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Poder

Trumpismo à brasileira à beira do abismo

Novas sanções dos EUA testam limites da lealdade de governadores bolsonaristas ao país

Publicado em 16/09/2025 9:40 - Semana On

Divulgação Reprodução

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A Casa Branca de Donald Trump anunciou novas sanções contra o Brasil, prometidas para a próxima semana, em resposta à condenação de Jair Bolsonaro a 27 anos de prisão pelo Supremo Tribunal Federal (STF). A retaliação impulsiona a polarização política interna e pressiona governadores aliados do ex-presidente a definir, de forma inequívoca, se servem aos interesses nacionais ou ao trumpismo importado dos Estados Unidos.

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A declaração foi feita por Marco Rubio, atual secretário de Estado do governo Trump, em entrevista à Fox News. Rubio classificou a decisão da justiça brasileira como “mais um capítulo de uma crescente campanha de opressão judicial” – narrativa alinhada com o discurso do próprio Bolsonaro e, não por acaso, com o de Trump, que também enfrenta múltiplos processos nos EUA. Ao prometer sanções, Rubio se referiu diretamente à atuação do Supremo Tribunal Federal e sugeriu que empresas de tecnologia norte-americanas estariam sendo prejudicadas por decisões da Justiça brasileira.

Na semana anterior, após o veredicto que levou à condenação de Bolsonaro, Rubio já havia afirmado, via rede X (antigo Twitter), que “os Estados Unidos responderão à caça às bruxas no Brasil”, expressão que ecoa a retórica trumpista usada tanto para desacreditar o sistema judicial americano quanto, agora, o brasileiro.

O anúncio acendeu um sinal de alerta no Palácio do Planalto. Lula, em um artigo publicado no New York Times um dia antes da declaração de Rubio, tentava abrir canais diplomáticos, propondo um “diálogo franco” com os EUA. No texto, criticava as tarifas norte-americanas às exportações brasileiras e a aplicação da chamada Lei Magnitsky — que impôs sanções individuais ao ministro Alexandre de Moraes — como instrumentos políticos para pressionar o Brasil a aliviar o cerco judicial a Bolsonaro. Lula foi direto: “o objetivo é obter impunidade para Bolsonaro”.

Rubio ignorou o aceno diplomático de Lula. E ao não especificar se as sanções serão econômicas, políticas ou individuais, o secretário de Estado ampliou a incerteza — e, com ela, os riscos. O gesto é interpretado por aliados do governo como interferência explícita no processo político brasileiro e pode dificultar, inclusive, pedidos da defesa de Bolsonaro para que ele cumpra pena em regime domiciliar.

Ao mesmo tempo, a ofensiva internacional de Trump — via Rubio — se mostra funcional ao projeto eleitoral de Lula. A retórica da “soberania nacional ameaçada” encontra eco num eleitorado sensível à ideia de interferência externa, sobretudo vinda dos EUA, e deve ser central no discurso que o presidente fará na abertura da Assembleia Geral da ONU, na próxima terça-feira. Lula será o primeiro chefe de Estado a discursar; Trump falará na sequência. A tensão entre os dois líderes poderá extrapolar o púlpito e se materializar nos bastidores do evento.

Essa escalada coloca em xeque a posição dos governadores brasileiros aliados de Bolsonaro. Tarcísio de Freitas, Romeu Zema, Ronaldo Caiado e Ratinho Jr. apoiaram as críticas de Trump à condenação de Bolsonaro. Agora, diante da nova rodada de sanções prometida por Washington, precisam definir se defendem a legalidade brasileira ou os interesses de uma potência estrangeira que trata a política local como extensão de sua própria disputa interna.

A ambiguidade desses líderes tem prazo de validade. Se, em nome da coerência ideológica, optarem por aplaudir as medidas da Casa Branca, estarão, na prática, endossando a tese de que o Brasil deve subordinar seu sistema de Justiça às vontades do governo Trump. Seria uma rendição simbólica — e eleitoralmente arriscada.

Como ironizou o jornalista Elio Gaspari certa vez, “pior do que o bolsonarismo primário, só o trumpismo inocente” — aquele que se curva a todas as fantasias imperiais do ex-presidente norte-americano. A crítica, feita em contexto semelhante, continua válida. Em vez de defender o país, os presidenciáveis conservadores correm o risco de transformar suas candidaturas em embaixadas informalmente subordinadas ao trumpismo global.

A depender das escolhas que fizerem agora, saberemos quantos “Bolsonaros” estarão, de fato, nas urnas em 2026. O número não depende apenas do ex-presidente — mas da quantidade de candidatos dispostos a replicar sua agenda, seus métodos e, agora, até sua submissão internacional.

Tarcísio entre o bolsonarismo e a história

A defesa pública de Tarcísio de Freitas pela anistia de Jair Bolsonaro provocou forte reação de juristas e intelectuais. Para o ex-desembargador e jurista Wálter Maierovitch, o governador de São Paulo trai a tradição constitucionalista do estado ao se alinhar a um projeto autoritário. “Ele cospe na história de São Paulo”, afirmou o magistrado.

A crítica de Maierovitch foi direta e sem eufemismos. Em entrevista recente, o jurista lembrou a Revolução Constitucionalista de 1932, movimento emblemático liderado por São Paulo contra o autoritarismo de Getúlio Vargas, como marco histórico de defesa da legalidade e do Estado de Direito no país. “Ele, que é carioca, deveria se debruçar sobre a história do estado de São Paulo e reparar o que aconteceu naquilo que se chamou Revolução Constitucionalista de 1932″, declarou. “São Paulo brigou pelo constitucionalismo. E o que faz esse governador? Vira um golpista, um contra a Constituição.”

A lembrança não é casual. O movimento de 1932 mobilizou amplos setores da sociedade paulista em defesa de uma Constituição para o país, em um contexto em que Vargas governava por decretos, após o golpe de 1930. O jurista ainda mencionou os mártires MMDC — Martins, Miragaia, Dráusio e Camargo — como símbolos da resistência legalista que, segundo ele, vêm sendo desrespeitados pela atual gestão estadual: “Esse governador cospe na história de São Paulo”, repetiu.

A reação de Maierovitch se soma a uma crescente crítica ao que analistas têm chamado de “mito da moderação” em torno de Tarcísio. Por algum tempo considerado um “bolsonarista moderado”, o governador paulista acumulou decisões que, aos olhos de críticos, desmontam essa reputação. Sua defesa irrestrita do legado de Bolsonaro, inclusive após a condenação, sua proposta de criação de escolas cívico-militares, o modelo de privatização da Sabesp e sua aproximação com o ruralismo conservador compõem o que muitos veem como um perfil reacionário com verniz técnico.

O jornalista Reinaldo Azevedo, em artigo recente, descreve Tarcísio como um “sapo reacionário” que jamais dará origem ao “príncipe progressista” que parte da elite econômica e política gostaria de ver. “Dizer que o governador de São Paulo cometeu um erro ao atacar o STF é reincidir na tolice de que ele é uma alma progressista torturada num corpinho reacionário. Não é”, escreve Azevedo. “Trata-se apenas de um reaça mais instruído, com mais trânsito entre os endinheirados.”

Essa ambiguidade — ou, para muitos, duplicidade calculada — foi desnudada também na escolha simbólica de Javier Milei como modelo de governo, feita pelo próprio Tarcísio durante seminário recente. A referência ao presidente argentino, conhecido por seu ultraliberalismo radical e confrontos com o sistema democrático, não passou despercebida. A Argentina, aliás, vive atualmente uma das mais graves crises econômicas de sua história, com inflação acumulada superior a 120% ao ano e forte empobrecimento da população.

A crítica de Azevedo avança sobre o tratamento dado a Tarcísio pela imprensa e por setores da elite. “Ele pertence àquela categoria de pessoas que é muito competente em criar a fama de que é competente”, ironiza. O colunista também rejeita a ideia de que o governador seja um “erro” estratégico do bolsonarismo. Ao contrário, sugere que o desconforto da família Bolsonaro com Tarcísio decorre do fato de ele ser “essencialmente igual”, mas com mais aceitação entre empresários e elites políticas.

Essa análise ajuda a entender por que parte do bolsonarismo resiste à ascensão de Tarcísio como herdeiro natural do ex-presidente. “Eu não quero Tarcísio não é porque ele seja essencialmente diferente de nós; eu não o quero porque ele é essencialmente igual a nós, mas com um trânsito em setores da elite que nós nunca tivemos”, diz Azevedo, imaginando o pensamento de Eduardo Bolsonaro.

Apesar disso, Tarcísio segue sendo tratado por muitos como o principal “pré-presidente” da direita para 2026. Seu nome é citado com frequência em pesquisas e análises como provável adversário de Lula, caso o petista dispute a reeleição. Mas sua trajetória recente sugere que o rótulo de “moderado” não se sustenta diante de suas ações — e de suas palavras.

Ao defender abertamente um condenado por tentativa de golpe, o governador de São Paulo não apenas toma partido político, mas confronta as instituições da democracia brasileira. Para um estado que já liderou a luta por uma Constituição contra o autoritarismo, trata-se de uma contradição histórica grave — e que, como mostrou Maierovitch, não passará sem contestação.

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