Entre em nosso grupo
2
19.485.790/0001-70
Saúde
Atendimento gratuito surpreende e expõe valor de um sistema que muitos brasileiros não reconhecem
Publicado em 05/07/2025 9:57 - Victor Barone
Clique aqui e contribua para um jornalismo livre e financiado pelos seus próprios leitores.
Num país em que o direito à saúde está escrito na Constituição e se materializa em uma rede que alcança do Oiapoque ao Chuí, o gesto mais simples — como atender sem cobrar por isso — ainda causa espanto. Foi o que aconteceu com o jornalista americano Terrence McCoy, do The Washington Post, ao ser atendido em um hospital público em Paraty (RJ) após sofrer um corte na cabeça. Recebeu cuidados médicos, medicamentos, exames e dignidade — tudo sem desembolsar um centavo. “A conta do hospital do meu filho foi a mesma que a minha: US$ 0”, relatou. Para quem vem de um país onde o atendimento médico depende do cartão de crédito, o episódio foi revelador.
CLIQUE PARA SEGUIR A SEMANA ON NO INSTAGRAM, NO FACEBOOK E NO WHATSAPP
A surpresa de McCoy não é apenas um caso pitoresco. É um espelho que revela duas realidades opostas: a de uma nação desenvolvida, os Estados Unidos, que ainda não consegue garantir saúde como direito universal, e a do Brasil, um país de desigualdades crônicas, que ousou construir um dos maiores sistemas públicos de saúde do planeta — o SUS.
Criado pela Constituição de 1988, no processo de redemocratização, o Sistema Único de Saúde é fruto da pressão de movimentos sociais, sanitaristas e parlamentares comprometidos com a ideia de que saúde é um direito de todos e dever do Estado. Não foi concessão. Foi conquista. Um pacto civilizatório nascido da tragédia da exclusão e da esperança democrática.
Um sistema onipresente (mas invisível)
O que McCoy viu de perto é apenas a face mais visível do SUS: o atendimento médico direto. Mas há muito mais por trás da sigla. Quando uma criança é vacinada, quando se bebe água potável, quando se come em um restaurante fiscalizado, quando uma ambulância do SAMU chega para salvar uma vida, é o SUS que está em ação. Mesmo invisível, ele protege vidas o tempo todo.
O Brasil tem um dos maiores programas públicos de transplantes de órgãos do mundo, com 96% dos procedimentos realizados pelo SUS. O mesmo sistema oferece tratamento gratuito para câncer, HIV, doenças crônicas como hipertensão e diabetes, além de distribuir medicamentos e manter programas de saúde da família em áreas remotas.
Durante a pandemia de COVID-19, o SUS foi o alicerce que impediu o colapso completo da saúde pública nacional. Comandou a maior campanha de vacinação da história do país, atuou na linha de frente e ainda supriu a ausência de coordenação do governo federal em momentos críticos. Como afirmou a epidemiologista Gulnar Azevedo e Silva, ex-presidente da Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco): “Sem o SUS, o desastre da pandemia teria sido muito maior. Foi ele que segurou as pontas quando tudo mais falhou”.
Uma conquista que poucos reconhecem
Apesar de sua abrangência e impacto, o SUS ainda é alvo de desinformação, desprezo e até chacota. Muitos brasileiros não compreendem a complexidade e a importância do sistema. Parte disso se deve à precariedade visível em muitas unidades de saúde, fruto do subfinanciamento crônico que atinge o SUS há décadas. Em 2023, o orçamento federal destinado ao sistema representou apenas 3,9% do PIB — muito abaixo da média dos países da OCDE.
Mas o problema não é o modelo em si. É a falta de compromisso político com sua manutenção e ampliação. “O SUS foi subfinanciado desde a sua criação. Em vez de criticar a lógica de sua concepção, deveríamos lutar pelo seu financiamento adequado”, defende o sanitarista e pesquisador da Fiocruz, Gastão Wagner de Sousa Campos.
Além disso, a cultura política clientelista e o elitismo entranhado nas classes médias urbanas dificultam a valorização do serviço público. Ter plano de saúde é visto como símbolo de sucesso, enquanto usar o SUS é muitas vezes estigmatizado. O resultado é um duplo equívoco: as falhas são atribuídas ao sistema como se fossem naturais, e suas virtudes são ignoradas ou tratadas como exceção.
O paradoxo da gratidão
Talvez o maior desafio do SUS seja o simbólico. Ao contrário de países como Reino Unido e Canadá — onde os sistemas públicos de saúde são motivo de orgulho nacional —, no Brasil, o SUS é, em geral, mais lembrado pelas filas do que pelas vidas salvas. A naturalização do serviço gratuito e o desconhecimento sobre seu alcance alimentam um paradoxo cruel: quanto mais o SUS funciona, menos ele é notado. E quando falha, é condenado sem apelação.
McCoy conclui sua reportagem com uma reflexão que deveria nos constranger: “Minha admissão inesperada em um hospital público brasileiro serviu como uma espécie de aprendizado sobre um sistema fundamentalmente diferente”. De fato, é preciso que um estrangeiro nos diga o óbvio: saúde pública gratuita e universal não é dádiva. É patrimônio democrático. E como todo patrimônio, deve ser defendido, fiscalizado e valorizado.
Entre a utopia e o descaso
A crítica ao SUS é legítima e necessária — desde que dirigida aos verdadeiros responsáveis pelo seu sucateamento: governos que cortam verbas, políticos que lucram com a privatização da saúde, gestores que negligenciam direitos básicos. O que não se pode fazer é jogar fora a utopia concreta que ele representa.
Como disse o médico e ex-ministro da Saúde, José Gomes Temporão, em entrevista ao Instituto Humanitas Unisinos: “O SUS é uma das maiores invenções da sociedade brasileira. Ele precisa ser defendido não apenas pelos usuários, mas por todos aqueles que acreditam em justiça social.”
Defender o SUS é defender a ideia de que um país não pode abandonar os seus na hora da dor. É afirmar que vidas humanas não devem ser precificadas. E é, sobretudo, reconhecer que há políticas públicas que, mesmo imperfeitas, nos tornam uma nação mais civilizada.
Se a experiência de um jornalista americano foi suficiente para acender o alerta, talvez seja hora de o Brasil olhar com mais atenção para o que tem. E lutar, como em 1988, para que o direito à saúde continue sendo mais do que uma promessa constitucional: que siga sendo realidade — gratuita, universal, pública e digna.
Dengue: vacina do Butantan deve estar disponível no início de 2026
Deixe um comentário