistêmica
A ligação entre sarcopenia e demência pode não ser uma relação de causa e efeito, mas fruto de origens comuns. De acordo com o professor Jamerson de Carvalho, do Hospital Universitário da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), “é uma relação indireta, porque eles compartilham os mesmos fatores de risco”. Entre os fatores mencionados estão o sedentarismo, o tabagismo, o alcoolismo e doenças cardiovasculares — todos eles associados tanto à perda de massa muscular quanto ao declínio cognitivo.
Outro fator crucial para entender essa conexão é a inflamação sistêmica. Estudos realizados com populações asiáticas, como a pesquisa publicada na revista Annals of Clinical and Translational Neurology, indicam que a baixa porcentagem de massa muscular, aliada à alta adiposidade, está associada à inflamação crônica e à hipertrofia cerebral — condições que, por sua vez, podem desencadear doenças neurodegenerativas.
O pesquisador Gustavo Christofoletti, do Instituto Integrado de Saúde da Universidade Federal do Mato Grosso do Sul (UFMS), aponta que o exercício físico resistido tem efeitos neuroprotetores. “O exercício físico estimula a produção de uma série de proteínas que criam uma reserva cognitiva positiva”, afirma o especialista. Essa reserva cognitiva, segundo a teoria de Christofoletti, funcionaria como um “fundo de emergência” para o cérebro, ajudando a retardar ou mitigar os efeitos da neurodegeneração.
O músculo do rosto e a janela para o cérebro
Um dos aspectos inovadores da pesquisa está no foco no músculo temporal, localizado na cabeça e responsável pelos movimentos da mandíbula. Segundo os pesquisadores, a análise da espessura e da área desse músculo por meio de ressonância magnética permite estimar a condição geral da musculatura do paciente. Como a perda de massa muscular geralmente não ocorre de forma localizada, esse exame pode funcionar como um indicador para outras partes do corpo e, consequentemente, como um alerta precoce para o risco de demência.
Essa abordagem de diagnóstico se apresenta como um método não invasivo e de fácil acesso, capaz de ampliar a conscientização para o risco de doenças neurodegenerativas. Como a ressonância magnética é um exame amplamente usado para outros diagnósticos, bastaria incluir a análise do músculo temporal nos procedimentos de rotina.
Prevenção: uma corrida contra o tempo
O papel do exercício físico como prevenção da demência e da sarcopenia é central nas pesquisas mais recentes. Um estudo publicado na revista Metabolites reforça a tese de que o esforço de prevenir a perda muscular pode ter um efeito cascata, reduzindo também os riscos de neurodegeneração. Os pesquisadores analisaram dados de mais de 2.000 pessoas de uma coorte chinesa de informações de saúde e aposentadoria, acompanhando os participantes de 2011 a 2018.
O estudo identificou que a prática de atividades físicas na juventude — ou pelo menos antes dos 60 anos — gera o que os especialistas chamam de “efeito legado”, uma espécie de memória celular que prolonga os benefícios para além do período de atividade. “Os benefícios ocorrem em todas as idades, mesmo nas pessoas que começam a praticar mais tarde. Mas quanto mais cedo, melhores os frutos colhidos a longo prazo”, destaca Christofoletti.
O conceito de efeito legado não é novo, mas ganha força diante dos dados recentes. Ele sugere que a prática precoce de exercícios físicos cria uma reserva de proteção que se mantém mesmo após a redução das atividades na velhice. Assim, um adulto que tenha praticado musculação ou exercícios resistidos regularmente ao longo da vida pode ter uma maior “resistência” aos efeitos do envelhecimento cerebral.
Uma perspectiva crítica: o risco da medicalização do envelhecimento
Se, por um lado, a descoberta sobre a correlação entre a perda de massa muscular e o aumento do risco de demência oferece possibilidades de prevenção, por outro, ela levanta questões éticas. Há o risco de que diagnósticos precoces e a ênfase na prevenção de doenças neurodegenerativas levem à medicalização do envelhecimento. O conceito de medicalização refere-se à tendência de transformar processos naturais em doenças que exigem tratamento.
O filósofo francês Michel Foucault, em O Nascimento da Clínica, aponta que a sociedade moderna transformou o corpo em um objeto de controle biopolítico, onde as instituições médicas passam a ditar normas de saúde e patologia. Nesse sentido, a proposta de rastrear o risco de demência por meio da massa muscular poderia reforçar essa lógica, fazendo com que o envelhecimento saudável seja visto como uma “falha” a ser corrigida.
No entanto, muitos pesquisadores afirmam que, nesse caso, o benefício supera o risco. A prevenção ativa, como a prática de exercícios físicos e a redução do sedentarismo, não é uma intervenção invasiva e depende menos de fármacos e mais de mudanças no estilo de vida. É, nesse sentido, uma abordagem coerente com o conceito de autonomia do paciente.
O caminho adiante
A relação entre a sarcopenia e o risco de demência é uma área emergente na ciência médica e neurológica. Os resultados dos estudos mais recentes apontam para uma necessidade urgente de reavaliar as políticas de saúde pública para o envelhecimento. Investir na promoção da atividade física ao longo da vida, especialmente em idosos, pode ser uma medida mais eficaz — e menos onerosa — do que o tratamento posterior das demências já instaladas.
Assim como as campanhas de prevenção cardiovascular e de controle do colesterol se tornaram parte do discurso de saúde pública, é possível que, no futuro, as autoridades incluam a preservação da massa muscular nas recomendações oficiais. Mas, diferentemente do controle de doenças cardíacas, o foco aqui não é apenas o corpo, mas também a mente.
A saúde, afinal, é uma integração de corpo e mente, e o músculo pode ser o fio invisível que conecta esses dois mundos. Como diria o filósofo René Descartes, “penso, logo existo”, mas talvez seja preciso repensar: movo-me, logo penso.
Deixe um comentário