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Poder
Tarcísio endossa fala do ex-presidente dos EUA e reforça alinhamento com a extrema direita
Publicado em 09/07/2025 9:51 - Semana On
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O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, voltou a defender o ex-presidente do Brasil Jair Bolsonaro (PL), nas redes sociais, pelo segundo dia consecutivo, ontem, terça-feira (8). Na Truth Social, o republicano escreveu que Bolsonaro deve ser “deixado em paz” e voltou a usar a expressão “caça às bruxas”.
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“Deixem o grande ex-presidente do Brasil em paz. Caça às bruxas”, disse em publicação. Na segunda (7), Trump já havia feito uma postagem defendendo o ex-presidente. O republicano disse que Bolsonaro é alvo de perseguição.
Trump disse que o Brasil está fazendo “algo terrível” no tratamento dado ao ex-presidente, que é réu no Supremo Tribunal Federal (STF) por tentativa de golpe de Estado após perder as eleições para Lula (PT) em 2022. Sem mencionar diretamente as ações judiciais contra Bolsonaro, Trump disse que vai acompanhar de perto o que acontece no Brasil e que o ex-presidente “não é culpado de nada”.
“O grande povo do Brasil não vai tolerar o que estão fazendo com seu ex-presidente. Vou acompanhar muito de perto essa CAÇA ÀS BRUXAS contra Jair Bolsonaro, sua família e milhares de seus apoiadores”, escreveu.
O governo Trump e expoentes do movimento de xtrema direita americano se fiam no discurso de uso político do STF (Supremo Tribunal Federal) para defender Bolsonaro e a aplicação de sanções ao ministro Alexandre de Moraes.
Integrante sênior da gestão Trump, como são chamados assessores influentes do presidente dos Estados Unidos, resumiu – em entrevista à Folha – a visão que permeia o governo nos seguintes termos: o ex-presidente Bolsonaro e seus apoiadores estão sob ataque de um sistema judiciário “instrumentalizado”.
Para esse auxiliar do republicano, as decisões de Moraes atingem a liberdade de expressão e, mais do que isso, subvertem a democracia para sustentar um governo que julga impopular, o do presidente Lula (PT).
Steve Bannon, líder do movimento Maga, acrônimo para Make America Great Again (Faça a América Grande Novamente), slogan de Trump, e ex-estrategista do republicano, é ainda mais enfático e chama Moraes de “um dos maiores criminosos do mundo”.
“Envergonhou o Brasil no cenário mundial ao perseguir um dos grandes líderes do mundo, o ex-presidente Bolsonaro, em um tribunal claramente forjado. É ridículo”, afirmou Bannon à reportagem.
Para ele e outras pessoas que acompanham a situação, punições a Moraes são uma questão de pouco tempo se o STF não recuar, o que não deve ocorrer.

Trump sinaliza rota de asilo para Bolsonaro
Num gesto que mistura cálculo político, solidariedade ideológica e estratégia de fuga, Donald Trump se posicionou em defesa de Jair Bolsonaro justamente quando o ex-presidente brasileiro entra na reta final de seu julgamento e se vê diante da possibilidade concreta de uma condenação penal. Ao dizer que Bolsonaro “não é culpado de nada” e que sofre uma “caça às bruxas”, Trump sinalizou mais do que apoio retórico: insinua, para quem sabe decifrar a linguagem cifrada da geopolítica, uma possível acolhida diplomática nos Estados Unidos — talvez até a concessão de asilo.
A aproximação entre os dois líderes não é novidade. Trump e Bolsonaro representam, em seus respectivos contextos, a expressão política de um neoconservadorismo que rejeita consensos democráticos, investe contra instituições e transforma a retórica da vitimização em arma política. Ambos enfrentam processos judiciais de forte carga simbólica: Trump por tentar subverter o resultado das eleições americanas de 2020 e incitar a invasão do Capitólio; Bolsonaro, por atentar contra a ordem democrática brasileira, em episódios que vão da tentativa de deslegitimar as urnas à articulação de um golpe de Estado.
O momento em que Trump se manifesta não é acidental. O julgamento de Bolsonaro pela tentativa de golpe avança para a fase das alegações finais, e os indícios de uma condenação se acumulam. Em fevereiro de 2024, diante da apreensão de seu passaporte pela Polícia Federal e da iminência de uma prisão preventiva, Bolsonaro protagonizou um episódio que lembrou os piores dias da Guerra Fria: refugiou-se por dois dias na embaixada da Hungria, país comandado por Viktor Orbán, outro expoente do autoritarismo conservador na Europa. A medida, ainda que temporária, demonstrou o grau de desespero e a disposição de Bolsonaro em buscar proteção fora das instituições brasileiras.
Se a condenação se confirmar — como sugerem os relatos dos investigadores e a gravidade das acusações —, uma nova tentativa de refúgio internacional pode estar em curso. Agora, a embaixada americana desponta como destino provável. A postura pública de Trump antecipa uma narrativa de “perseguição política” que poderá ser usada como justificativa formal para um pedido de asilo diplomático. Nos termos da Convenção de Caracas sobre Asilo Diplomático (1954), da qual o Brasil é signatário, essa figura jurídica pode ser invocada em casos de perseguição por delitos políticos — ainda que, na prática, seja frequentemente usada como ferramenta de proteção entre aliados ideológicos.
Contudo, o sucesso de uma estratégia como essa depende de outro ator fundamental: o governo Lula. Para que Bolsonaro saia do país com destino aos Estados Unidos, seria necessário um salvo-conduto emitido pelo Estado brasileiro. E aí entra o paradoxo político. Lula poderia ser tentado a prolongar o constrangimento do rival com uma espera diplomática desconfortável — uma espécie de prisão a céu aberto dentro da sede diplomática americana. Mas, ao negar o salvo-conduto, correria o risco de ser acusado de incoerência.
Em abril deste ano, o governo brasileiro concedeu asilo diplomático a Nadine Heredia, ex-primeira-dama do Peru, condenada a 15 anos por corrupção. O episódio teve grande repercussão internacional e serviu de munição para a oposição. Lula autorizou inclusive o envio de um avião da Força Aérea Brasileira para resgatá-la, num gesto de solidariedade regional que agora cobra um preço político.
O debate sobre asilo diplomático, nesse contexto, reabre antigas feridas da política latino-americana. Historicamente, figuras como Haya de la Torre (Peru), Juan Perón (Argentina) e João Goulart (Brasil) recorreram ao asilo como forma de escapar da repressão ou de processos autoritários. No entanto, quando o instrumento é acionado por ex-líderes democráticos acusados de sabotar a democracia, o significado se inverte.
Segundo o cientista político Oliver Stuenkel, da FGV-SP, “há uma diferença clara entre perseguição política e responsabilização jurídica. Confundir as duas coisas é uma tática comum em regimes autoritários ou em líderes com tendências iliberais”. Bolsonaro, nesse sentido, tenta se inserir num roteiro bem ensaiado, no qual o discurso de perseguição substitui a defesa jurídica.
A eventual concessão de asilo por parte dos Estados Unidos, no entanto, dependeria não apenas da boa vontade de Trump, mas da estrutura institucional americana. Mesmo que o ex-presidente volte à Casa Branca em 2025, a legalidade de tal medida seria contestada no Congresso e nos tribunais, num país ainda marcado pelas cicatrizes da tentativa de golpe de 2021.
Enquanto isso, o Brasil segue assistindo ao desenrolar de um processo que pode redefinir os limites da responsabilização de líderes políticos em democracias fragilizadas. A possível fuga de Bolsonaro não seria apenas um capítulo a mais em sua biografia tumultuada — seria um teste à maturidade institucional do país e ao compromisso do governo com a legalidade, mesmo diante de seus maiores adversários.
A história mostra que democracias sólidas não se medem pela força com que punem, mas pela serenidade com que administram a justiça. Nesse tabuleiro delicado, cada movimento conta — inclusive a maneira como se lida com quem tenta, mais uma vez, fugir dele.
O boné de Tarcísio e a sombra de Trump na eleição brasileira
A cada gesto de alinhamento com Donald Trump, Tarcísio de Freitas reconfigura sua imagem pública — e, talvez sem perceber, oferece munição ao principal adversário político de Jair Bolsonaro, seu padrinho eleitoral: Luiz Inácio Lula da Silva. A recente publicação do governador de São Paulo, em que endossa críticas de Trump ao Supremo Tribunal Federal e ao Tribunal Superior Eleitoral, escancara não apenas uma posição ideológica, mas uma disposição preocupante de legitimar interferências estrangeiras na soberania brasileira. Num cenário de crescente tensão entre nacionalismo e globalização, Tarcísio joga com um símbolo carregado de significados: o boné vermelho “MAGA” (Make America Great Again), artefato de um trumpismo que inspira — e contamina — parte da direita brasileira.
Não é a primeira vez que o governador ostenta o adereço. Em 20 de janeiro de 2025, dia da posse de Donald Trump em seu novo mandato, Tarcísio apareceu sorridente em vídeo colocando o boné e exclamando: “Grande dia!”. O gesto, aparentemente banal, revela muito. Ao lado de declarações recentes defendendo a primazia dos interesses americanos mesmo quando em choque com os brasileiros, o episódio compromete a imagem de um gestor que prometeu ser técnico e pragmático, mas que hoje parece guiado por uma bússola ideológica importada.
A lealdade a Bolsonaro explica parte dessa guinada. O ex-presidente, investigado por tentativa de golpe e prestes a enfrentar desfecho judicial, tem no apoio de Trump uma tábua de salvação política. Ao ecoar o discurso do republicano — que acusa o Judiciário brasileiro de perseguição — Tarcísio reforça a tese da “vitimização política” e, ao mesmo tempo, paga o preço por manter-se no radar da direita bolsonarista para 2026.
Mas esse preço pode se revelar alto. Quando Trump impôs, ainda em abril, um tarifaço contra países da América Latina — afetando exportações brasileiras — Tarcísio foi cobrado por ter “vestido o boné” de um presidente que prejudica diretamente os interesses do estado mais rico do Brasil. Na ocasião, tentou contornar o constrangimento com um discurso otimista: “Isso desarruma um pouco o comércio internacional, mas a gente tem que saber aproveitar as oportunidades”.
A fala, no entanto, contrasta com o que o próprio governo estadual reconhece nos bastidores. Um relatório anexo ao Projeto de Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) de 2026, enviado pela equipe de Tarcísio à Assembleia Legislativa, afirma que o tarifaço contribui para um cenário de “menor atividade global, maior protecionismo e mudanças nos fluxos de mercadorias”. Em outras palavras: há risco real para a economia paulista, mesmo que o governador insista em dourar a pílula.
A crítica não se limita à economia. Do ponto de vista político, o gesto de submissão simbólica a uma potência estrangeira reacende memórias históricas sensíveis no Brasil. Desde o século XX, interferências diretas ou indiretas dos Estados Unidos em assuntos internos de países latino-americanos — do golpe de 1964 no Brasil à deposição de Salvador Allende no Chile, em 1973 — deixaram marcas profundas. A tentativa de repetir, em pleno século XXI, esse padrão por meio de conexões ideológicas representa uma ameaça à autonomia política nacional.
“Interferência estrangeira, mesmo sob o pretexto de afinidades ideológicas, é um dos mais antigos mecanismos de desestabilização democrática na América Latina”, alerta o historiador Luiz Felipe de Alencastro, professor da FGV e autor de O trato dos viventes (Companhia das Letras, 2000). “O Brasil, ao flertar com isso, arrisca retroceder em sua maturidade institucional.”
Lula, por sua vez, pode explorar essa contradição com habilidade. Apresentando-se como defensor da soberania nacional e da autodeterminação dos povos, o presidente tem buscado se distanciar tanto de interferências externas quanto de extremismos internos. A narrativa de um governo que “não se dobra à mão peluda” dos Estados Unidos pode ser poderosa — especialmente diante de um adversário que ostenta símbolos do trumpismo como troféus.
A eleição de 2026 ainda está longe, mas o terreno já está sendo cuidadosamente semeado. Tarcísio, ao se associar abertamente a uma figura polarizadora e intervencionista como Trump, pode colher frutos junto à base bolsonarista — mas também corre o risco de alienar setores mais amplos do eleitorado, especialmente os que valorizam a soberania nacional, o equilíbrio institucional e a moderação política.
O boné, afinal, não é apenas um acessório. É um símbolo. E, como a história ensina, símbolos podem definir eleições.
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