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Saúde
Ministério da Saúde promove mobilização nacional diante da ameaça persistente da doença
Publicado em 04/11/2025 10:48 - Semana On
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Apesar da redução expressiva nos números em relação ao ano anterior, o Brasil ainda vive sob o espectro de uma das mais persistentes ameaças à saúde pública nas últimas décadas: a dengue. No próximo sábado (8), o Ministério da Saúde realiza o “Dia D” da campanha Não Dê Chance para Dengue, Zika e Chikungunya, mobilização nacional que busca reforçar a prevenção e o enfrentamento da doença em todo o país. A data ganha contornos estratégicos diante dos mais de 1,6 milhão de casos prováveis registrados até agora em 2025 e 1.688 mortes, segundo dados da própria pasta.
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Embora esses números representem uma queda de 75% nos casos e 72% nos óbitos em relação ao mesmo período de 2024, o cenário ainda inspira preocupação. Isso porque, historicamente, o ciclo da dengue no Brasil intensifica-se entre novembro e maio, justamente o período em que o calor e as chuvas criam as condições ideais para a reprodução do Aedes aegypti, vetor da doença.
“Agora é hora de organizar a assistência à saúde, reforçar as ações de prevenção e orientação e identificar os pontos estratégicos a atacar nas cidades”, alertou o ministro da Saúde, Alexandre Padilha.
Segundo o ministério, mais de 30% dos municípios brasileiros estão em estado de alerta, e mais de 80% dos focos do mosquito estão localizados em ambientes domiciliares — vasos de plantas, calhas, caixas d’água e recipientes esquecidos em quintais, o que torna a participação ativa da população ainda mais vital.
A resposta nacional e a aposta na vacina brasileira
Além das ações emergenciais, como a instalação de centros de hidratação e o envio de equipes da Força Nacional do SUS às regiões mais afetadas, o governo aposta alto em uma solução de médio e longo prazo: a vacina contra dengue desenvolvida pelo Instituto Butantan. A expectativa é que a Anvisa conclua a aprovação até o fim de 2025, abrindo caminho para a vacinação em massa a partir de 2026. A parceria com a farmacêutica chinesa WuXi Biologics prevê a entrega de 40 milhões de doses no próximo ano.
A estratégia representa mais do que uma medida sanitária: é também um símbolo de soberania científica e capacidade de resposta do Estado brasileiro diante de um problema que se agravou justamente pela negligência histórica com a saúde preventiva. O filósofo e sociólogo francês Michel Foucault já observava, em “O Nascimento da Biopolítica”, que o controle sobre os corpos e a gestão da saúde coletiva são formas centrais de exercício do poder moderno. A política de vacinação se insere nesse contexto como instrumento de cuidado e de governança.
Mato Grosso do Sul: um laboratório vivo de inovação no controle da dengue
Se, de um lado, São Paulo concentra quase 900 mil casos prováveis e lidera o ranking nacional também em número de mortes (1.096), do outro, o Mato Grosso do Sul apresenta um dos casos mais notáveis de redução da incidência da doença em 2025 — apenas 295 casos por 100 mil habitantes, bem abaixo da média nacional.
A mudança se deve, em grande parte, ao Projeto Wolbachia, iniciado em 2020 e finalizado em novembro deste ano. A iniciativa consistiu na soltura massiva de mosquitos Aedes aegypti infectados com a bactéria Wolbachia pipientis, que impede a transmissão de dengue, zika, chikungunya e febre-amarela. Só em Campo Grande, foram liberados 112 milhões de mosquitos modificados em 74 bairros, beneficiando cerca de 950 mil pessoas.
A estratégia, inspirada em projetos semelhantes realizados com sucesso na Austrália, na Indonésia e no Vietnã, representa uma virada paradigmática no controle de arboviroses. Para o biólogo Scott O’Neill, diretor do World Mosquito Program (WMP) e pioneiro no uso da bactéria, “a Wolbachia pode transformar a maneira como combatemos essas doenças, reduzindo a necessidade de pesticidas e promovendo soluções sustentáveis”.
A eficácia do método será monitorada pelos próximos dois anos, mas os primeiros resultados já animam autoridades locais e especialistas. O sucesso sul-mato-grossense lança luz sobre o potencial da ciência aplicada no campo da saúde pública — algo que, historicamente, sofre com a descontinuidade e o subfinanciamento no Brasil.
O desafio da desigualdade no combate à dengue
A desigual distribuição dos casos pelo território nacional não é um fenômeno meramente climático ou biológico. Ela também revela as desigualdades estruturais que atravessam o Brasil: acesso precário a saneamento básico, gestão municipal fragilizada, baixa cobertura de agentes de endemias e ineficiência na coleta de lixo são fatores que convergem para o agravamento da epidemia em determinadas regiões.
O sociólogo Herbert de Souza, o Betinho, já dizia que “quem tem fome, tem pressa”. A mesma lógica se aplica à saúde: quem está exposto ao mosquito, tem urgência. A dengue, neste sentido, é uma doença que expõe, com brutal clareza, a interseção entre meio ambiente, políticas públicas e justiça social.
Mais do que combater o mosquito, é preciso enfrentar os vetores da negligência institucional e da desigualdade. A dengue, afinal, não respeita muros nem fronteiras — mas escolhe suas vítimas com base em um velho conhecido critério: a vulnerabilidade social.
Caminhos para o futuro: ciência, prevenção e responsabilidade coletiva
O “Dia D” deste sábado é, sobretudo, um lembrete de que o combate à dengue exige mais do que campanhas pontuais. Requer vontade política, investimento contínuo e cooperação entre governos e sociedade civil. Assim como exige a valorização da ciência e das soluções inovadoras — como a vacina nacional e os mosquitos Wolbachia — em lugar de respostas improvisadas e fragmentadas.
Enquanto isso, o exemplo do Mato Grosso do Sul deve servir de inspiração para o país inteiro: quando políticas públicas bem planejadas encontram base científica e apoio social, o impacto positivo é real e mensurável.
Como apontou a médica e pesquisadora Margareth Dalcolmo, da Fiocruz, em entrevista à BBC Brasil: “O enfrentamento das arboviroses no Brasil é uma questão de saúde pública, sim, mas também é uma questão de cidadania, de justiça social e de escolha política.”
Se o Brasil quiser, de fato, virar o jogo contra a dengue, precisará fazer essa escolha — e sustentá-la muito além do “Dia D”.
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