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À medida que os EUA tentam impor sua política comercial, China amplia a aproximação com o Brasil e fortalece sua influência na América Latina
Publicado em 03/06/2026 9:35 - Semana On
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A ofensiva tarifária do governo de Donald Trump ganhou um novo capítulo com o anúncio de uma sobretaxa adicional de 12,5% sobre produtos provenientes de 54 países que, segundo a avaliação dos Estados Unidos, não possuem mecanismos legais eficazes para impedir a entrada de mercadorias produzidas com trabalho forçado em seus territórios. O Brasil foi incluído nesse grupo, ao lado de economias como China e Índia, mas também de aliados estratégicos de Washington, entre eles Argentina, El Salvador, Israel e Japão.
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Outros seis atores econômicos, incluindo Canadá, México e União Europeia, foram enquadrados em uma categoria distinta e receberiam uma tarifa adicional de 10%, por supostamente não conseguirem implementar de forma efetiva as restrições previstas em suas próprias legislações contra a importação de produtos associados ao trabalho forçado.
A medida surge poucos dias após o anúncio de uma sobretaxa de 25% sobre produtos brasileiros. Naquele caso, o governo americano justificou a decisão com base em uma investigação comercial que apontou supostas práticas consideradas prejudiciais aos interesses dos Estados Unidos, citando temas como o Pix e decisões do Supremo Tribunal Federal relacionadas à atuação das grandes plataformas digitais no país.
Diferentemente da primeira rodada de sanções comerciais, a nova tarifa não foi direcionada especificamente ao Brasil. O enquadramento do país ocorre dentro de uma iniciativa de alcance global que atinge dezenas de economias simultaneamente e amplia o repertório de instrumentos tarifários utilizados pela administração Trump.
Embora o Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR) sustente que a medida busca fortalecer o combate ao trabalho forçado nas cadeias produtivas internacionais, críticos da iniciativa apontam que o argumento humanitário funciona sobretudo como justificativa para a adoção de novas barreiras comerciais. A avaliação ganha força especialmente após a Suprema Corte dos Estados Unidos ter derrubado, em fevereiro, parte das medidas tarifárias anteriormente adotadas pela Casa Branca.
Nesse contexto, o combate ao trabalho forçado aparece como um fundamento politicamente mais robusto e juridicamente mais difícil de contestar. Ao associar restrições comerciais à defesa de direitos humanos, Washington constrói um mecanismo de proteção econômica que tende a enfrentar menos resistência legal do que medidas explicitamente protecionistas.
O impacto potencial da iniciativa é particularmente relevante para países asiáticos. Embora a competitividade de produtos chineses e de outras economias da região resulte de fatores complexos — como escala industrial, produtividade, estrutura cambial e organização logística —, há também registros documentados de casos de superexploração laboral e de trabalho forçado em determinados segmentos produtivos caracterizados por baixa transparência e limitada rastreabilidade.
O problema, segundo especialistas, está na forma abrangente escolhida para enfrentar a questão. Ao impor barreiras generalizadas sem mecanismos suficientemente sofisticados para distinguir empresas e cadeias produtivas que respeitam direitos trabalhistas daquelas envolvidas em violações, os Estados Unidos acabam criando uma espécie de “taxa das blusinhas” em escala global. Na prática, produtores regulares e infratores passam a sofrer consequências semelhantes, independentemente de seu histórico ou de seus mecanismos de controle.
A ironia da medida está no fato de que os próprios Estados Unidos enfrentam dificuldades para impedir a entrada de mercadorias potencialmente associadas ao trabalho forçado. Ao longo dos últimos anos, investigações jornalísticas revelaram a presença, no mercado americano, de produtos como madeira, pescado, carne, eletrônicos e minerais cuja origem levantava dúvidas relacionadas a violações trabalhistas. Diversas cadeias de suprimento utilizadas por empresas norte-americanas também dependem de fornecedores localizados em países onde a fiscalização trabalhista é reconhecidamente frágil.
A legislação americana já prevê instrumentos que permitem exigir de exportadores a comprovação de que seus produtos não foram fabricados mediante trabalho forçado. As normas também autorizam a retenção ou devolução de mercadorias quando forem identificadas irregularidades. Na prática, porém, a efetividade desse sistema é frequentemente questionada por especialistas, que apontam limitações significativas na capacidade de fiscalização e rastreamento.
Outro aspecto frequentemente distorcido no debate público diz respeito ao foco da investigação conduzida pelo USTR com base na Seção 301 da Lei de Comércio dos Estados Unidos. Diferentemente do que parte da cobertura jornalística tem sugerido, a análise não avaliou os esforços internos dos países para combater o trabalho escravo em seus territórios. O objeto da investigação foi a capacidade de cada nação de impedir a importação de produtos fabricados mediante trabalho forçado.
A distinção é relevante para o caso brasileiro. No campo do combate direto à escravidão contemporânea, o país é frequentemente citado em fóruns internacionais como referência em políticas públicas, mecanismos de fiscalização e estratégias de repressão ao crime. Diversos organismos internacionais apontam o Brasil como um dos exemplos mais consistentes de enfrentamento ao problema nas últimas décadas.
Especialistas que atuam há anos na área destacam que o país desenvolveu estruturas reconhecidas internacionalmente para identificação, resgate e responsabilização de empregadores envolvidos em práticas análogas à escravidão. O desafio apontado pela investigação americana está em outro ponto: a ausência de um regime plenamente implementado para impedir a entrada de produtos estrangeiros produzidos sob essas condições.
Existem, inclusive, propostas em tramitação no Congresso Nacional destinadas a restringir a importação de mercadorias associadas ao trabalho escravo. Contudo, a simples aprovação de novas normas não garantiria resultados concretos. O principal obstáculo continua sendo a capacidade de implementação e fiscalização, especialmente em um cenário marcado pela baixa transparência de diversas cadeias produtivas globais.
A dificuldade não é exclusiva do Brasil. Em setores econômicos altamente fragmentados e internacionalizados, rastrear a origem dos insumos e verificar condições de trabalho ao longo de toda a cadeia de produção continua sendo um desafio para governos, empresas e organismos multilaterais.
Por essa razão, parte dos especialistas sustenta que barreiras comerciais generalizadas não representam a estratégia mais eficiente para combater a escravidão contemporânea. Além de afetarem indistintamente empresas comprometidas com boas práticas e produtores envolvidos em irregularidades, essas medidas costumam servir mais frequentemente a objetivos de proteção econômica do que à promoção efetiva dos direitos dos trabalhadores.
Uma alternativa considerada mais eficaz seria a adoção de mecanismos de responsabilização individualizados, capazes de identificar e punir empresas específicas envolvidas em violações. Nesse modelo, a análise ocorreria caso a caso, permitindo maior precisão na aplicação de sanções e reduzindo distorções sobre o comércio internacional.
Nesse sentido, defensores de uma abordagem multilateral apontam a necessidade de fortalecer iniciativas globais voltadas à responsabilização corporativa. Entre elas está a negociação, no âmbito das Nações Unidas, de um tratado internacional sobre empresas e direitos humanos que estabeleça obrigações vinculantes para Estados e companhias, além de mecanismos de punição para quem obtém lucro por meio da exploração laboral.
A perspectiva, entretanto, enfrenta resistência política. Há ceticismo sobre a disposição da Casa Branca em apoiar instrumentos internacionais que ampliem mecanismos de controle sobre empresas transnacionais, especialmente em um contexto de crescente disputa geopolítica e econômica.
Enquanto isso, o trabalho forçado permanece inserido em cadeias produtivas que atravessam fronteiras e abastecem mercados em diferentes continentes, inclusive o norte-americano. Nesse cenário, o uso de tarifas como instrumento de pressão comercial é visto por críticos como uma estratégia que combina argumentos morais com objetivos econômicos e geopolíticos.
Para esses analistas, o enfrentamento efetivo da escravidão contemporânea exige justamente o caminho oposto: ampliação da transparência nas cadeias de suprimento, fortalecimento da rastreabilidade de produtos, cooperação internacional e responsabilização direta de empresas e indivíduos envolvidos nas violações. Sem esses elementos, tarifas comerciais tendem a funcionar mais como instrumentos de pressão econômica do que como mecanismos capazes de transformar a realidade dos trabalhadores submetidos à exploração.
Negociações continuam abertas
Paralelamente ao anúncio das novas tarifas, o governo americano informou que pretende manter abertas as negociações com o Brasil. Durante encontro realizado em Paris, à margem da reunião ministerial da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), o representante comercial dos Estados Unidos, Jamieson Greer, afirmou ao ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, que Washington deseja prosseguir com o diálogo sobre as medidas anunciadas.
Segundo fontes diplomáticas brasileiras, Vieira respondeu que o Brasil também permanece disposto a negociar. As conversas ocorrem dentro do prazo de 30 dias acordado entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e Donald Trump durante reunião realizada em Washington no início de maio.
A continuidade das negociações ganha relevância diante da sobreposição de duas investigações distintas conduzidas pelo USTR. A primeira resultou na proposta de uma tarifa de 25% sobre produtos brasileiros e apontou supostas barreiras comerciais, incluindo questionamentos ao Pix. A segunda originou a nova sobretaxa de 12,5% relacionada à alegada insuficiência de mecanismos para impedir a importação de mercadorias produzidas com trabalho forçado.
Embora algumas categorias de exportação brasileiras, como carne, café, frutas, fertilizantes, medicamentos e aeronaves, tenham sido preservadas das medidas mais severas, o episódio amplia a tensão comercial entre Brasília e Washington e reforça a utilização crescente de instrumentos tarifários como ferramenta de disputa econômica internacional.
China reforça apoio ao Brasil e amplia agenda estratégica
Em um momento de crescente instabilidade nas relações internacionais e de reconfiguração das cadeias econômicas globais, a China aproveitou um encontro de alto nível com representantes brasileiros para reafirmar seu apoio à soberania e à autonomia do Brasil, ao mesmo tempo em que indicou disposição para ampliar a cooperação bilateral em setores considerados estratégicos.
A manifestação ocorreu em Pequim durante a quinta edição do Diálogo Estratégico Abrangente China-Brasil, fórum que reúne autoridades dos dois países para discutir temas políticos, econômicos e diplomáticos. O encontro foi copresidido pelo ministro das Relações Exteriores da China, Wang Yi, e pelo chanceler brasileiro, Mauro Vieira.
Ao longo das reuniões, autoridades chinesas reforçaram a visão de que o fortalecimento dos vínculos entre Brasília e Pequim deve ir além da esfera comercial. O discurso oficial destacou a necessidade de aprofundar mecanismos de cooperação capazes de ampliar a coordenação política entre os dois países diante das transformações em curso na ordem internacional.
Wang Yi afirmou que a China considera o Brasil um parceiro central na estratégia de aproximação com a América Latina e o Caribe. Segundo ele, a cooperação bilateral deve servir não apenas para ampliar oportunidades econômicas, mas também para fortalecer a capacidade de atuação conjunta diante dos desafios enfrentados pelas economias emergentes.
A diplomacia chinesa defendeu ainda o avanço da chamada “comunidade China-Brasil”, conceito utilizado por Pequim para caracterizar relações de longo prazo baseadas em interesses compartilhados. Dentro dessa lógica, o governo chinês propõe ampliar a colaboração em áreas como educação, cultura, comunicação, turismo, esportes, juventude e intercâmbios entre governos locais.
A dimensão geopolítica da parceria também esteve presente nas discussões. A China voltou a defender maior coordenação entre os dois países em organismos multilaterais e fóruns internacionais, incluindo as Nações Unidas e o Brics. O objetivo declarado é ampliar a influência dos países do Sul Global nos processos de tomada de decisão internacional e impulsionar reformas nos mecanismos de governança global.
Embora a agenda oficial não tenha sido estruturada em torno das recentes tensões entre Brasil e Estados Unidos, o contexto internacional inevitavelmente permeou as conversas. O encontro ocorreu em um cenário de crescente competição entre Washington e Pequim por influência econômica, tecnológica e política em diversas regiões do mundo, incluindo a América Latina.
Nos bastidores, interlocutores acompanham com atenção os possíveis desdobramentos da política brasileira nos próximos anos. Há preocupação, segundo informações divulgadas por veículos especializados, sobre como eventuais mudanças no comando do Palácio do Planalto poderiam afetar a relação bilateral e alterar o equilíbrio atualmente construído entre os interesses brasileiros e as disputas estratégicas das grandes potências.
Além dos temas políticos, a agenda econômica ocupou posição de destaque. A relação comercial entre os dois países atingiu novo patamar histórico, consolidando uma trajetória de crescimento contínuo que já se estende por uma década. O desempenho reforça a posição chinesa como principal parceiro comercial do Brasil e evidencia o grau de integração alcançado por ambas as economias.
Entre os assuntos considerados mais sensíveis esteve a questão dos fertilizantes, insumo fundamental para a competitividade do agronegócio brasileiro. Durante os encontros realizados em Pequim, representantes dos dois governos concordaram em ampliar o diálogo técnico sobre o fornecimento desses produtos, tendo como horizonte o planejamento da próxima safra agrícola.
A relevância do tema decorre da forte dependência externa brasileira nesse segmento. O consumo nacional de fertilizantes alcança dezenas de milhões de toneladas por ano, enquanto a produção doméstica permanece insuficiente para atender à demanda. Nesse cenário, a China assumiu posição de destaque como principal fornecedora do mercado brasileiro, ultrapassando a Rússia em volume exportado.
A concentração do abastecimento em poucos parceiros internacionais transformou a segurança do fornecimento em uma preocupação permanente da diplomacia brasileira. O tema ganhou ainda mais importância diante das incertezas geopolíticas que afetam rotas estratégicas para o comércio global e podem comprometer o fluxo de matérias-primas essenciais para a produção agrícola.
Essa preocupação ajuda a explicar a recente intensificação dos esforços do Itamaraty para diversificar fornecedores e construir novas parcerias em regiões produtoras de insumos agrícolas. A busca por alternativas capazes de reduzir riscos de abastecimento tornou-se uma prioridade para setores públicos e privados ligados à produção de alimentos.
Sob a perspectiva chinesa, o fortalecimento da cooperação agrícola integra uma estratégia mais ampla de consolidação das relações com países em desenvolvimento. Autoridades de Pequim têm descrito o Brasil como parceiro prioritário dentro dessa política, destacando a convergência de interesses em áreas como desenvolvimento econômico, transição tecnológica, segurança alimentar e cooperação multilateral.
Nos últimos meses, a diplomacia chinesa passou a enfatizar com maior frequência a importância da relação sino-brasileira como exemplo de cooperação entre grandes economias emergentes. O discurso oficial sustenta que o aprofundamento dos vínculos bilaterais pode produzir benefícios não apenas para os dois países, mas também para o conjunto das nações que buscam ampliar sua influência em um sistema internacional cada vez mais marcado pela disputa entre grandes potências.
Ao final dos encontros em Pequim, a mensagem transmitida pelas autoridades chinesas foi clara: diante de um cenário global mais fragmentado e competitivo, a aposta de Pequim é ampliar sua presença política, econômica e estratégica na América Latina por meio de parcerias de longo prazo. Nesse desenho, o Brasil continua ocupando posição central.
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