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Saúde

Aumento de casos de perda de visão em mutirões de catarata acende alerta para segurança nos procedimentos

Em 15 anos, ao menos 276 pessoas perderam a visão em mutirões pelo Brasil

Publicado em 30/10/2024 11:10 - Semana On

Divulgação

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Nos últimos 15 anos, ao menos 276 pessoas no Brasil perderam parcial ou totalmente a visão em mutirões de cirurgias de catarata, segundo um levantamento feito com base em relatos divulgados pela imprensa. Em alguns casos mais graves, os pacientes chegaram a ter o globo ocular removido. O dado acende um alerta sobre a segurança desses mutirões, que têm sido realizados por prefeituras e governos estaduais em diversas regiões do país.

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A questão ganhou destaque após um recente mutirão em Parelhas, no Rio Grande do Norte, onde nove pessoas tiveram o globo ocular infectado e precisaram removê-lo. O caso aconteceu entre os dias 27 e 28 de setembro e levou o Conselho Brasileiro de Oftalmologia (CBO) a emitir recomendações de segurança para esse tipo de iniciativa. A entidade argumenta que, embora a cirurgia de catarata seja comum e relativamente simples, os mutirões aumentam significativamente o risco de infecções, como a endoftalmite, uma inflamação grave que pode causar danos irreversíveis à visão.

Riscos aumentados em mutirões

Em entrevista, a presidente do CBO, Wilma Lelis, explicou que os mutirões não são necessários, pois o Sistema Único de Saúde (SUS) é capaz de absorver a demanda ao longo do ano. Em 2023, o SUS realizou mais de 1 milhão de cirurgias de catarata, e a fila atual de espera é de cerca de 167 mil pacientes. Segundo Lelis, a prática de mutirões tem sido adotada como uma medida para exibir eficiência no atendimento público, mas o foco em rapidez acaba colocando em risco a saúde dos pacientes.

“Se olharmos a época do ano e a frequência com que os mutirões ocorrem, vemos que muitas vezes são feitos para demonstrar resultados rápidos, mas isso gera riscos. A cirurgia de catarata não é urgente e pode ser realizada de forma segura ao longo do ano”, afirmou Lelis.

A oftalmologista destaca que, nesses mutirões, há um alto risco de contaminação devido à falta de acompanhamento adequado no pós-operatório, já que muitas vezes os médicos são contratados de outras localidades e não permanecem para monitorar os pacientes. “Os médicos vão, operam e depois vão embora, o que prejudica o acompanhamento. O pós-operatório é fundamental para evitar complicações”, explicou.

Casos em diversas regiões do Brasil

O caso de Parelhas não é um episódio isolado. Em São Bernardo do Campo, em 2016, 22 pacientes sofreram de endoftalmite aguda após serem operados com instrumentos sem a esterilização adequada. Na ocasião, o mesmo bisturi foi usado em 27 pessoas consecutivamente, sem a devida desinfecção. Só em 2023 o médico responsável foi penalizado, enquanto os pacientes continuam recebendo acompanhamento médico e psicológico.

Outro incidente grave ocorreu em 2019, no Mato Grosso, onde 14 pessoas tiveram complicações após um mutirão organizado pelo governo estadual. O caso resultou em ações judiciais e investigações pelo Ministério Público. Após o ocorrido, o governo do estado decidiu interromper os mutirões e investir em uma estrutura hospitalar adequada para reduzir as filas de espera.

Nos três episódios, as cirurgias foram realizadas por empresas terceirizadas contratadas pelos municípios, algo que a presidente do CBO também desaconselha. “Sugerimos que os gestores priorizem realizar os procedimentos dentro da própria rede de saúde local, com médicos que conheçam o sistema e permaneçam no município para acompanhar os pacientes”, afirmou.

Recomendações de segurança

O Conselho Brasileiro de Oftalmologia recomenda que os procedimentos de catarata sejam realizados apenas em centros especializados de oftalmologia, equipados com tecnologia adequada para esterilização e controle de contaminação. A prática de realizar cirurgias em ambientes improvisados, como tendas ou unidades móveis, aumenta o risco de infecções graves, como a endoftalmite.

No caso de Parelhas, as cirurgias foram feitas em uma maternidade, o que, segundo especialistas, não é o ambiente ideal para procedimentos oftalmológicos. “Unidades de saúde dedicadas a outras áreas não possuem os equipamentos adequados para garantir a esterilização e o controle de infecção que uma cirurgia ocular exige”, alertou Lelis.

Além disso, o CBO desaconselha o uso de mutirões para lidar com a demanda de cirurgias de catarata. A catarata, que é o envelhecimento natural do cristalino do olho, pode ser tratada sem urgência, e o uso de óculos pode atenuar seus efeitos até que o paciente possa ser operado em condições mais seguras.

Investimentos no SUS

Diante das críticas aos mutirões, o Ministério da Saúde criou, em 2023, o Programa Nacional de Redução das Filas de Cirurgias Eletivas, Exames Complementares e Consultas Especializadas (PNRF), com um orçamento de R$ 600 milhões. A iniciativa visa reduzir as filas de espera por cirurgias eletivas, como as de catarata, de forma estruturada e segura, sem a necessidade de mutirões de curta duração.

A adoção de um modelo de atendimento contínuo, com foco na segurança do paciente, é vista como a melhor solução para evitar complicações e garantir que os procedimentos sejam realizados com o acompanhamento adequado. “Com um sistema robusto e bem planejado, é possível atender a demanda sem expor os pacientes a riscos desnecessários”, concluiu Lelis.

Recomendações para pacientes em mutirões de catarata

Tire dúvidas
Perguntar e tirar dúvidas ou preocupações sobre qualquer procedimento que será realizado com a equipe médica.

Quais são os medicamentos?
Perguntar o nome e a função de todos os medicamentos, dosagens, efeitos colaterais e quando devem ser tomados.

Verifique a higiene
Certifique-se que o local do procedimento tenha onde lavar as mãos dos médicos, pacientes e acompanhantes.

Pré-cirúrgico
Informe-se como se prepara para cirurgia para reduzir riscos adversos e infecções.

Lave as mãos
Higienize as mãos com água e sabonete líquido ou álcool em gel. Peça ao médico para fazer o mesmo.

Evite toques
Não encoste em nariz, olhos e boca durante a cirurgia. Também evite tocar nos demais pacientes.

Confira se é o olho correto
Certifique-se que o olho está demarcado antes da cirurgia e avise a equipe da saúde se algo estiver errado.

Pós-cirúrgico
Informe-se sobre o que evitar depois da cirurgia e retirada de pontos e comunique imediatamente se sentir sintomas como febre, secreção e vermelhidão no local operado.


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