21/02/2024 - Edição 525

Saúde

Brasil pode ter mais de 4,1 milhões de casos de dengue em 2024

Ministra pede apoio da população para eliminar focos em casa: vacina será priorizada pelo SUS enquanto bolsonarismo desenterra a ivermectina

Publicado em 07/02/2024 11:17 - Agência Brasil, Pedro Rafael Vilela e Paula Laboissière (Abr), LEONARDO Sakamoto (UOL) – Edição Semana On

Divulgação Pixabay

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Em pronunciamento à nação na noite de ontem (6), a ministra da Saúde, Nísia Trindade, fez um apelo para que a população adote cuidados para evitar a proliferação de criadouros do mosquito transmissor da dengue dentro de casa.

Segundo a ministra, 75% dos focos estão localizados nas residências.  “Precisamos redobrar os cuidados com as nossas casas e nas áreas em volta delas. Cerca de 75% dos focos estão dentro de casa. Vamos tampar as caixas d’água, descartar o lixo corretamente, manter as vasilhas de água dos animais sempre limpas, guardar garrafas e pneus em locais cobertos, retirar água acumulada dos vasos e plantas”, disse.

Nísia Trindade pede ainda que as pessoas recebam os agentes de endemias, que irão ajudar a eliminar os focos. “Receba-os, ajude-os na localização e na erradicação de possíveis focos do mosquito em sua casa e na sua vizinhança”.

O aumento crescente de casos da doença neste início de ano exige medidas adicionais por todas as instâncias de governo, conforme a ministra.

“É fundamental que os prefeitos e prefeitas intensifiquem os cuidados com a limpeza urbana, evitando o acúmulo de lixo e de água onde os mosquitos se proliferam. Da mesma forma, é essencial a ação dos governadores, apoiando seus sistemas de saúde”, afirmou, citando que o Ministério da Saúde ampliou em R$ 1,5 bilhão o repasse a estados e municípios.

“Agora é hora de todo o Brasil se unir contra a dengue”, ressaltou.

Calor e chuvas

No discurso, a ministra atribui a situação de emergência enfrentada por diversas cidades do país ao calor recorde e as chuvas acima de média, registrados desde o ano passado, que levaram ao crescimento dos focos do mosquito Aedes aegypti.

A explosão de casos de dengue em diversas regiões do país fez com que pelo menos quatro estados – Acre, Minas Gerais e Goiás, além do Distrito Federal – decretassem situação de emergência em saúde pública.

Estima-se que o Brasil pode contabilizar mais de 4,1 milhões de casos em 2024.

Fabricante dará prioridade da vacina contra dengue ao SUS

A farmacêutica Takeda, que produz a vacina contra a dengue (Qdenga), emitiu um comunicado na segunda-feira (5) para informar a decisão de priorizar o atendimento aos pedidos do Ministério da Saúde no fornecimento dos imunizantes. De acordo com o comunicado, a Takeda suspendeu a assinatura de contratos diretos com estados e municípios e vai limitar o fornecimento da vacina na rede privada apenas para suprir o quantitativo necessário para as pessoas que tomaram a primeira dose do imunizante completem o esquema vacinal com a segunda dose, após um intervalo de três meses.

A medida foi tomada, segundo a empresa, diante do cenário de inclusão da Qdenga no Sistema Único de Saúde (SUS) e o agravamento da epidemia de dengue em diversas regiões do país.

“Em linha com o princípio da equidade na saúde, a Takeda está comprometida em apoiar as autoridades de saúde, portanto seus esforços estão voltados para atender a demanda do Ministério da Saúde, conforme a estratégia vacinal definida pelo Departamento do Programa Nacional de Imunizações (DPNI) que considera faixa etária e regiões para receberem a vacina. Conforme já anunciado, temos garantida a entrega de 6,6 milhões de doses para o ano de 2024 e o provisionamento de mais 9 milhões de doses para o ano de 2025. Em paralelo, estamos buscando todas as soluções possíveis para aumentar o número de doses disponíveis no país, e não mediremos esforços para isso”, diz o comunicado.

A decisão não prejudica compromissos previamente firmados com municípios antes da incorporação da Qdenga ao SUS, observou a empresa.

Ainda segundo a farmacêutica, a previsão é que o fornecimento global da vacina Qdenga atinja a meta de 100 milhões de doses por ano até 2030, o que inclui um novo centro internacional dedicado à produção de vacinas, na Alemanha, previsto para ser lançado em 2025.

Vacinação

A vacina Qdenga teve o registro aprovado pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) em março de 2023. O processo permite a comercialização do produto no Brasil, desde que mantidas as condições aprovadas. Em dezembro, o Ministério da Saúde anunciou a incorporação do insumo no Sistema Único de Saúde (SUS).

Na próxima semana, as doses começam a ser distribuídas a 521 municípios selecionados pelo Ministério da Saúde para iniciar a vacinação na rede pública. As cidades compõem um total de 37 regiões de saúde que, segundo a pasta, são consideradas endêmicas para a doença. Serão vacinadas crianças e adolescentes de 10 a 14 anos de idade, faixa etária que concentra maior número de hospitalizações por dengue, atrás apenas dos idosos.

Vacina contra dengue: entenda por que idosos precisam de receita

A população idosa concentra, atualmente, as maiores taxas de hospitalização por dengue no Brasil. O grupo, entretanto, ficou de fora da faixa etária considerada prioritária para receber a vacina contra a dengue por meio do SUS. Isso porque a própria bula da Qdenga estipula que o imunizante é indicado somente para pessoas com idade entre 4 e 60 anos. Ainda assim, em laboratórios particulares, o imunizante é aplicado em idosos, desde que seja apresentado pedido médico.

A pergunta é: há risco para o idoso que recebe a vacina? O geriatra Paulo Villas Boas explicou que a bula da Qdenga não inclui pessoas acima de 60 anos porque não foram feitos estudos de eficácia nessa faixa etária. O membro do Comitê de Imunização da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia destacou, entretanto, que a dose foi liberada para toda a população acima de 4 anos pela Agência Europeia de Medicamentos e a Agência Argentina de Medicamentos.

“Em médio prazo, acredito que haverá uma discussão sobre a liberação da vacina contra a dengue para a população com mais de 60 anos”, disse. “No presente momento, os idosos não são elegíveis. Se a dose for utilizada na população com mais de 60 anos, mesmo que seja recomendada por um médico, é considerado o que a gente chama de prescrição off label, ou seja, que não consta na liberação oficial. Alguns medicamentos são prescritos assim porque há estudos que mostram benefício.”

“Existe essa possibilidade da prescrição off label. Mas o que está acontecendo no Brasil hoje em dia? Há uma demanda muito grande da população idosa com desejo de se vacinar contra a dengue. Porém, mesmo nas clínicas privadas, não se encontra mais a vacina. Como ela foi liberada, o próprio laboratório não está conseguindo suprir a demanda para o SUS. Temos uma previsão, até o final do ano, de um aporte de cerca de 6 milhões de doses. Então o laboratório provavelmente não vai conseguir suprir a demanda para clínicas privadas.”

Villas Boas lembrou que os idosos são considerados grupo de risco para agravos decorrentes da infecção pela dengue. O maior número de óbitos, segundo o geriatra, acontece exatamente nessa faixa etária. Dados da Secretaria de Saúde do Rio Grande do Sul, por exemplo, mostram que, no ano passado, das 11 mortes registradas pela doença, oito foram em pessoas com mais de 60 anos. Em 2022, 79% dos óbitos provocados pela dengue no estado também foram entre idosos.

“A gente sabe que os indivíduos idosos são portadores de doenças crônicas como hipertensão, diabetes, doença do coração. Muitos têm estado em imunossupressão, ou seja, quebra da imunidade. E esses são fatores de risco para complicações da infecção pela dengue. Por isso, acredito que a médio prazo, ou mesmo a curto prazo, teremos dados cientificamente robustos que indiquem a vacinação contra a dengue para essa população.”

O geriatra reforçou que não há risco iminente para idosos que, com a prescrição médica em mãos, recebem a vacina contra a dengue, mas destacou aspectos considerados importantes quando o assunto é a imunização de pessoas com mais de 60 anos, como um estado de perda de imunidade normal da idade, chamado imunossenescência, e a tomada de medicações que podem aumentar a imunodeficiência, como o uso crônico de corticoides e outros tratamento específicos.

“Se eventualmente esse indivíduo idoso desejar ser vacinado, é importante que ele converse muito bem com o médico que irá prescrever a vacina. Um bom contexto de saúde desse indivíduo idoso, para que ele possa receber a vacina com total segurança. A gente tem que lembrar que a Qdenga é uma vacina com vírus atenuado e não com vírus morto. Se o indivíduo estiver com a imunidade mais baixa, pode ter uma resposta ou reação vacinal maior, desenvolvendo efeitos colaterais inerentes à vacinação, como mal-estar geral e febre. Não vai desenvolver um quadro de dengue clássico. Mas pode ter uma série de efeitos colaterais, descritos na própria bula da vacina.”

Na ausência de uma dose contra a dengue formalmente indicada para idosos, Villas Boas ressaltou que a prevenção da doença nessa faixa etária deve ser feita por meio dos cuidados já amplamente divulgados para o combate ao mosquito Aedes aegypti: impedir o acúmulo de água parada; usar repelentes sobretudo pela manhã e no final da tarde, horários de maior circulação do Aedes aegypti; e utilizar roupas de manga longa e em tons mais claros.

“A prevenção da dengue para a população idosa é idêntica à prevenção da população em geral. Não há nada específico. São aquelas orientações que a gente cansa de ouvir e cansa de ver que as pessoas não fazem”, disse. “Tudo o que possa evitar o indivíduo de ser picado contribui”, concluiu.

Tire as dúvidas sobre a vacina da dengue

Busca de ivermectina contra dengue é legado negacionista da Era Bolsonaro

Bolsonaro deveria se orgulhar: a busca por ivermectina para o tratamento da dengue, o que é ineficaz, além de ser perigoso para a saúde, é mais um legado de seu governo.

O remédio para parasitas entrou no vocabulário nacional durante a epidemia de covid-19, quando o então presidente da República incentivou o uso do medicamento para prevenir a doença em lives e entrevistas, o que também era inútil e arriscado. Queria, com isso, forçar as pessoas a voltarem à vida normal enquanto morriam mais de 4 mil infectados por dia.

Jair foi respaldado nesse comportamento criminoso por médicos que perderiam o registro profissional caso o Conselho Federal de Medicina não tivesse agido como um puxadinho do bolsonarismo. Ao mesmo tempo, as atitudes que ele tomou empoderaram esse pessoal que, agora, sente-se livre para insistir.

Não por coincidência, grande parte das recomendações tanto da ivermectina para tratamento da dengue quanto contra a covid-19 parte de médicos que não têm especialidade na área, ou seja, não são infectologistas, nem virologistas.

“Não há evidência científica ou estudo comprovando eficácia para o tratamento de dengue com ivermectina. Infelizmente, não há uma droga antiviral efetiva para o tratamento da dengue ate o momento”, afirmou à coluna Marcelo Litvoc, médico infectologista do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo.

“Antes, era possível fazer a prevenção, agora temos uma vacina. Fora isso, apenas o tratamento de suporte, com hidratação e alívio de sintomas. E, como todos os remédios, o uso errado pode ter efeitos colaterais graves”, completa.

Durante a pandemia, pacientes tiveram casos de hepatite medicamentosa após se medicarem com o “kit covid”, que incluía a ivermectina. Com isso, precisaram de transplante de fígado.

Por conta da recomendação desse medicamento para a dengue por certos médicos, e o aumento da busca por ele em farmácias, o Ministério da Saúde teve que vir a público para desmentir o boato.

“Para ficar claro: a ivermectina também não é eficaz em diminuir a carga viral da dengue. O Ministério da Saúde não reconhece qualquer protocolo que inclua o remédio para o tratamento da doença. Disseminação de fake news, principalmente quando se trata de um cenário epidemiológico que pede atenção, é extremamente perigoso”, diz o site do ministério.

“Para quem não lembra, o medicamento foi defendido na época da pandemia da covid-19 como parte de um tratamento precoce de combate à doença, porém sem nenhuma eficácia comprovada”, reforça.

O faturamento da Vitamedic com a venda de ivermectina, usada erroneamente no tratamento da covid-19, saltou de R$ 15,7 milhões, em 2019, para quase R$ 470 milhões em 2020. O laboratório admitiu que não fez estudos para atestar a eficácia do produto (originalmente contra sarna, vermes e piolhos) contra a covid, mas, mesmo assim, gastou R$ 717 mil em anúncios que defendiam a mentira de que tratamento precoce com ivermectina funcionava.

A sabotagem perpetrada por Bolsonaro nas medidas de combate à doença (ridicularizando vacinas, atacando isolamento social, promovendo a fraude do kit covid, que incluía o medicamento) facilitou o óbito de milhares, mas também permitiu que muita gente faturasse um bom cascalho.

E não eram apenas as lives e entrevistas macabras do então presidente. O então Ministério da Saúde e, hoje, deputado federal, Eduardo Pazuello (PL-RJ) enviou terraplanistas biológicos para pressionar a Prefeitura de Manaus a distribuir hidroxicloroquina e ivermectina. E deixou de monitorar um insumo que realmente faria a diferença, o oxigênio. Com isso, uma catástrofe atingiu a cidade e muitas pessoas morreram sufocadas.

Na esmagadora maioria dos casos, nosso sistema imunológico é capaz de dar conta tanto da covid-19 quanto da dengue, produzindo anticorpos e eliminando os vírus. Ao apontar um remédio ineficaz como solução, o ex-presidente e médicos irresponsáveis, na verdade, tentam roubar o mérito por algo que o organismo já faria por conta própria.

E isso cola em uma parte desavisada da população. Afinal, o que tem mais a cara de ser responsável por vencer uma guerra contra uma doença grave: estruturas microscópicas que cada um tem dentro de si, os glóbulos brancos, ou um produto milagroso que é alvo de elogios semanais do então presidente?

Ah, mas tem os que morrem? Bem, como o próprio Jair dizia sempre, todo mundo morre um dia.

A questão é que a ivermectina também tem efeitos colaterais. E pessoas tiveram problemas no fígado por conta do uso de um medicamento receitado, de forma charlatã. E mais pessoas podem ter agora, durante a atual crise de dengue.

Isso reforça que o legado do bolsonarismo vai muito além de tentativas de golpe de estado, ataques às instituições públicas, desvio de joias do patrimônio público e mais de 700 mil mortos na pandemia. Também fez com que o terraplanismo científico viesse para ficar.


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