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Poder
Revista britânica reconhece maturidade democrática do Brasil e expõe o óbvio
Publicado em 28/08/2025 10:49 - Semana On
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Foi preciso que a The Economist – principal publicação liberal do Ocidente – dissesse o óbvio para que parte da imprensa brasileira se desse conta: o Supremo Tribunal Federal (STF) é hoje a principal barreira institucional contra o avanço autoritário no país. Em reportagem de capa publicada nesta semana, a revista britânica afirma que o julgamento de Jair Bolsonaro por tentativa de golpe, marcado para 2 de setembro, representa uma “lição de maturidade democrática” para as Américas. E o Brasil, segundo a revista, passou a exercer o papel que antes pertencia aos Estados Unidos: o de “adulto democrático” do hemisfério ocidental.
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O contraste não poderia ser mais direto. Enquanto nos EUA Donald Trump ainda evita qualquer responsabilização concreta pelos ataques ao Capitólio em 6 de janeiro de 2021, no Brasil, Bolsonaro será julgado por planejar um golpe de Estado. A capa da edição é simbólica: o ex-presidente brasileiro aparece fundido à imagem de Jacob Chansley, o “xamã” da invasão do Congresso norte-americano. Para a The Economist, essa semelhança não é coincidência – é espelho. Mas, ao contrário dos norte-americanos, os brasileiros, por meio de suas instituições, decidiram reagir.
Clique aqui para ler o original em inglês.
A matéria aponta que “ao contrário de seus colegas nos Estados Unidos, muitos dos políticos tradicionais do Brasil, de todos os partidos, querem seguir as regras e progredir por meio de reformas”. É um reconhecimento explícito de que o sistema político brasileiro, apesar de seus inúmeros defeitos, ainda valoriza o jogo democrático – algo que não pode mais ser dito com segurança sobre o cenário norte-americano, onde cresce a tendência autoritária sob influência de Trump.
Para a revista, o Brasil se tornou um exemplo de como democracias podem reagir à “febre populista”. O julgamento de Bolsonaro no STF é o ápice de um processo que ganhou força após os atos golpistas de 8 de janeiro de 2023, quando bolsonaristas invadiram os prédios dos Três Poderes em Brasília, inconformados com a derrota do ex-presidente nas urnas. A comparação com o Capitólio americano é inevitável – e intencional.
O artigo reconhece que o golpe de Bolsonaro falhou não por falta de intenção, mas por incompetência. “Um ex-general de quatro estrelas conspirou para anular o resultado da eleição; assassinos planejaram matar o verdadeiro vencedor”, diz a revista. “Como nossa investigação sobre a conspiração explica, o golpe fracassou por incompetência e não por intenção.”
A análise da The Economist também não ignora as contradições do STF. A Corte é criticada por concentrar poderes excessivos – “age como vítima, acusadora e juíza ao mesmo tempo”, observa o texto – mas mesmo essa crítica é acompanhada de uma ponderação importante: tais poderes “podem tanto corroer como salvar democracias”. E no caso brasileiro, têm sido a salvação.
Esse reconhecimento internacional escancara o negacionismo que ainda persiste em setores da imprensa e da opinião pública brasileira. Há anos, uma parte do jornalismo nacional – influente, inclusive – relativiza as ações do Supremo em nome de um “equilíbrio” que, na prática, enfraquece a democracia. Com frequência, vê-se colunistas e analistas tratando o STF como vilão institucional, enquanto ignoram ou minimizam os avanços autoritários e a evidente tentativa de ruptura democrática promovida por Bolsonaro.
A crítica da revista se estende também ao governo norte-americano. Mesmo diante da tentativa de golpe no Brasil, a administração Biden impôs sanções ao país por resistir a pressões de Trump para blindar Bolsonaro. Ainda assim, como ressalta a The Economist, o Brasil “está determinado a salvaguardar e fortalecer sua democracia”.
O texto é claro ao afirmar que o país restaurou a democracia em 1988, “moldado pela Constituição Cidadã”, e que a reação do STF à tentativa de golpe é consequência direta da memória ainda viva da ditadura militar instaurada em 1964. Em outras palavras: a história recente do país ensinou a importância de instituições vigilantes – e ativas.
Em meio a esse cenário, a omissão ou o revisionismo de parte da grande mídia brasileira não são apenas erros de avaliação: são falhas graves de compromisso com a verdade e com a democracia. Quando uma publicação estrangeira precisa apontar o que é evidente – que o julgamento de Bolsonaro é um divisor de águas na luta contra o autoritarismo –, resta perguntar por que tantos veículos nacionais continuam tratando os golpistas como se fossem apenas uma “força política relevante”.
É simbólico, e talvez trágico, que o Brasil tenha que ser elogiado lá fora por atitudes que aqui dentro ainda são tratadas com desconfiança ou distorção. A The Economist não escreveu para agradar. Escreveu para registrar o que está acontecendo: o país que mais flertou com o autoritarismo nas últimas décadas agora se vê, por ironia do destino, como exemplo de resiliência democrática. E isso, que deveria ser manchete unânime, segue sendo relativizado por quem, supostamente, tem o dever de informar com responsabilidade.
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