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Poder

Trumpismo ataca Brasil e expõe tutela bolsonarista sobre interesses nacionais

Enquanto Tarcísio reafirma submissão da direita a Bolsonaro, Eduardo articula retorno ao país

Publicado em 13/05/2025 11:26 - Semana On

Divulgação Reprodução

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O jantar promovido pela entidade Esfera, em Nova York, transcendeu as formalidades diplomáticas e revelou uma faceta incômoda da política brasileira: a vulnerabilidade de suas elites frente à ingerência estrangeira. Sob o pretexto de aconselhamento econômico, Mauricio Claver-Carone — ex-representante do governo Donald Trump para a América Latina — lançou duras críticas ao Brasil, listando “crime, corrupção e câmbio” como entraves ao desenvolvimento. O tom, porém, foi menos o de um diagnóstico técnico e mais o de um ultimato político.

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“Gostamos de países dolarizados”, disparou Carone, numa clara insinuação de que a soberania monetária brasileira representa um obstáculo para investidores americanos. Mais do que uma preocupação com riscos cambiais, a fala expressa uma visão intervencionista que remonta à tradição da Doutrina Monroe e ao histórico de ingerência dos Estados Unidos na América Latina — prática amplificada sob o trumpismo.

Não por acaso, Carone também atacou a aproximação do Brasil com a China, reforçando a lógica de “esfera de influência” típica da Guerra Fria, mas atualizada para a disputa sino-americana no século XXI. O Brasil, nesse contexto, é visto não como parceiro, mas como território a ser disciplinado conforme os interesses estratégicos de Washington.

Soberania questionada, reação tímida

A reação do governo brasileiro, representada por Dario Durigan, secretário-executivo do Ministério da Fazenda, foi direta: “Isso é besteira”, afirmou, negando qualquer aliança automática com a China e defendendo uma política externa guiada pelos interesses nacionais. Apesar do tom firme, o episódio expôs uma fragilidade recorrente: a dificuldade do Brasil em afirmar sua autonomia em espaços de poder internacional, especialmente diante da ofensiva política e ideológica da extrema-direita global.

A presença maciça de autoridades brasileiras no evento — de governadores como Tarcísio de Freitas (SP) e Ronaldo Caiado (GO) a representantes dos Três Poderes — mostrou como os laços entre parte da elite política brasileira e o trumpismo seguem fortes, refletindo uma simbiose que ultrapassa governos e se ancora em afinidades ideológicas.

Dependência crônica e falta de projeto alternativo

Se no plano externo o bolsonarismo ainda serve como ponte para a influência trumpista, no cenário interno ele permanece como o eixo estruturante da direita brasileira. A admissão de Tarcísio de Freitas foi reveladora: “Não existe direita sem Bolsonaro”, afirmou o governador, reconhecendo a incapacidade do campo conservador de se reconfigurar programaticamente sem a figura do ex-presidente.

O personalismo, conceito clássico de Max Weber, aplica-se com precisão ao caso brasileiro. A direita não construiu uma alternativa ideológica robusta que vá além da figura de Bolsonaro, mantendo-se refém de sua popularidade e de sua agenda polarizadora.

As pesquisas refletem essa dependência: Tarcísio lidera com folga para a reeleição em São Paulo, mas no cenário nacional aparece muito atrás de Lula. Sua afirmação de que pretende “ajudar a fortalecer uma candidatura de direita, seja com Bolsonaro ou outro”, soa mais como desejo do que como plano concreto, diante da força simbólica que Bolsonaro ainda detém.

Eduardo Bolsonaro e a política da confrontação internacionalizada

Paralelamente, Eduardo Bolsonaro continua a instrumentalizar a conexão com a extrema-direita americana para influenciar o cenário político brasileiro. Em visita recente aos EUA, onde buscou apoio para pressionar o Supremo Tribunal Federal (STF) e o governo Lula, Eduardo foi acusado de conspirar contra as instituições nacionais — ação que resultou em pedido de cassação por quebra de decoro parlamentar.

O anúncio de seu retorno ao Brasil, feito por Ciro Nogueira, indica a retomada de uma estratégia de confronto direto, utilizando-se de pautas importadas do trumpismo para deslegitimar o Judiciário e desestabilizar a democracia brasileira. Trata-se de uma tática que ecoa os ataques de Donald Trump ao sistema eleitoral americano, culminando na invasão do Capitólio em 6 de janeiro de 2021 — episódio que serviu de inspiração para os atos golpistas de 8 de janeiro de 2023 em Brasília.

Um projeto de dependência

O episódio de Nova York evidenciou que o bolsonarismo não apenas mantém vínculos estreitos com a agenda trumpista, como também funciona como vetor dessa influência sobre a política brasileira. A tentativa de tutelar a agenda econômica e geopolítica do Brasil por meio de discursos como o de Claver-Carone reflete uma visão de mundo onde soberania nacional é subordinada a interesses externos — com a cumplicidade de setores políticos e empresariais alinhados ao bolsonarismo.

Como alerta o historiador Luiz Felipe de Alencastro, “o Brasil precisa parar de pensar como colônia e agir como país soberano” (O Trato dos Viventes, Companhia das Letras). Enquanto a direita permanecer prisioneira do bolsonarismo e alinhada a projetos de submissão geopolítica, o país seguirá vulnerável às pressões externas e incapaz de construir um futuro que respeite sua diversidade e seu potencial autônomo no cenário internacional.

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