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Poder

Brasil deixa Trump falando sozinho, mas ameaças são reais

Tarcísio tira a máscara e reforça seu caráter autoritário e antidemocrático

Publicado em 08/07/2025 11:32 - Semana On

Divulgação Semana On - IA

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A nova tentativa da Justiça da Flórida de intimar o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), com base em acusações de censura feitas por plataformas ligadas ao ex-presidente Donald Trump, reabre uma antiga e sensível ferida nas relações internacionais: até onde vai a soberania de uma nação diante de interesses privados e políticos estrangeiros? Em resposta, o governo Lula trata o caso como uma questão de Estado, mobilizando a Advocacia-Geral da União (AGU) para defender não um indivíduo, mas o próprio Judiciário brasileiro.

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A peça jurídica, que retoma tentativas anteriores feitas em fevereiro e junho deste ano, parte de duas empresas: a Trump Media & Technology Group, responsável pela rede Truth Social, e a plataforma de vídeos Rumble, ambas com histórico de enfrentamento às regulações de conteúdo em redes sociais. As companhias acusam Moraes de violar leis dos Estados Unidos ao ordenar, no Brasil, o bloqueio de perfis e conteúdos considerados por elas como expressão legítima.

A alegação principal, de que o ministro do STF pratica censura, sustenta-se em decisões tomadas em processos sigilosos que investigam redes de desinformação e incitação ao golpe. No entanto, especialistas e autoridades brasileiras consideram a tentativa de judicializar essas decisões fora do país uma afronta à soberania do Estado brasileiro.

Para o jurista Wálter Maierovitch, ex-desembargador e professor de Direito, o pedido de intimação “não tem qualquer fundamento técnico” e representa um erro conceitual grosseiro. “Está se fulanizando uma decisão de um órgão colegiado. Alexandre de Moraes, ao decidir, age como integrante do Supremo Tribunal Federal, e não como indivíduo. É juridicamente bisonho”, disse Maierovitch. Ele lembra que até mesmo iniciantes em Direito sabem que um magistrado age em nome do Estado, e não em interesse pessoal.

Essa leitura sustenta a ação da Advocacia-Geral da União, que já assumiu a defesa institucional de Moraes nos Estados Unidos. A AGU reforça que o governo brasileiro não está defendendo um cidadão, mas sim um representante de um dos Três Poderes. “Independentemente de concordar ou não com a decisão judicial em si, a defesa tem que ser feita. Do contrário, o Estado estaria se omitindo diante de um ataque a uma de suas instituições”, afirmou uma fonte próxima à equipe jurídica.

Essa mobilização não é apenas legal, mas também política. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva reagiu prontamente às declarações do ex-presidente Donald Trump — que, em um post nas redes sociais, saiu em defesa de Jair Bolsonaro e atacou o STF — ao afirmar que “a defesa da democracia no Brasil é um tema que compete aos brasileiros” e que “somos um país soberano”.

A resposta do governo foi reforçada por Gleisi Hoffmann, ministra das Relações Institucionais, que comparou o posicionamento do atual governo com o de Jair Bolsonaro. “O tempo em que o Brasil foi subserviente aos EUA foi o tempo de Bolsonaro, que batia continência para sua bandeira e não defendia os interesses nacionais”, disse Gleisi, numa crítica direta à política externa do ex-presidente, marcada por alinhamento automático a Trump e desprezo por instâncias multilaterais.

Internamente, ministros do STF adotaram uma postura de contenção, optando por não responder às provocações de Trump nem ao conteúdo da ação judicial. Avaliam que se trata de uma narrativa política e não de um movimento jurídico legítimo, e que qualquer manifestação institucional deve vir por via diplomática — ou seja, pelo Itamaraty ou pela Presidência da República.

Do ponto de vista histórico, o episódio lembra outros momentos em que países latino-americanos foram alvos de tentativas de pressão extraterritorial por parte dos Estados Unidos — muitas vezes disfarçadas sob o manto da liberdade de expressão, mas com motivações claramente ideológicas. A estratégia de judicialização de decisões de um Supremo Tribunal estrangeiro, no entanto, é algo inédito e, segundo especialistas, perigoso.

Segundo o filósofo Norberto Bobbio, “a democracia é o governo das regras públicas”. Tentar romper essas regras por vias paralelas — como ações judiciais internacionais contra decisões legítimas de um tribunal soberano — ameaça o próprio princípio de autodeterminação dos povos e das instituições.

O caso expõe o embate entre duas visões de mundo: de um lado, o modelo liberal-democrático baseado em instituições nacionais fortes e independentes; de outro, a ofensiva de grupos transnacionais que operam com base em algoritmos, plataformas privadas e estratégias de desinformação globalizada. Ao centro, está a pergunta crucial: quem tem autoridade para regular o que circula no espaço digital — as plataformas privadas ou os Estados democráticos?

O embate entre Moraes e os interesses ligados a Trump, portanto, não é apenas jurídico. É simbólico. Representa um choque de paradigmas sobre o papel da Justiça, o alcance da liberdade de expressão e os limites da influência estrangeira em democracias soberanas. Como ensina o sociólogo Boaventura de Sousa Santos, “a globalização pode ser uma arma de emancipação ou de dominação, dependendo de quem controla as regras do jogo”.

Tarcísio mostra sua cara

O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, afirmou que o ex-presidente Jair Bolsonaro), réu por golpe de Estado no Supremo Tribunal Federal (STF), “deve ser julgado somente pelo povo brasileiro, durante as eleições”. Em publicação em seu perfil no X (antigo Twitter), o governador compartilhou a nota do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que defendeu Bolsonaro, afirmando que o réu sofre “perseguição” e “caça às bruxas”.

“Com a palavra, presidente Donald Trump. Jair Bolsonaro deve ser julgado somente pelo povo brasileiro, durante as eleições. Força, presidente!”, escreveu Tarcísio, um dos pretendentes a herdar o capital político de Bolsonaro nas eleições de 2026. O ex-presidente está inelegível até 2030, por condenações no Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

Tarcísio foi testemunha de Bolsonaro na ação penal que julga a tentativa de golpe de Estado, cuja relatoria é do ministro Alexandre de Moraes. Em depoimento de menos de dez minutos prestado em 30 de maio, o governador afirmou que Bolsonaro não teve conversas com teor golpista com ele depois do segundo turno das eleições de 2022.

Para o jurista Wálter Maierovitch, ex-desembargador e professor de Direito, a fala de Tarcísio revela profundo desconhecimento sobre a Constituição brasileira. “É muito triste, é lamentável que o governador de São Paulo não conheça a Constituição. Será que ele não sabe que no Brasil há uma Constituição? Que no Brasil há um poder Judiciário a quem compete, uma vez acionado pelo Ministério Público, julgar o mérito, se ocorreu ou não um crime? Não é o povo que deve fazer isso, como diz o governador. Tarcísio começa a mostrar a cara. Antes, ele era um disfarce”, afirmou.

O projeto de um bolsonarismo sem Bolsonaro

O jogo da sucessão na direita brasileira ganhou contornos de batalha dinástica. À sombra de Jair Bolsonaro, Tarcísio de Freitas emerge como a figura mais promissora da direita institucional — e potencialmente, a mais perigosa para o próprio bolsonarismo. Não por deslealdade, mas por eficiência. Em tempos de guerra cultural e desgaste da democracia liberal, o projeto de um bolsonarismo sem Bolsonaro já está em marcha.

A política brasileira vive um cenário peculiar e inquietante: dois processos de sucessão simultâneos, um no plano nacional, outro no território da direita radical. Enquanto Lula segue competitivo na corrida pela reeleição, não há, no campo democrático, um nome com densidade eleitoral comparável. Por outro lado, no espectro da extrema direita, todos os postulantes orbitam o ex-presidente Jair Bolsonaro — seja por convicção, conveniência ou covardia.

Como afirma o cientista político Christian Lynch (UERJ), “o bolsonarismo é mais do que um projeto de poder, é uma forma de organização da direita em torno de valores autoritários, antissistêmicos e reacionários”. Nesse contexto, Tarcísio de Freitas aparece como o nome que une, mas também tensiona, esse arranjo.

O ex-ministro da Infraestrutura, hoje governador de São Paulo, é visto pelas elites como uma versão “executiva” do ex-presidente. Com bom trânsito entre empresários, militares e políticos do centrão, Tarcísio é considerado mais preparado, mais moderado no estilo (ainda que não no conteúdo), e — para muitos — mais palatável ao eleitorado urbano que rejeita o estilo tosco de Bolsonaro, mas não necessariamente sua agenda.

Essa possível transição encarna o projeto que se poderia chamar de “bolsonarismo 2.0”: uma continuidade sem o incômodo da figura do “capitão”. Uma direita radical, mas envernizada. Que ataca o Supremo Tribunal Federal e a imprensa, mas com palavras escolhidas. Que defende privatizações, cortes de direitos e revisionismos históricos — mas com gravata e sorriso. A ameaça permanece, apenas muda o rosto.

Como disse o próprio Bolsonaro, em um discurso em 29 de junho de 2025, ao mencionar Tarcísio: “Se vocês me derem […] 50% da Câmara e 50% do Senado, eu mudo o destino do Brasil. […] Nem eu preciso ser presidente. […] Nós seremos os responsáveis pelo destino do Brasil.”

A fala revela o que está em jogo: a tentativa de criar um “poder paralelo”, baseado em controle legislativo e nomeações estratégicas, independentemente de quem sente na cadeira do Planalto. A tática, longe de ser nova, remete à lógica de sistemas autoritários travestidos de democracias formais. Como alertou o filósofo alemão Karl Popper, “o perigo de uma democracia é que ela pode ser destruída por meios democráticos se os cidadãos não forem vigilantes” (A Sociedade Aberta e seus Inimigos, 1945).

O ponto central do debate é: Bolsonaro estaria disposto a entregar o comando da direita a alguém mais eficaz, porém menos submisso? A resposta provável é negativa. Sua retórica recente sugere que quer manter-se como patriarca do movimento — ainda que nos bastidores, como um “presidente de honra”, um “suserano” ideológico. No entanto, como a história política ensina desde os tempos de César e Bruto, os herdeiros costumam ser ambiciosos. E os criadores, por vezes, cegos diante da astúcia dos que criaram.

Ao mesmo tempo, o PT e o campo progressista enfrentam o desafio da renovação. Lula permanece, mas não é eterno. O vácuo de lideranças no centro democrático pode favorecer, paradoxalmente, uma direita ainda mais consolidada e “racionalizada”. O tempo político urge, e como bem definiu o sociólogo francês Pierre Bourdieu, “as estruturas se perpetuam não só pela coerção, mas pela reprodução simbólica”. E é isso que o bolsonarismo — com ou sem Bolsonaro — tenta fazer: perpetuar-se como “a” narrativa nacional.

A eventual vitória de Tarcísio, com seu perfil técnico e discurso moderado, teria o efeito colateral de deslocar Bolsonaro para um papel secundário, quase decorativo. O poder real passaria a estar com quem governa — e governa para durar.

A história recente oferece paralelos. Em vários países, líderes populistas foram substituídos por tecnocratas ideologicamente semelhantes, mas mais eficientes: na Hungria de Orbán, na Turquia de Erdoğan, na Rússia de Putin — que começou como primeiro-ministro discreto de Iéltsin. O padrão é claro: a forma muda, o conteúdo permanece. O autoritarismo adapta-se. E o bolsonarismo pode sobreviver a Bolsonaro, desde que alguém o faça parecer mais civilizado aos olhos do centro.

A pergunta final permanece em aberto: o Brasil está prestes a presenciar o surgimento de um novo polo de poder autoritário, sem o alarde do velho mito, mas com a mesma lógica iliberal? Tarcísio pode não ser o traidor. Mas, como nas tragédias clássicas, talvez apenas o mais eficiente instrumento do destino.

Bolsonaro expõe seu plano de poder absoluto e Tarcísio o endossa

A democracia brasileira não corre perigo apenas nos porões da conspiração — ela é ameaçada à luz do dia, com microfone em punho e aplausos em praça pública. Jair Bolsonaro explicitou, sem meias-palavras, o desejo de controlar todo o aparato institucional do país, ainda que não ocupe formalmente a presidência. O mais inquietante: não está só. Tarcísio de Freitas não apenas endossou a fala como reiterou, com fervor, a missão de continuidade.

Durante ato político na Avenida Paulista, em 29 de junho, Bolsonaro escancarou seu plano de poder: a formação de uma maioria parlamentar sob seu comando — ou ao menos sob o comando de um bloco submisso a sua orientação ideológica — capaz de dominar o Congresso, ditar a agenda política, controlar as agências reguladoras, influenciar sabatinas no Senado e, nas suas palavras, até “escolher o presidente do Banco Central e todo o secretariado”. O detalhe crucial: ele afirma não precisar ser presidente para fazer isso.

“Nós seremos os responsáveis pelo destino do Brasil”, disse, ao lado de Tarcísio de Freitas.

O projeto delineado por Bolsonaro não é uma fantasia delirante, mas uma cartilha autoritária disfarçada de estratégia eleitoral. A manipulação está no método: usar o processo democrático para corroer a democracia por dentro, como bem advertiu o cientista político Steven Levitsky, autor de Como as Democracias Morrem (Zahar, 2018): “Hoje, os golpes já não ocorrem com tanques nas ruas, mas com líderes eleitos que minam a democracia lentamente, com o pretexto de respeitá-la.”

A fala de Bolsonaro, ao propor a criação de um Estado paralelo sustentado por um Congresso cooptado, revela a lógica de captura institucional. É um plano de poder absoluto, um aggiornamento tropical do que Giovanni Gentile formulou para o fascismo italiano: “Tudo para o Estado, nada contra o Estado, nada fora do Estado.” No caso brasileiro, a fórmula se adapta: “Tudo para Bolsonaro, nada contra Bolsonaro, nada fora de Bolsonaro”.

Na mesma ocasião, Tarcísio de Freitas não hesitou em prestar homenagens ao ex-presidente. Seu discurso é revelador: “A missão do Capitão não acabou. Ele ainda vai contribuir muito com o Brasil. […] Esse homem trouxe essa corrente, o verde-amarelo; esse homem pensou nas pessoas; esse homem fez a diferença; esse homem é honesto […]. Deus, pátria, família e liberdade! E ninguém vai tirar isso de nós.”

A retórica é de natureza messiânica, e o projeto, teocrático e autoritário. As palavras de ordem resgatam, quase sem disfarces, o lema do integralismo brasileiro da década de 1930 — Deus, Pátria e Família — agora com o acréscimo de uma “liberdade” que se traduz, na prática, como a liberdade de subjugar as instituições democráticas.

A aproximação entre Bolsonaro e Tarcísio, no entanto, não é apenas retórica. É estratégica. O ex-ministro e atual governador surge como o nome mais competitivo para disputar a Presidência em 2026, visto por muitos como um Bolsonaro “versão premium”: técnico, educado, com maior aceitação entre empresários e elites conservadoras — mas fiel à cartilha bolsonarista.

Como aponta o jurista Oscar Vilhena Vieira, da FGV Direito SP, “o perigo do autoritarismo contemporâneo é que ele não se apresenta como tal. Ele fala em nome do povo, da moral, da fé e da ordem, e assim mina os controles e pesos constitucionais da democracia”.

Sob o pretexto de combater a corrupção e proteger os “valores da família”, Bolsonaro consolidou, durante seu governo, um sistema de cooptação parlamentar através do chamado “Orçamento Secreto”, mecanismo que minava a transparência e fortalecia acordos de bastidores — instrumentos típicos de regimes autoritários em construção. Com isso, blindou-se contra processos de impeachment e preparou terreno para o que tentou em 2022: a obstrução do processo eleitoral. Não conseguiu, mas deixou rastros, inclusive jurídicos.

Agora, com a inelegibilidade confirmada, Bolsonaro aposta na engenharia institucional para manter seu poder — ou ao menos sua influência decisiva. O palanque da Paulista foi mais do que um comício: foi um ensaio para um novo tipo de liderança sem cargo, mas com comando. Tarcísio, nesse cenário, surge como executor da “missão”, expressão usada pelo próprio governador.

A eventual ascensão de Tarcísio ao Planalto, a julgar por seus discursos e alianças, não representa ruptura com o projeto autoritário, mas sua continuidade disfarçada de modernização. Como bem observou o historiador Timothy Snyder em Sobre a Tirania (Companhia das Letras, 2017): “A defesa da Constituição deve começar com a defesa das instituições — e a primeira é a verdade.”

Ora, a verdade está sendo dita por seus próprios autores: o projeto é de aparelhamento total do Estado, com a justificativa de “salvar o Brasil” — o velho pretexto usado por todo autoritário.

Não se trata mais de pressentir os riscos, mas de reconhecê-los quando se tornam explícitos. Bolsonaro revelou o plano. Tarcísio confirmou sua adesão. A pergunta que fica para o eleitorado e para as instituições democráticas é simples: irão levar a sério esse aviso? Ou fingirão surpresa quando a democracia for mais uma vez levada ao limite, desta vez, com requintes de organização institucional?

Porque, como bem diz o próprio texto: “Só não vale dizer, a depender do que nos reserve o futuro, que ele não tinha avisado.”

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