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Poder

Trump mira em Lula, mas acerta em Tarcísio

Com a própria democracia em risco, EUA apontam o dedo para o Brasil

Publicado em 13/08/2025 10:40 - Semana On

Divulgação Semana On - IA

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O governo Trump disparou ontem (12) mais um ataque contra as instituições democráticas brasileiras, por meio do relatório anual do Departamento de Estado dos EUA sobre violações de direitos humanos no mundo. Com críticas diretas ao governo Lula e ao ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Alexandre de Moraes, o documento, ironicamente, evidencia graves abusos cometidos justamente em estados governados por aliados do ex-presidente Jair Bolsonaro — entre eles São Paulo, sob comando de Tarcísio de Freitas.

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No capítulo intitulado “Execuções Extrajudiciais”, o relatório cita vários relatos de policiais cometendo execuções arbitrárias ou ilegais em São Paulo. Uma das ocorrências destacadas foi a operação realizada na Baixada Santista, onde o Departamento de Estado descreve como “homicídio qualificado”, com possível “obstrução de provas”, a morte de Fábio Oliveira Ferreira, atribuída a agentes da Polícia Militar.

Com base em informações públicas de tribunais brasileiros e apurações da imprensa, o texto norte-americano não se furta a dar nome aos envolvidos. Segundo o documento, o Capitão Marcos Correa de Moraes Verardino teria disparado três tiros contra Ferreira após sua rendição, enquanto o Cabo Ivan Pereira da Silva teria atirado duas vezes no peito da vítima quando ela já estava caída no chão. Ambos os policiais foram absolvidos, mas o Ministério Público recorreu da decisão.

A ironia se escancara: enquanto o governo Trump ataca o Judiciário brasileiro com o discurso de defesa dos direitos humanos, escolhe como evidência de abusos casos oriundos de estados comandados por aliados do bolsonarismo — que em diversos momentos relativizaram, minimizaram ou até incentivaram a violência policial.

Tarcísio, que já vestiu o boné vermelho do “Make America Great Again (MAGA)” em evento comemorando a reeleição de Trump, se vê agora na posição desconfortável de ter seu governo denunciado pelo mesmo Departamento de Estado que ecoa os discursos do trumpismo global. Em março de 2024, quando entidades de direitos civis denunciaram as ações letais na Baixada Santista, o governador respondeu com desprezo: “Pode ir na ONU, na Liga da Justiça, no raio que o parta que eu não tô nem aí.”

Agora, resta saber se demonstrará a mesma indiferença ao ser cobrado por Washington — capital do governo que admira e cuja retórica tem replicado no Brasil.

A simbiose bolsonarismo-trumpismo

Não é a primeira vez que o trumpismo internacional tenta deslegitimar instituições democráticas brasileiras. Desde 2018, Bolsonaro e Trump formaram uma frente ideológica de extrema-direita com ataques sistemáticos à imprensa, ao Judiciário e aos organismos internacionais de direitos humanos. Ambos compartilham uma narrativa que coloca “o sistema” como inimigo do povo, e apresentam-se como salvadores de uma nação em “decadência moral”.

A escolha de alvos pelo Departamento de Estado, agora sob nova administração trumpista, reflete esse viés. Ao criticar o ministro Alexandre de Moraes — que presidiu o TSE durante a eleição de 2022 e liderou o combate à desinformação — os EUA ecoam as queixas do bolsonarismo contra o que chamam de “ativismo judicial”. Curiosamente, silenciam sobre a tentativa de golpe promovida em 8 de janeiro de 2023 por extremistas alinhados ao ex-presidente Bolsonaro, e ignoram o papel do Judiciário na preservação do processo democrático brasileiro.

Como nota o cientista político Steven Levitsky, coautor do livro Como as Democracias Morrem, “a erosão democrática não ocorre mais por golpes militares, mas por líderes eleitos que subvertem as regras do jogo por dentro”. Esse padrão, visivelmente adotado por Bolsonaro e Trump, coloca em xeque não apenas as instituições de seus países, mas o próprio conceito de democracia liberal global.

Violência policial e a seletividade dos direitos humanos

A menção a execuções extrajudiciais em São Paulo revela outro aspecto contraditório do relatório: a seletividade dos EUA na denúncia de violações de direitos humanos, dependendo da conveniência geopolítica. A violência policial no Brasil é um problema crônico, historicamente associado ao racismo estrutural, à militarização da segurança pública e à impunidade. Em 2023, o Fórum Brasileiro de Segurança Pública registrou mais de 6 mil mortes causadas por intervenções policiais, sendo a maioria das vítimas jovens negros, moradores de periferia.

No entanto, não se trata de um problema exclusivo de São Paulo — embora o estado tenha papel central, especialmente sob uma gestão que adota retórica punitivista. O relatório ignora casos graves em outros estados e prioriza pontos que fortalecem a narrativa anti-Lula.

Tarcísio de Freitas, por sua vez, tem procurado capitalizar politicamente esse alinhamento internacional. Ao se aproximar de Trump e da ala mais radical do Partido Republicano, tenta consolidar sua imagem como sucessor “moderado” do bolsonarismo — embora sua atuação no governo de São Paulo revele continuidades autoritárias. Como já apontou o sociólogo Silvio Almeida, ex-ministro dos Direitos Humanos, “a política de segurança no Brasil se sustenta sobre a lógica do inimigo interno. E o inimigo é sempre o mesmo: pobre, preto, periférico”.

A hipocrisia da cruzada moral trumpista

O uso político dos direitos humanos por governos autoritários ou populistas de direita é uma contradição que remonta à Guerra Fria, quando os EUA criticavam violações em regimes comunistas enquanto apoiavam ditaduras na América Latina. O relatório atual parece reeditar esse padrão, ao instrumentalizar o discurso dos direitos humanos para fins ideológicos — ainda que isso implique denunciar aliados.

A exposição de Tarcísio num relatório norte-americano que tem como objetivo alvejar Lula revela o paradoxo da nova ordem conservadora internacional: ao tentar minar adversários, desnudam as contradições de seus próprios quadros.

Se os aliados de Trump no Brasil imaginavam blindagem automática pelo alinhamento ideológico, o episódio de hoje prova o contrário: na guerra cultural do século XXI, até os amigos podem virar alvos, se isso servir à narrativa do dia.

O relatório

O relatório do Departamento de Estado dos Estados Unidos ampliou as críticas ao governo brasileiro e, em especial, ao ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF). O documento, intitulado 2024 Country Reports on Human Rights Practices: Brazil, integra uma série anual de relatórios sobre a situação dos direitos humanos em países-membros da ONU — uma prática iniciada nos anos 1970 e tradicionalmente considerada referência internacional no tema.

No entanto, a edição deste ano carrega um tom profundamente ideológico. Pela primeira vez, o Brasil é acusado de reprimir “o debate democrático” e de restringir a liberdade de expressão — mas as críticas se concentram quase exclusivamente em decisões judiciais voltadas à contenção da desinformação e do extremismo bolsonarista nas redes sociais. O relatório ignora o contexto institucional e a ameaça concreta à democracia representada pelos atos golpistas de 8 de janeiro de 2023, priorizando uma leitura distorcida da atuação do STF e da presidência de Lula.

Segundo o texto, a situação dos direitos humanos no Brasil “deteriorou-se em 2024”, com tribunais supostamente adotando “medidas amplas e desproporcionais” que afetariam a liberdade de expressão e a liberdade na internet. Um dos episódios citados é a suspensão de perfis na rede social X (antigo Twitter) por determinação de Alexandre de Moraes. Para os EUA, tais ações representariam censura indevida contra apoiadores de Jair Bolsonaro.

“Os tribunais tomaram medidas desproporcionais para minar a liberdade de expressão e a liberdade na internet, ao bloquear o acesso de milhões de usuários a informações em uma importante plataforma de mídia social”, afirma o relatório.

Além disso, o governo Lula é acusado de prejudicar o debate público ao classificar conteúdos como “prejudiciais à democracia”, com base, segundo o Departamento de Estado, em termos vagos como “discurso de ódio” — considerados pelos autores do relatório como desconectados do direito internacional.

A narrativa reforça a visão difundida pelo próprio Trump e seu entorno de que Bolsonaro e seus apoiadores estariam sendo “perseguidos” no Brasil. Com base nessa avaliação, os EUA anunciaram sanções inéditas: revogaram vistos de ministros do Supremo Tribunal Federal, inclusive de Moraes, e aplicaram sanções financeiras individuais com base na Lei Magnitsky, instrumento que permite punições a agentes acusados de graves violações de direitos humanos.

Essa retaliação foi acompanhada por medidas econômicas. Alegando “censura a empresas e cidadãos norte-americanos nas redes sociais”, o governo Trump impôs tarifas de 50% sobre a importação de produtos brasileiros, afetando cerca de 36% das exportações brasileiras aos EUA, segundo dados do Itamaraty.

STF como inimigo ideológico

O relatório dedica especial atenção às decisões do STF sobre o combate à desinformação eleitoral. Em tom crítico, afirma que o governo censurou conteúdos online a partir de ordens da Corte, que teria instruído as plataformas digitais a remover publicações que ameaçavam autoridades, disseminavam desinformação ou incitavam violência.

“Registros judiciais revelam que o ministro Alexandre de Moraes ordenou pessoalmente a suspensão de mais de 100 perfis de usuários na plataforma de mídia social X […], ao invés de adotar medidas mais específicas para penalizar conteúdos que incitassem ações ilegais iminentes ou assédio”, destaca o texto.

Os autores afirmam ainda que a Constituição brasileira garante liberdade de expressão, mas que decisões do Supremo a teriam violado ao proibir manifestações consideradas “antidemocráticas”.

Nesse ponto, o relatório adota uma leitura parcial. Ignora que as decisões judiciais citadas foram tomadas após uma tentativa de golpe de Estado — amplamente documentada —, com ataques físicos ao Congresso Nacional, ao Palácio do Planalto e ao STF, promovidos por apoiadores radicais de Bolsonaro. Além disso, omite que os perfis bloqueados eram ligados a redes de desinformação em massa, com incitação à violência e ataque sistemático às instituições democráticas.

Prisões e o 8 de janeiro: omissões e distorções

Outro trecho polêmico acusa o governo de manter detidos, sem acusações formais e acesso a advogados, “centenas de indivíduos” envolvidos nos atos de 8 de janeiro de 2023. A acusação contrasta com dados do Supremo Tribunal Federal, que esclareceu publicamente que os réus foram julgados com garantias constitucionais, inclusive com atuação da Defensoria Pública da União para os sem recursos.

A menção sugere que os Estados Unidos enxergam as punições aos golpistas como violações de direitos humanos, embora o mesmo governo Trump tenha apoiado repressões duríssimas contra manifestantes do movimento Black Lives Matter em 2020 e estimulado ações violentas contra imigrantes e opositores políticos.

Gaza e Lula: a geopolítica no espelho

Num movimento de claro interesse político, o relatório ainda cita uma declaração do presidente Lula, feita em fevereiro de 2024, durante a cúpula da União Africana, em que comparou os ataques de Israel à Faixa de Gaza ao extermínio promovido por Hitler.

“O que está acontecendo na Faixa de Gaza… é um genocídio”, disse Lula, afirmando que a resposta israelense aos ataques do Hamas era comparável “ao que Hitler fez com os judeus”.

O relatório classifica a fala como exemplo de antissemitismo, citando o repúdio da Conib (Confederação Israelita do Brasil). No entanto, omite que a mesma declaração foi apoiada por lideranças internacionais, inclusive pelo governo sul-africano, que apresentou denúncia de genocídio contra Israel na Corte Internacional de Justiça.

A posição dos EUA nesse ponto reforça a guinada trumpista no cenário internacional: ao relativizar a ofensiva militar israelense — responsável por mais de 38 mil mortes em Gaza até julho de 2025, segundo a ONU —, os Estados Unidos de Trump voltam a usar os direitos humanos como arma seletiva, aplicando-os contra inimigos políticos e ignorando aliados estratégicos, mesmo quando há graves violações.

Uma política de “direitos humanos” com alvos definidos

A nova postura dos EUA revela uma mudança drástica no uso da política de direitos humanos: de instrumento universal de defesa da dignidade humana para ferramenta de pressão ideológica. O contraste com o relatório de 2023, produzido ainda sob o governo de Joe Biden, é evidente. Naquele documento, as violações atribuídas a Jair Bolsonaro durante a pandemia, aos ataques à imprensa e à sabotagem das eleições de 2022 eram o foco central.

Agora, sob Trump, o eixo se desloca. Os alvos passam a ser aqueles que atuam em defesa da democracia institucional — como Moraes, o STF e o governo Lula —, enquanto os que atentaram contra o regime democrático são retratados como vítimas.

A ofensiva norte-americana levanta preocupações reais sobre o uso político dos direitos humanos como justificativa para sanções econômicas, isolamento diplomático e deslegitimação de instituições democráticas. Ela também ilustra os riscos da internacionalização do bolsonarismo como parte de uma aliança ideológica global que inclui Trump, Orbán (Hungria), Netanyahu (Israel) e Bukele (El Salvador).

Nesse contexto, o Brasil se vê no epicentro de um embate entre o Estado de Direito e o populismo autoritário travestido de “liberdade de expressão”.

O sujo e o mal lavado

Poucos líderes eleitos em democracias consolidadas fizeram tanto para desmantelar os próprios pilares do Estado de Direito quanto Donald Trump. Se o primeiro mandato foi um ensaio desorganizado de populismo autoritário — marcado por impulsos antidemocráticos e conflitos institucionais —, o segundo está sendo conduzido com método e intenção. Desde que voltou à Casa Branca, em janeiro de 2025, Trump tem atuado com agressividade contra a cidadania, os direitos civis e os marcos fundamentais da convivência democrática. A promessa de “Make America Great Again”, agora reforçada pelo slogan “Revenge Tour”, não esconde mais o que sempre foi: um projeto de poder baseado na exclusão, na força bruta e na negação da pluralidade.

A nova fase do governo Trump tem se concentrado na repressão doméstica. Juízes, jornalistas e opositores tornaram-se alvos diretos do discurso oficial. Com ataques constantes pelas redes sociais e em comícios, o presidente voltou a qualificar seus críticos como “inimigos do povo”, ecoando fórmulas típicas de regimes autoritários do século XX.

Em paralelo, estados governados por aliados de Trump aprovaram legislações que endurecem o tratamento a manifestantes — em especial os ligados a causas progressistas, como justiça racial, ambiental e de gênero. De acordo com a ACLU (American Civil Liberties Union), ao menos 19 estados aprovaram leis que ampliam o poder da polícia durante protestos, com penas mais severas e critérios vagos que podem criminalizar atos de resistência civil pacífica.

As eleições também se tornaram alvo. Ainda sob a justificativa de combater “fraudes eleitorais” — jamais comprovadas —, o governo federal estimulou o endurecimento do acesso ao voto em estados do sul e do meio-oeste, atingindo principalmente comunidades negras, latinas e indígenas. O Brennan Center for Justice denuncia o que chama de “arquitetura da exclusão eleitoral”.

A volta da guerra contra os pobres, os imigrantes e os não-brancos

O segundo mandato de Trump aprofundou sua tradicional guerra cultural com uma nova camada de violência simbólica e concreta dirigida aos mais vulneráveis. Um dos episódios mais emblemáticos dessa escalada foi a intervenção federal imposta por Trump sobre Washington, D.C., sob o pretexto de restaurar a “ordem urbana”. A operação — batizada informalmente na Casa Branca de “Clean Streets” — resultou em uma campanha de remoção forçada da população em situação de rua, concentrada principalmente nas áreas centrais da capital, incluindo os arredores do National Mall e da Union Station.

Sem qualquer plano de reinserção social, as ações envolveram prisões arbitrárias, destruição de barracas, e apreensão de pertences pessoais, com uso ostensivo da Guarda Nacional. Organizações como a National Homelessness Law Center e a ACLU denunciaram o caráter “higienista e desumano” da operação, apontando que ela violou pactos internacionais de direitos civis e sociais dos quais os Estados Unidos são signatários.

A prefeita de Washington, Muriel Bowser, condenou a intervenção como um “abuso de poder federal” e uma tentativa de Trump de “transformar a capital em palco de propaganda eleitoral”. Em pronunciamento público, Bowser declarou: “O governo federal está tratando nossos cidadãos mais vulneráveis como se fossem inimigos públicos. Não se combate a pobreza com tanques, mas com políticas públicas, moradia, saúde e dignidade.”

O episódio escancarou a abordagem punitivista do governo Trump, que confunde pobreza com criminalidade e trata a desigualdade social como um problema de segurança nacional, não de justiça social. Essa lógica foi replicada nacionalmente em diversos estados republicanos, com leis que criminalizam atos como dormir em locais públicos, pedir esmolas ou instalar tendas improvisadas em vias urbanas.

Paralelamente, a retórica xenofóbica e o endurecimento da política migratória foram retomados com ainda mais intensidade do que no primeiro mandato. Trump não apenas reativou, mas ampliou a política de separação de famílias migrantes na fronteira com o México, mantendo crianças em centros de detenção superlotados e com acesso limitado à defesa legal — em clara violação às normas internacionais de proteção da infância.

Ao mesmo tempo, instalou novos campos de detenção militarizados, administrados pelo ICE e por empresas privadas de segurança, onde imigrantes — inclusive requerentes de refúgio — são mantidos em condições degradantes, com denúncias frequentes de abusos, tortura psicológica e negligência médica.

Em todos esses fronts — da criminalização da pobreza à perseguição de imigrantes e ao desmonte de políticas antidiscriminatórias —, o trumpismo reafirma sua identidade: um projeto político que relega os corpos pobres, negros, imigrantes e dissidentes a uma condição de ameaça permanente, incompatível com a cidadania plena. É uma política que desumaniza como método e que transforma a exceção em regra.

Segundo a Amnesty International, crianças seguem sendo separadas de seus pais em pontos de entrada dos EUA, mantidas em centros de detenção com estruturas precárias e sem acesso a defesa legal.

Ainda mais alarmante, reportagens do New York Times e denúncias da ACLU revelaram a instalação de campos temporários militarizados na fronteira sul, abrigando milhares de imigrantes em condições degradantes, sob vigilância armada. Essas ações, diz o relatório da Human Rights Watch, violam os princípios básicos da Convenção sobre os Direitos da Criança e da Declaração Universal dos Direitos Humanos — acordos que os Estados Unidos, ironicamente, ajudaram a fundar.

Violência policial sem freios e o desmonte da supervisão pública

Na esteira da reeleição, Trump revogou diversas normas de supervisão sobre departamentos de polícia adotadas após o assassinato de George Floyd em 2020. As medidas federais que exigiam mais transparência e limitavam o uso da força foram abolidas sob a justificativa de que atrapalhavam “os heróis de farda”.

Em protestos recentes, o presidente autorizou o uso da Guarda Nacional em várias capitais, declarando publicamente que “manifestantes radicais” deveriam ser tratados como terroristas. O resultado tem sido o recrudescimento da violência policial contra ativistas, com registros de detenções arbitrárias, uso excessivo de força e espionagem contra jornalistas e advogados ligados a movimentos de direitos civis.

No palco internacional, os direitos humanos valem menos que a ideologia

A política externa da nova gestão Trump elevou a hipocrisia diplomática a um novo patamar. O massacre na Faixa de Gaza, iniciado em janeiro de 2025, tornou-se símbolo disso. Segundo a ONU e a organização israelense B’Tselem, mais de 70 mil palestinos, em sua maioria civis, foram mortos durante bombardeios israelenses com apoio logístico e diplomático dos Estados Unidos.

Trump vetou sistematicamente todas as resoluções de cessar-fogo no Conselho de Segurança da ONU, declarando que “Israel tem o direito de eliminar qualquer ameaça — e ninguém deve se meter nisso”. Em abril, ao ser questionado sobre os ataques a hospitais e escolas em Gaza, respondeu friamente: “É o preço da segurança. Preferem ver Tel Aviv em chamas?”

Sob sua liderança, os EUA também suspenderam novamente o financiamento à UNRWA (agência da ONU para refugiados palestinos) e retiraram-se de comitês multilaterais de direitos humanos, acusando-os de “antiamericanismo”.

Mais uma vez, a política externa do país se curva não a princípios, mas a alianças ideológicas. Regimes autoritários como o de Viktor Orbán, na Hungria; Recep Tayyip Erdoğan, na Turquia; e Nayib Bukele, em El Salvador, têm sido elogiados e cortejados pela diplomacia americana. Os Estados Unidos não apenas se abstêm de condenar violações — como a repressão à imprensa e a perseguição judicial a opositores —, mas celebram esses líderes como “exemplos de firmeza” e “defensores da ordem”.

Negacionismo climático como política oficial

O desprezo pelo consenso científico e pelo futuro planetário segue como pilar da política trumpista. Logo nos primeiros meses de 2025, os EUA se retiraram definitivamente do Acordo de Paris. Em discurso no Texas, Trump declarou que “essa história de aquecimento global é uma farsa socialista”.

Além disso, seu governo autorizou novas áreas de exploração de petróleo e gás em territórios indígenas no Alasca e bloqueou fundos para energias renováveis. As consequências ambientais já começam a ser sentidas, com aumento de queimadas, desmatamento e poluição em áreas antes protegidas por legislação ambiental federal.

Rumo a um autoritarismo sem disfarce

O que antes se anunciava como uma ameaça difusa à democracia liberal está hoje escancarado em atos de governo. Trump age com desenvoltura para desmontar os freios e contrapesos institucionais que sustentam a república norte-americana. Ao mesmo tempo, exporta esse modelo para aliados internacionais, em especial na América Latina e na Europa Oriental.

Para estudiosos como Ruth Ben-Ghiat, historiadora da Universidade de Nova York e autora de Strongmen: Mussolini to the Present (W.W. Norton, 2020), o trumpismo representa um retorno perigoso ao culto da força, da impunidade e da supremacia racial.

“Trump não quer apenas governar. Ele quer punir. Quer vingança. E usa o aparato do Estado para isso”, afirmou em entrevista à The Atlantic em junho de 2025.

O mundo democrático assiste, com desconforto e espanto, à corrosão acelerada do que já foi — ao menos formalmente — o bastião global dos direitos humanos. A lição é clara: nem as democracias mais antigas estão imunes à derrocada, se seus líderes forem capazes de instrumentalizar o medo, o ressentimento e o autoritarismo em nome de um falso retorno à grandeza.

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