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Poder

Trump mira o Pix e acerta Bolsonaro

Alcolumbre, Motta e Alckmin isolam ainda mais o bolsonarismo

Publicado em 16/07/2025 2:39 - Semana On

Divulgação Semana On - IA

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O ataque do governo Donald Trump ao Pix, sistema de pagamentos instantâneos que revolucionou a inclusão financeira no Brasil, ameaça muito mais que um instrumento bancário: coloca em xeque a soberania digital brasileira, acende a indignação popular e, por tabela, impõe novo desgaste político a Jair Bolsonaro, aliado direto do ex-presidente norte-americano e dependente de seu capital internacional para se manter relevante — e fora da cadeia.

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Os Estados Unidos abriram uma investigação comercial contra o Brasil, incluindo o Pix como suposta “prática desleal”, escancarou as implicações geopolíticas e ideológicas por trás da medida. Segundo o relatório acessado pelo jornal, o governo americano acusa o Brasil de “promover serviços de pagamento eletrônico desenvolvidos pelo governo” em detrimento de empresas privadas norte-americanas — como PayPal, Mastercard e Visa. Na prática, essa denúncia é uma tentativa velada de frear o avanço de uma tecnologia estatal que conquistou a população brasileira e se tornou símbolo de eficiência pública.

Lançado pelo Banco Central em novembro de 2020, o Pix se tornou um fenômeno: mais de 160 milhões de usuários já realizaram transações pelo sistema, com movimentações que ultrapassam R$ 17 trilhões por ano, segundo dados do próprio BC. Ao eliminar tarifas e permitir transferências instantâneas a qualquer hora, o sistema impactou positivamente a vida de milhões de brasileiros e reduziu a dependência dos bancos tradicionais. Além disso, fortaleceu a infraestrutura nacional de pagamentos, colocando o Brasil na vanguarda tecnológica mundial.

Mas o que deveria ser um motivo de orgulho nacional está sendo tratado como ameaça comercial por uma potência estrangeira — justamente no momento em que Jair Bolsonaro, acusado de tentar um golpe de Estado, tenta se manter politicamente viável à sombra de Trump. Ao associar-se a sanções e pressões externas contra o próprio país, Bolsonaro não apenas reedita uma lógica histórica de subserviência, como também assume o risco de virar alvo da própria indignação popular que seus aliados tentam manipular desde que Lula voltou ao poder.

É nesse contexto que o episódio ganha tons de tragédia política e ironia histórica. O mesmo grupo que, em 2023, mobilizou massas nas redes sociais contra uma proposta de fiscalização do Pix — afirmando que o governo Lula queria “acabar com o Pix” — agora se vê obrigado a aplaudir, ou silenciar, diante de uma verdadeira ameaça ao sistema. Pior: a ação norte-americana vem à tona logo após Eduardo Bolsonaro, deputado federal e filho do ex-presidente, ter anunciado uma visita a Washington para solicitar “sanções contra o Brasil”. A leitura pública inevitável é a de que Bolsonaro, encurralado judicialmente, estaria tentando vender ativos estratégicos do país em troca de proteção política internacional.

A história brasileira não é alheia a esse tipo de enredo. Como bem observa o sociólogo Jessé Souza, em A Elite do Atraso (Leya, 2017), as classes dirigentes no Brasil, em diversos momentos históricos, optaram por alianças internacionais que garantissem seus privilégios internos, mesmo à custa da soberania nacional. A defesa de interesses estrangeiros como forma de evitar a responsabilização por crimes internos é um padrão recorrente — e perigoso.

Nesse caso, o custo político pode ser alto. O Pix é um dos poucos consensos populares dos últimos anos. Em um país marcado por polarizações profundas, o sistema foi abraçado com entusiasmo por diferentes camadas sociais. Colocá-lo sob ameaça, especialmente por um governo estrangeiro, é flertar com a perda de apoio até mesmo entre os eleitores mais fiéis. Como bem sintetizou a economista Laura Carvalho, “o Pix é um exemplo de inovação pública que desmente a tese de que só o setor privado é eficiente”.

A tensão se agrava quando se observa o movimento protecionista mais amplo do governo Trump, que recentemente impôs tarifas de até 50% sobre produtos brasileiros. Somada à nova ofensiva contra o Pix, a ação assume contornos ideológicos, revelando uma tentativa de recolonização digital: impedir que o Sul Global desenvolva soluções autônomas, forçando sua dependência a plataformas ocidentais.

Se por um lado isso desvela a fragilidade das relações entre Bolsonaro e seu próprio país, por outro dá munição ao governo Lula para consolidar seu discurso de defesa da soberania e de um Brasil protagonista. Ao transformar o Pix em campo de batalha, Trump e Bolsonaro reacendem velhas feridas de subordinação externa que a democracia brasileira ainda luta para curar.

Alcolumbre, Motta e Alckmin isolam ainda mais Bolsonaro

Diante do tarifaço imposto pelo governo Donald Trump líderes dos Três Poderes brasileiros uniram-se em um raro gesto de coesão institucional. Em reunião nesta quarta-feira (16), o vice-presidente Geraldo Alckmin e os presidentes do Senado, Davi Alcolumbre, e da Câmara, Hugo Motta, classificaram a medida como uma “agressão injusta” e reafirmaram o compromisso do país com a defesa da soberania econômica frente à escalada protecionista dos Estados Unidos.

“Recebemos informações sensíveis, que trazem para a gente todo esse panorama internacional. E vejo, neste momento, um cenário de agressão ao Brasil e aos brasileiros. Isso não é correto. Temos que ter firmeza, resiliência e tratar com serenidade essa relação”, afirmou Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), presidente do Senado, em vídeo divulgado logo após o encontro.

A resposta articulada do Congresso ao Executivo se ancora também em medidas legislativas já em curso. Hugo Motta (Republicanos-PB), presidente da Câmara, destacou que a Casa já aprovou a chamada Lei da Reciprocidade, que autoriza retaliações comerciais em caso de ações consideradas unilaterais e danosas por parte de outros países. “Estamos prontos para agir com rapidez e agilidade na retaguarda do Executivo e do presidente Lula”, declarou Motta.

Para o vice-presidente Geraldo Alckmin, que também comanda o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, o movimento de Trump é “totalmente inadequado e injusto”. Em entrevista após a reunião, ele apresentou dados que contradizem frontalmente os argumentos usados pela Casa Branca. Segundo Alckmin, dos dez produtos que os Estados Unidos mais exportam ao Brasil, oito não são taxados. Além disso, a tarifa média de importação aplicada pelo Brasil é de apenas 2,7%, inferior às médias de muitos países desenvolvidos.

“Vamos trabalhar juntos para reverter essa situação”, afirmou o vice-presidente, defendendo que as tratativas comerciais sejam conduzidas com base em dados concretos e não por motivações políticas.

A tensão ganha um contorno ainda mais polêmico quando se observa o pano de fundo político da medida. Em carta enviada ao presidente Lula, Trump — pré-candidato à presidência dos EUA — afirmou, sem base factual, que os Estados Unidos mantêm um déficit na relação comercial com o Brasil. Pior: o documento faz referência a uma suposta “caça às bruxas” contra o ex-presidente Jair Bolsonaro, revelando a tentativa de instrumentalizar as relações diplomáticas em favor de alianças políticas pessoais.

A reação imediata do Congresso e do Executivo aponta para um amadurecimento institucional e uma inflexão no modo como o Brasil encara sua posição no sistema internacional. Como argumenta o historiador Luiz Felipe de Alencastro, professor da Sorbonne e da FGV, “o Brasil precisa deixar de ser tratado como entreposto e assumir uma postura altiva nas negociações internacionais” (O Pêndulo do Exílio, Companhia das Letras, 2019). A fala de Alencastro ganha atualidade diante de uma ofensiva comercial que mira diretamente a autonomia do país sobre sua política industrial e comercial.

O gesto de unidade entre Alckmin, Alcolumbre e Motta também sinaliza o fortalecimento de uma frente institucional contra ingerências externas. Não se trata apenas de proteger setores exportadores: o que está em jogo é a capacidade do país de decidir soberanamente sobre sua política econômica sem ser penalizado por decisões que misturam interesses eleitorais estrangeiros e alinhamentos ideológicos locais.

No cenário global, a decisão dos EUA caminha na contramão dos princípios do livre comércio que a própria potência historicamente defendeu. Para o economista Joseph Stiglitz, prêmio Nobel e ex-economista-chefe do Banco Mundial, “o protecionismo seletivo promovido por grandes economias costuma ser mais sobre poder e menos sobre eficiência” (The Price of Inequality, W.W. Norton, 2012).

Ao reagirem de forma coesa e fundamentada, os líderes brasileiros não apenas protegem o presente econômico do país, mas também projetam um futuro em que o Brasil se afirma como ator soberano e respeitado nas arenas internacionais.

Quaest: 53% veem Lula certo em agir com reciprocidade a tarifaço de Trump

Pesquisa Genial/Quaest divulgada hoje mostra que a maioria aprova medidas de reciprocidade do governo Lula (PT) contra o “tarifaço” de 50% anunciado pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.

Para 53%, Lula está certo em reagir com reciprocidade às tarifas. Contudo, 39% acreditam que o presidente está errado.

30% dos apoiadores do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) acham que Lula está certo. Outros 64% acreditam que o presidente está errado.

Qual lado está fazendo o que é mais certo nesse embate?

  • Lula e o PT estão fazendo o que é mais certo: 44%
  • Bolsonaro e seus aliados estão fazendo o que é mais certo: 29%
  • Nenhum dos dois está fazendo o que é certo: 15%
  • Não sabe ou não respondeu: 12%

No entanto, 84% dos entrevistados dizem que governo e oposição deveriam se unir para defender o Brasil. 9% acreditam que isso não é necessário.

Questionados sobre o que provocou Trump a anunciar tarifas, entrevistados se dividem. Entre os motivos mais citados, estão as falas de Lula durante o Brics (26%) e as ações do STF (Supremo Tribunal Federal) contra Bolsonaro (22%).

O que provocou Trump a anunciar essas altas tarifas?

  • Falas de Lula durante o Brics contra Trump: 26%
  • Ações do STF contra Bolsonaro: 22%
  • A influência de Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos: 17%
  • Ações do STF contra big techs americanas: 10%
  • Não sabe ou não respondeu: 25%

Aprovação do governo aumentou, mas desaprovação continua em maioria

  • Desaprova: 53% (era 57% em maio)
  • Aprova: 43% (era 40% em maio)
  • Não sei: 4% (era 3% em maio)

Avaliação negativa também caiu, mas continua acima da avaliação positiva.

  • Negativo: 40% (era 43% em maio)
  • Regular: 28% (era 28% em maio)
  • Positivo: 28% (era 26% em maio)

Metodologia

A pesquisa Genial/Quaest entrevistou 2.004 pessoas de forma presencial entre os dias 10 e 14 de julho. A margem de erro é de 2 pontos percentuais para mais ou para menos. O nível de confiança da pesquisa é de 95%.

NÃO, VOCÊ NÃO É RICO


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