22/04/2024 - Edição 540

Saúde

A poliomielite pode voltar ao Brasil?

Cobertura vacinal contra a paralisia infantil caiu nos últimos anos, com centenas de milhares de crianças brasileiras não recebendo nenhuma dose

Publicado em 03/05/2023 9:49 - Laís Modelli (DW), Rafael Cardoso (Abr) – Edição Semana On

Divulgação Tomaz Silva - Abr

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Após permanecer mais de 30 anos livre da poliomielite, a América registrou um caso em março deste ano, no Peru, em uma criança indígena. Por se tratar de uma infecção grave e transmissível, a Organização Panamericana de Saúde (Opas) e o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) emitiram alertas de risco de reintrodução da doença no continente, com alto risco para a tríplice fronteira entre Peru, Colômbia e Brasil.

Em 1994, as Américas se tornaram a primeira região do mundo a ser certificada como livre da pólio pela Organização Mundial da Saúde (OMS). Enquanto em todo o continente americano o último caso da doença havia sido registrado em 1991, o Brasil está livre da poliomielite desde 1989, graças a uma campanha robusta de imunização que manteve a cobertura vacinal de todo o país em níveis acima dos 95%, recomendados pela OMS para impedir a circulação do vírus.

Porém, há pelo menos quatro anos, as taxas de vacinação no Brasil estão significativamente abaixo do recomendado. Segundo dados do Ministério da Saúde, a cobertura vacinal (porcentagem da população com o esquema vacinal completo) contra a doença nos últimos anos foi de:

– 84,19% em 2019;

– 76,79% em 2020;

– 71,04% em 2021;

– 77,12% em 2022.

As coberturas vacinais contra a poliomielite nos dois estados que fazem fronteira com o Peru estão abaixo da média nacional: no Acre, foi de 71,4% em 2022, e no Amazonas, de 76,9%.

Diante da baixa cobertura, o pediatra Márcio Nehab, coordenador da residência médica em imunologia pediátrica do Instituto Nacional de Saúde da Mulher, da Criança e do Adolescente Fernandes Figueira (IFF), alerta que praticamente todo o Brasil corre o risco de reintrodução do vírus da pólio, e não somente a região de fronteira com o Peru.

“Todos os estados correm risco, menos Amapá e Paraíba, que já voltaram a recuperar altas coberturas vacinais em 2022, segundo dados do DataSUS. Fora esses dois estados, todos os outros estão com coberturas abaixo da recomendação da OMS para o controle da doença (95%)”, explica Nehad.

Milhares de crianças em risco

Entre 2019 e 2021, 1,6 milhão de crianças no Brasil não tomaram nenhuma dose de vacina contra a pólio e 2 milhões ficaram sem as doses recomendas, segundo o relatório Situação Mundial da Infância 2023: Para cada criança, vacinação, do Unicef, lançado no último dia 20 de abril. O documento afirma que é urgente o governo brasileiro encontrar cada uma dessas crianças não imunizadas contra a doença.

“Uma busca ativa por essas crianças, olhando para municípios e estados com maiores números absolutos de não vacinadas e não imunizadas, é essencial, pois elas já ficaram para trás, e correm o risco de nunca serem imunizadas e protegidas”, disse o representante do Unicef no Brasil, Youssouf Abdel-Jelil.

Dados do Ministério da Saúde de 2022 pedidos pela DW mostram que 412.836 crianças, ou 3,5% do público-alvo da Campanha Nacional de Vacinação contra a Poliomielite (de 11,5 milhões de crianças menores de cinco anos), não receberam nenhuma dose da vacina no ano passado.

O estado com a menor cobertura vacinal entre as crianças menores de 5 anos em 2022 foi justamente o Acre, que faz fronteira com o Peru, com apenas 39% de cobertura vacinal em menores de 5 anos. Na sequência, estão Rio de Janeiro (50,9%), Roraima (53,4%) e Distrito Federal (54,4%).

No Acre, 20.090 crianças estão com a vacinação incompleta, e 2.551 nunca foram vacinadas contra a pólio, de acordo com dados da Secretaria de Saúde do Acre (Sesacre).

A DW pediu à Secretaria de Saúde do Amazonas dados referentes às crianças que nunca foram imunizadas contra a doença, mas o órgão não retornou o pedido.

O sucesso do Zé Gotinha

Nehab alerta que, para estarem protegidas contra a pólio, crianças de até 5 anos devem ter completado o esquema vacinal composto por cinco doses: três da Vacina Inativada Poliomielite (VIP) – a primeira aos dois meses; a segunda aos 4 meses; e a última aos seis meses – e outras duas doses de reforço da Vacina Oral Poliomielite (VOP) – aos 15 meses e aos 4 anos de idade.

“Crianças que têm o calendário vacinal completo, de cinco doses, estão imunes a pólio. Quem não tem o esquema vacinal completo, deve tomar as doses que faltam”, orienta o pediatra.

A vacina oral VOP é a famosa vacina do Zé Gotinha, personagem criado em 1986 em uma campanha do Ministério da Saúde para erradicar a pólio no Brasil. E estratégia do Zé Gotinha deu tão certo que, em apenas três anos de campanha, o país conseguiu eliminar o vírus do país.

Porém, ao contrário da varíola, a poliomielite não foi erradicada no mundo. Por isso, o Unicef alerta que enquanto houver um infectado, crianças de todos os países que não completaram o esquema vacinal ou que nunca se imunizaram contra a doença correm o risco de contrair o vírus.

Pesquisadores alertam

A sétima edição do International Symposium on Immunobiologicals (ISI), aberta na terça-feira (2), também alerta para o risco alto da volta da poliomielite ao Brasil. A doença, erradicada no país desde 1989, pode matar ou provocar sequelas motoras graves.

Em um dos debates do dia, pesquisadores apontaram a baixa cobertura como principal motivo de preocupação com a paralisia infantil, como a doença também é conhecida.

O evento é promovido pelo Instituto de Tecnologia em Imunobiológicos da Bio-Manguinhos/Fiocruz, no Rio de Janeiro.

A presidente da Câmara Técnica de Poliomielite do Ministério da Saúde, Luiza Helena Falleiros, destacou o conjunto de fatores que levaram a esse cenário e disse que existe um risco evidente. “Com o processo de imigração constante, com baixas coberturas vacinais, a continuidade do uso da vacina oral, saneamento inadequado, grupos antivacinas e falta de vigilância ambiental, vamos ter o retorno da pólio. O que é uma tragédia anunciada”, afirmou.

Luiza Helena lembrou que sempre se diz que as vacinas são vítimas do seu próprio sucesso. “Hoje ninguém mais viu um caso de pólio. Não se tem essa noção de risco enorme, mas ele existe. E não tem milagre, nem segredo. Tem que vacinar.”

A pesquisadora citou um estudo do Comitê Regional de Certificação de Erradicação da Polio 2022, da Organização Pan-Americana da Saúde (Opas), que aponta o Brasil como segundo país das Américas com maior risco de volta da poliomielite, atrás apenas do Haiti.

Situação vacinal na fronteira

Cidades do Acre e do Amazonas na região de fronteira com o Peru estão com a cobertura vacinal contra a poliomielite muito abaixo do recomendado de 95%.

Segundo dados da Secretaria de Saúde do Acre, a cobertura vacinal na população em geral em 2022 em Cruzeiro do Sul e Mâncio Lima foi de apenas 63% e 58%, respectivamente. Na capital Rio Branco, a cobertura foi de 72,5%.

A situação é pior ainda na região de fronteira do Amazonas: em Benjamin Constant, a cobertura no ano passado contra a poliomielite na população em geral ficou em 37,8%; em Atalaia do Norte, em 53,5%; e em Tabatinga, em 60,5%, de acordo com dados da Secretaria de Saúde do Amazonas.

Na Colômbia, dados do Unicef de 2021 mostram que apenas 86% das crianças de até 2 anos foram imunizadas contra a pólio. No Peru, a cobertura vacinal para a mesma faixa etária foi de 79% naquele ano.

Devo me vacinar?

Também conhecida como paralisia infantil por poder paralisar os membros inferiores, a poliomielite é uma doença debilitante e contagiosa, infectando tanto crianças quanto adultos não imunizados. A infecção pelo poliovovírus se dá por meio do contato direto com fezes ou com secreções eliminadas pela boca das pessoas doentes. A única forma de prevenção é a vacinação.

Por isso, Nehab alerta que qualquer pessoa, independentemente da idade, que não tenha se imunizado contra a pólio deve se vacinar.

“Adultos que não têm o esquema vacinal completo contra a poliomielite devem tomar as doses que faltam. Quem não tomou nenhuma dose, deve tomar três doses”, explica.

Os adultos que nunca tomaram uma dose da vacina devem seguir o seguinte esquema: duas doses com intervalo de um a dois meses; e uma terceira dose no intervalo de seis a 12 meses após a segunda.

Em nota, o Ministério da Saúde afirmou que recuperar as altas coberturas vacinais é prioridade da atual gestão.

“O Ministério da Saúde fortaleceu o Programa Nacional de Imunizações (PNI) e espera retomar as coberturas acima de 90%. Uma das principais estratégias será a mobilização em escolas para informar sobre a importância de atualizar a Caderneta de Vacinação. A ação é elaborada em conjunto com o Ministério da Educação, estados e municípios”, escreveu a pasta.


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