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Saúde
De cada dez casos no país, oito são diagnosticados em estágio grave
Publicado em 02/02/2025 11:40 - Semana On
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No Brasil, o diagnóstico tardio de câncer de cabeça e pescoço é uma realidade preocupante: 80% dos casos são descobertos já em estágios avançados, conforme apontou um estudo recente do Instituto Nacional do Câncer (Inca) publicado na respeitada revista científica The Lancet Regional Health Americas. O levantamento escancara uma verdade dolorosa: o peso da desigualdade social e educacional na saúde pública nacional.
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De acordo com a pesquisa, realizada com dados de 145 mil casos registrados entre 2000 e 2017, quanto menor o nível de escolaridade do paciente, maior a probabilidade de o câncer ser descoberto em estágio avançado. “O foco agora é tornar mais rápido o acesso às consultas e aos exames especializados, com menos burocracia, a partir do encaminhamento realizado pelas equipes de atenção primária”, afirmou Flávia Nascimento de Carvalho, epidemiologista do Inca e responsável pelo estudo.
Os tumores de cabeça e pescoço abrangem diferentes regiões do corpo, incluindo boca, laringe, orofaringe e cavidade oral. O estudo do Inca concentrou-se nesses locais específicos e revelou um perfil preocupante: a maior parte dos pacientes diagnosticados com a doença grave é formada por homens, pessoas com baixa escolaridade, fumantes e consumidores frequentes de bebidas alcoólicas. Embora a faixa etária média seja de 60 anos, os casos mais avançados têm sido registrados em pessoas mais jovens, entre 30 e 50 anos, sobretudo aquelas sem o ensino básico completo.
Desigualdade regional agrava o cenário
Além dos fatores socioeconômicos, o estudo destacou uma disparidade geográfica importante: as regiões mais afetadas pelos diagnósticos tardios são o Norte e o Nordeste, onde o acesso aos serviços de saúde especializados é mais precário. Nessas áreas, a demora em obter um diagnóstico definitivo aumenta o risco de progressão rápida da doença e dificulta o tratamento.
Para os especialistas, a solução passa pela ampliação das políticas públicas voltadas ao diagnóstico precoce e pelo fortalecimento da atenção primária à saúde. Isso inclui capacitar agentes comunitários para reconhecerem os sinais iniciais da doença — como desconforto na garganta, feridas que não cicatrizam, rouquidão persistente e nódulos no pescoço — e encaminharem os pacientes rapidamente para exames especializados.
O câncer de cabeça e pescoço, quando identificado no início, tem chances de cura de até 90%, mas, segundo os pesquisadores, o diagnóstico precoce ainda não é uma realidade para boa parte da população.
Educação como fator de proteção
Para Flávia Nascimento, a baixa escolaridade é um dos fatores mais críticos. “Há uma clara associação entre educação insuficiente e diagnóstico tardio, o que aponta para a necessidade de políticas intersetoriais que não se limitem à saúde, mas também invistam em educação”, explicou a especialista. Segundo ela, pessoas com menos anos de estudo tendem a desconhecer os sinais iniciais da doença ou a postergar a busca por atendimento médico.
A relação entre tabagismo, consumo de álcool e câncer de cabeça e pescoço também é destacada no estudo. Esses fatores de risco são historicamente mais prevalentes em populações vulneráveis, o que agrava o cenário de desigualdade.
Um caso emblemático envolvendo o câncer de cabeça e pescoço no Brasil foi o do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, diagnosticado com um tumor na laringe em 2011. O diagnóstico precoce permitiu que o tratamento fosse eficaz, resultando na cura da doença. No entanto, como apontam os dados do Inca, essa não é a realidade de muitos brasileiros, especialmente nas regiões mais pobres.
O que pode ser feito?
Os especialistas defendem medidas como:
– Redução da burocracia no encaminhamento de pacientes da atenção primária para exames especializados.
– Campanhas educativas voltadas para populações de baixa renda, destacando os sinais de alerta do câncer de cabeça e pescoço.
– Investimentos em infraestrutura de saúde nas regiões Norte e Nordeste, garantindo acesso a diagnósticos rápidos e tratamentos eficazes.
O estudo, além de alertar para o impacto do diagnóstico tardio, reforça a importância de se combater as desigualdades sociais na saúde pública. Com o avanço das pesquisas e o fortalecimento das políticas públicas, espera-se que o cenário possa ser revertido nos próximos anos, garantindo a milhares de brasileiros uma chance de tratamento e cura.
“A saúde pública no Brasil precisa ser um direito real, não uma barreira burocrática”, conclui a pesquisadora Flávia Nascimento.
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