22/06/2024 - Edição 540

Saúde

Cinco milhões de brasileiros não sabem que têm diabetes

Se considerados apenas os casos diagnosticados, Brasil é o sexto no ranking mundial. Doença, que pode ser tratada com diagnóstico precoce, causa prejuízos de R$ 10,3 bilhões por ano ao país

Publicado em 16/11/2023 10:51 - Edison Veiga (DW), Daniella Almeida (Agência Brasil) – Edição Semana On

Divulgação Marcelo Camargo - Abr

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De acordo com dados da Federação Internacional de Diabetes (IDF, na sigla em inglês), há 5 milhões de brasileiros vivendo com a doença crônica sem saber disso. Para especialistas, essa falta de diagnóstico é um grande problema, já que ter diabetes e não tratá-lo pode acarretar consequências graves de saúde. Desta forma, visando alertar a população, desde 1991, a IDF e a Organização Mundial da Saúde (OMS) celebram em 14 de novembro o Dia Mundial do Diabetes.

De acordo com um atlas produzido pela IDF, se levado em conta apenas o número de pessoas diagnosticadas com a doença, o Brasil ocupa hoje a sexta colocação no mundo: são 15,7 milhões de pessoas com diabetes, o que deixa o país atrás de China (140,9 milhões), Índia (74,2 milhões), Paquistão (33 milhões), Estados Unidos (32,2 milhões) e Indonésia (19,5 milhões) — todas nações mais populosas.

Os custos sociais e sanitários também são enormes. De acordo com estudo realizado por pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) e da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e publicado no ano passado, o Brasil gasta 2,1 bilhões de dólares por ano (cerca de R$ 10,3 bilhões) por causa da doença, considerando gastos diretos (farmácia popular, hospitalizações e outros atendimentos) e indiretos (falta ao trabalho, aposentadoria precoce, morte precoce). O mesmo estudo estima que esse valor pode chegar a 5,47 bilhões de dólares em 2030 (cerca de R$ 26,8 bilhões).

Diabetes é a doença crônica que mais mata, superando todos os cânceres juntos. É responsável por 50% das mortes por doenças cardiovasculares, que são consideradas as principais causas de mortalidade”, afirma Fraige Filho, presidente da seção sul e centro-americana da IDF. “Ocupa 50% dos leitos em hospitais gerais, devido às complicações. Tem grande impacto econômico e social por conta das complicações. Todas elas poderiam ser evitadas com tratamento precoce e adequado.”

E diagnosticar a doença é simples. A maneira mais acessível é por meio da detecção de glicose no sangue. “Qualquer médico pode solicitar esse exame de rotina. Hoje até em farmácias já é possível verificar”, diz o biólogo Alex Rafacho, coordenador do Laboratório de Investigação de Doenças Crônicas da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). O problema é que muitos pacientes não apresentam qualquer sintoma.

No caso do diabetes tipo 1, as crianças costumam sofrer perda de peso acentuada, cansaço frequente, urinam muito e estão sempre com sede. Muitas suam em períodos de jejum. “Esses mesmos sintomas também podem ocorrer nos adultos que porventura tenham o tipo 2 há muito tempo e nunca souberam. Mas até esse momento, a pessoa pode conviver com o diabetes há anos e ir desenvolvendo algumas comorbidades”, esclarece o biólogo.

As mais comuns são o aumento dos triglicerídeos, hipertensão, obesidade e gordura no fígado. Casos não tratadas, podem trazer consequências graves, como infarto, acidente vascular cerebral (AVC), glaucoma, perda de sensibilidade nas extremidades, disfunção renal, entre outros. “Por isso, o diabetes é um dos maiores fatores de risco para amputação de membros, cegueira e complicações renais que requeiram hemodiálise”, alerta Rafacho. “Não se pode negligenciar a doença.”

28 amputações por dia, no Brasil

O Sistema Único de Saúde (SUS) registrou, entre janeiro e agosto deste ano, 6.982 amputações de membros inferiores (pernas e pés) causadas por diabetes, o que equivale à média de mais de 28 ocorrências por dia.

Os casos vêm crescendo ano a ano, conforme mostram os dados do Ministério da Saúde. O número de amputações em 2022 (10.168) foi 3,9% superior ao total de 2021 (9.781), o que representou média de 27,85 cirurgias por dia, no ano passado, em unidades públicas.

De acordo com a Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD), a doença já figura como a principal causa de amputação não traumática em membros inferiores, no país. As amputações traumáticas são as que ocorrem, por exemplo, em acidentes de trânsito ou de trabalho.

“Hoje, nós temos um número de grande de amputações sem ser por acidente. E a principal causa é justamente o diabetes, além do cigarro. Então, a gente tem que combater esses males”, reforça o presidente da Sociedade Brasileira de Diabetes, Levimar Araújo, portador de diabetes tipo 1.

A SBD aponta também que 13 milhões pessoas com diabetes têm úlceras nos pés, os chamados pés diabéticos, que podem resultar nestas amputações.

Preocupada com o cenário, a Associação Brasileira de Medicina e Cirurgia do Tornozelo e Pé (ABTPé) alerta para essa complicação que pode atingir tanto pacientes com diabetes mellitus do tipo 1, como do 2. O presidente da ABTPé Luiz Carlos Ribeiro Lara, dimensiona a situação. “Entre todas as suas complicações, o pé diabético é considerado um problema grave e com consequências, muitas vezes, devastadoras em razão das úlceras, que podem implicar em amputação de dedos, pés ou pernas.”

O alerta sobre as complicações que afetam as pessoas com a doença ocorre no Dia Mundial do Diabetes, celebrado neste 14 de novembro. Em 2023, a Organização Mundial de Saúde (OMS) escolheu como tema da campanha: Educação para Proteger o Futuro. O objetivo é destacar a necessidade de melhorar o acesso à educação de qualidade sobre a doença a profissionais de saúde e pessoas com a doença.

Pé diabético  

A neuropatia periférica provocada pelo diabetes causa a perda das funções dos nervos do pé. Com isso, ficam prejudicados o tato e a sensibilidade para a dor. Essa redução da sensibilidade relacionada ao diabetes dificulta a percepção do paciente em notar lesões ou feridas.

Em entrevista à Agência Brasil, a diretora da ABTPé, a ortopedista, cirurgiã do pé e tornozelo, Jordanna Maria Pereira Bergamasco, relaciona a sensibilidade dos pés como um fator de proteção à pessoa com diabetes.

“Esse pé não tem a sensibilidade protetora, então, sem perceber ocorrem feridas e infeccionam. O paciente não consegue resolver e estas acabam em amputações menores ou maiores, ou seja, desde uma pontinha de dedo até uma perna. Tudo por causa das feridas. E o número de ocorrências é grande.”

Jordanna confirma também ser inevitável que, em até dez anos após o desenvolvimento do diabetes, comecem a surgir os sintomas da neuropatia periférica, mesmo com a doença controlada, esses pacientes vão ter algum grau de neuropatia. Porém, segundo ela, a saída é o controle da glicose no sangue, que pode adiar as alterações neurológicas, principalmente, dos membros inferiores, e consequentemente, evitar mutilações.

“A doença leva à neuropatia, a gente não consegue evitar. O único jeito de conseguir postergar isso é com controle glicêmico. E para evitar as amputações é com cuidado”, conta a ortopedista.

Cada vez mais casos no Brasil 

Rafacho alerta que o cenário é de crescimento da doença no Brasil — de 8,8% da população em 2021 para 10,9% da população em 2045, conforme estimativas.

Esses números não fazem distinção entre os dois tipos de diabetes mellitus (1 e 2) — o termo vem do latim mel e se deve ao excesso de glicose no sangue. No primeiro caso, o paciente apresenta uma desordem que causa a destruição das células produtoras de insulina. No segundo, é uma deficiência na secreção da insulina.

“É importante frisar que há estudo apontando o Brasil como sendo o quarto país do mundo com a maior incidência de diabetes tipo 2 entre os jovens com menos de 20 anos e o terceiro com o maior número de indivíduos com o tipo 1 entre bebês, crianças e jovens com menos de 20 anos”, alerta Rafacho.

De acordo com ele, as razões para este cenário são muitas, “mas inegavelmente a falta de educação relacionada à saúde e a desigualdade social” seriam o ponto de partida do problema. E o cuidado precisa ser maior entre aqueles que apresentam pré-diabetes, “ou seja, uma condição de forte risco para o desenvolvimento futuro” da doença.

“As principais razões atribuídas para este alto número de pessoas com diabetes, que vem aumentando cada vez mais ao longo dos anos, são principalmente aquelas ligadas à mudança imposta pelo estilo de vida, como o sedentarismo, sobrepeso e obesidade, além do envelhecimento da população”, comenta a biomédica Gabriela Arrifano, professora na Universidade Federal do Pará (UFPA).

As causas são variadas. No caso do tipo 1, Rafacho explica que “há uma predisposição genética que deve ser considerada”, e a doença acaba se desenvolvendo após exposição, na infância, a fatores que geram um gatilho, como antígenos presentes em certos alimentos.

“Neste caso, a melhor forma de prevenir é ter um acompanhamento regular com endocrinopediatra sempre que o bebê nascer em família em que pai ou a mãe tenham diabetes tipo 1”, alerta.

Já o diabetes tipo 2 é causado por fatores como excesso de peso, idade, pressão arterial alta e por não praticar atividades físicas com regularidade. Ter parentes de primeiro grau com a doença aumenta o risco. “Tudo isso pode, em maior ou menor grau, ter como base uma cultura associada a ingestão de alimentos e bebidas com alto teor energético e baixo teor nutricional, um ambiente familiar e escolar que pouco discute temas relacionados à saúde, ambiente obesogênico, menor grau de instrução e de poder de escolha e até mesmo uma qualidade ou quantidade de sono insuficiente”, analisa o biólogo.

Em outras palavras, o diabetes tipo 1 “não é evitável, mas é rastreável”. “Já o de tipo 2 pode, sim, ser evitado, por meio de um estilo de vida saudável”, argumenta Rafacho.

Estudo na Amazônia

Arrifano cita um estudo feito em 2018 que ilustra as dificuldades de diagnóstico no país. “O Brasil é um país de dimensão continental, o que impõe imensos desafios para o sistema de saúde, com grandes discrepâncias entre as regiões Sul e Sudeste e as regiões Norte e Nordeste, por exemplo”, contextualiza. “Embora o Sistema Único de Saúde (SUS) seja um modelo fantástico, ainda há desigualdades particularmente ligadas às distâncias geográficas.”

Na pesquisa, da qual ela fez parte, os cientistas analisaram o sangue coletado de populações ribeirinhas da Amazônia e constataram que 27% dos moradores dessas comunidades apresentavam alterações nos níveis de glicose.

“É importante destacar que não foi um diagnóstico de diabetes, mas uma indicação de que essas pessoas deveriam ter um acompanhamento médico por já apresentarem uma alteração. E elas não têm porque não havia posto de saúde no local ou, quando havia posto, não tinha médicos.”

O diabetes pode ser controlado, mas não tem cura. “Uma vez recebido o diagnóstico, a pessoa sempre terá diabetes e precisa fazer o controle médico regular”, frisa Arrifano.


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