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Poder
Governador de SP saiu do 7 de setembro menor, mais submisso e menos democrático.
Publicado em 08/09/2025 9:45 - Semana On
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Tarcísio de Freitas jogou fora neste domingo (7 de setembro), na Avenida Paulista, o que ainda lhe restava de imagem como “bolsonarista moderado”. O governador de São Paulo fez um discurso agressivo contra o Supremo Tribunal Federal (STF), defendeu abertamente a anistia de golpistas do 8 de Janeiro e se colocou como herdeiro fiel do ex-presidente inelegível. A encenação não apenas compromete seu próprio futuro político como rebaixa a estatura institucional de quem governa o maior estado do país.
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O gesto foi calculado — e atende a pressões claras. Tarcísio foi incumbido por frações do Centrão, do empresariado e do “mercado” de uma missão: mostrar-se radical o bastante para conquistar a bênção de Bolsonaro e, assim, se viabilizar como candidato à Presidência em 2026. A equação é conhecida: sem o apoio da família, não há candidatura competitiva à direita. E para atrair esse apoio, o governador aceitou o papel de fiel executor da pauta bolsonarista mais extremada.
O resultado foi um espetáculo de submissão ideológica e confronto institucional. Em cima de um carro de som, com bandeiras dos Estados Unidos tremulando à sua frente, Tarcísio vociferou contra o STF e atacou diretamente o ministro Alexandre de Moraes:
“Nós não vamos aceitar a ditadura de um Poder sobre o outro. Chega do abuso! […] Ninguém aguenta mais a tirania de um ministro como Moraes”, bradou.
O que se viu foi uma explícita apologia do confronto entre os Poderes da República — feita não por um deputado incendiário ou um pastor extremista, mas por um governador de estado, cuja obrigação constitucional é justamente manter a ordem e respeitar os limites institucionais.
O governador-camaleão
Tarcísio já vinha tentando equilibrar duas imagens: a do gestor técnico, eficiente, que governa São Paulo com foco em resultados; e a do aliado leal ao bolsonarismo. Neste domingo, essa ambiguidade foi desfeita de forma ruidosa. O que emergiu foi o político disposto a tudo para manter vivo o apoio da base bolsonarista — mesmo ao custo de abandonar qualquer verniz democrático.
Mais do que ataques ao Supremo, o governador pressionou o presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos), para pautar a anistia dos envolvidos nos atos golpistas de 8 de Janeiro. “Paute! Paute a anistia!”, gritou Tarcísio. Segundo ele, conceder o perdão aos golpistas é “trazer justiça” e “resgatar o país”.
A retórica soou como descolada dos fatos. Os acusados — muitos já condenados — não estão sendo perseguidos, mas respondendo legalmente por atos que atentaram contra o Estado de Direito. O próprio Supremo Tribunal Federal já condenou dezenas de envolvidos, com penas que ultrapassam 15 anos de prisão, em julgamentos públicos e com amplo direito à defesa.
O strip-tease ideológico
A guinada do governador pode até agradar, no curto prazo, as lideranças do bolsonarismo raiz, mas cobra um preço alto em termos de imagem pública. Como analisa o cientista político Cláudio Couto, da FGV, “Tarcísio rompeu o que restava de sua relação com o campo democrático. O espaço de moderação que ele tentava ocupar foi perdido. Agora, ele disputa o eleitorado com os radicais”.
A jogada tem lógica política, mas é também um tiro no escuro. Os articuladores do centrão — como o senador Ciro Nogueira (PP-PI) — avaliam que a família Bolsonaro será obrigada a aceitar Tarcísio como sucessor natural. “TUDO passa por BOLSONARO. Ou não passará”, escreveu Ciro numa mensagem compartilhada com aliados. Mas o próprio bolsonarismo desconfia das intenções do governador. Um interlocutor próximo à família avaliou que o discurso de Tarcísio foi “rápido demais para ser genuíno” e que ele “não tem alternativa” a não ser simular lealdade.
Entre a pose e o ridículo
Tarcísio chegou ao ponto de dizer que a inelegibilidade de Bolsonaro é uma injustiça, afirmando que “deveriam deixá-lo ir para as urnas” — ignorando que os processos contra o ex-presidente decorrem de sua atuação explícita contra as próprias urnas.
“Só há uma forma de resolver isso: é a anistia ampla. Temos que viver num país onde as divergências sejam resolvidas na urna. Deixa Bolsonaro ir para a urna. Qual o problema?”, discursou, em tom messiânico.
O problema, como se sabe, é que Bolsonaro e seus aliados promoveram um cerco às urnas quando perderam. A frase do governador, portanto, mais confunde do que esclarece. E evidencia uma contradição essencial: como defender a democracia com base em slogans que negam as regras do jogo democrático?
A aposta de alto risco
A candidatura de Tarcísio ao Planalto, desejada por setores do capital e do Congresso, está nas mãos de Bolsonaro. Mas a submissão total à família tem efeitos colaterais. Pode até agradar o núcleo duro da extrema-direita, mas afasta o eleitorado moderado que o elegeu em São Paulo — boa parte do qual já se incomodava com a ambiguidade do governador.
A radicalização pode também dificultar sua própria reeleição em 2026. A imagem de bom gestor técnico foi trocada pela de militante exaltado. E como ensina a história política recente, quem radicaliza demais para agradar a uma base, muitas vezes perde o centro — e com ele, a maioria.
A questão agora é saber se Tarcísio foi longe demais. Ao apostar tudo para conquistar o apoio de Bolsonaro, talvez tenha comprometido sua capacidade de se apresentar como alternativa viável para um país cansado do extremismo.
Como escreveu o jornalista Reinaldo Azevedo, “Respeito pela democracia é como a virgindade. Perdeu, está perdida”. E, neste domingo, Tarcísio perdeu o que lhe restava de moderação.
Tarcísio desafia STF e fortalece a crise institucional
Em busca da bênção de Bolsonaro para disputar a Presidência em 2026, Tarcísio se entregou ao enredo da confrontação com as instituições democráticas — e, com isso, passou a integrar a engrenagem do tensionamento político que levou o Brasil à beira de um golpe em 2023.
A resposta do ministro Gilmar Mendes foi à altura. Decano do STF, Mendes não tergiversou ao reagir ao que chamou de “despropósitos” do governador. Em nota pública, o magistrado lembrou que “não há no Brasil ‘ditadura da toga’, tampouco ministros agindo como tiranos”, e que o papel do Supremo é justamente o de proteger a Constituição “impedindo retrocessos e preservando as garantias fundamentais”.
Mais do que um desagravo institucional, a nota de Gilmar toca no ponto central da crise: o uso recorrente de narrativas golpistas como estratégia política. “O que o Brasil realmente não aguenta mais são as sucessivas tentativas de golpe que, ao longo de sua história, ameaçaram a democracia e a liberdade do povo”, escreveu o ministro. E arrematou: “Crimes contra o Estado Democrático de Direito são insuscetíveis de perdão.”
A afirmação não é retórica. Ela antecipa uma posição jurídica frente à possibilidade — cada vez mais vocalizada por parlamentares da base bolsonarista — de concessão de anistia aos envolvidos no 8 de Janeiro. O próprio Tarcísio, como se sabe, defendeu publicamente a medida, dizendo que o perdão coletivo seria um gesto de pacificação nacional. A resposta de Gilmar foi cristalina: não há espaço legal para isso.
O flerte com o golpismo como projeto político
Ao repetir que “ninguém aguenta mais a tirania de um ministro como Alexandre de Moraes”, Tarcísio flerta diretamente com o tipo de retórica que antecedeu os ataques golpistas de janeiro de 2023. Palavras como essas, em boca de um governador, têm peso — e consequências.
Como analisa o historiador Carlos Fico, professor titular da UFRJ e especialista em regimes autoritários, o Brasil é um caso raro de leniência histórica com golpistas. Em levantamento divulgado neste domingo, Fico identificou 14 tentativas de golpe desde o início da República. Em sete delas, os golpistas foram bem-sucedidos. Nas demais, foram perdoados. “Todas as vezes em que os conspiradores fracassaram, foram posteriormente anistiados”, aponta Fico.
Esse padrão histórico de impunidade é exatamente o que setores do Judiciário, como Gilmar Mendes, agora buscam romper. Pela primeira vez desde a redemocratização, há a chance real de que os responsáveis por uma tentativa de subverter a ordem constitucional sejam punidos de forma exemplar.
O STF sob ataque e a estratégia do tensionamento
O Supremo virou alvo preferencial não por acaso. Ele é hoje a última barreira institucional contra a tentativa de reescrever as regras do jogo por meio da força ou da chantagem. A proposta de anistia, ainda que não formalizada, é tratada com naturalidade por aliados de Bolsonaro no Congresso. E Tarcísio decidiu não apenas endossá-la, mas também pressionar publicamente o presidente da Câmara a colocá-la em pauta.
Esse gesto, mais do que simbólico, escancara o papel que o governador de São Paulo decidiu assumir. Ele não é mais o “gestor técnico” ou o “liberal pragmático” que poderia transitar entre o bolsonarismo e o centro político. É, agora, mais um operador da radicalização. E isso, como já alertam analistas, compromete a própria lógica da alternância democrática.
Para o cientista político Oscar Vilhena Vieira, diretor da FGV Direito SP, “o que está em jogo não é apenas o respeito às instituições, mas a sobrevivência do próprio sistema constitucional”. Em entrevista ao El País em fevereiro de 2023, ele afirmou: “O Brasil vive uma tensão permanente entre legalidade e exceção. E figuras como Bolsonaro — ou quem o suceda nesse papel — se alimentam justamente dessa ambiguidade.”
André Mendonça: o ministro de estimação
No mesmo palanque onde atacou Alexandre de Moraes, Tarcísio fez questão de citar elogiosamente o discurso de André Mendonça, ministro do STF indicado por Bolsonaro, como suposto exemplo de equilíbrio institucional. Mendonça, dias antes, em evento do Lide, dissera que “o bom juiz deve ser reconhecido pelo respeito, não pelo medo”.
O gesto revela o jogo duplo do governador: ataca o Supremo, mas poupa o aliado. E o faz citando justamente aquele ministro que tem sistematicamente votado em favor da linha bolsonarista, como no julgamento sobre a regulação de redes sociais — em que Mendonça defendeu um modelo que, na prática, inviabilizaria o combate à desinformação.
A seletividade de Tarcísio deixa evidente seu projeto: não se trata de defender a autonomia dos Poderes, mas de capturá-los para seus objetivos eleitorais. Sua ideia de “harmonia institucional” passa por ter um Judiciário domesticado — como tentou Bolsonaro, e como ele agora repete.
A normalização da exceção
O que se viu na Paulista, portanto, foi a transformação de um governador em pré-candidato golpista. Se ele acredita mesmo no que diz ou apenas encena para conquistar o espólio político de Bolsonaro, é irrelevante. O efeito prático é o mesmo: a radicalização do ambiente institucional e a construção de um novo ciclo de instabilidade democrática.
A investida de Tarcísio não é episódica. É parte de uma estratégia deliberada para tornar aceitável, novamente, o discurso da exceção. É o mesmo enredo que precedeu 1964, com a diferença de que, agora, há memória histórica, vigilância institucional e — ao menos por ora — uma firmeza maior por parte do STF.
Tarcísio saiu da Avenida Paulista menor do que entrou. Não apenas por ter perdido o que lhe restava de moderação, mas por ter revelado o tipo de político que, em nome da ambição, está disposto a tensionar as bases do regime democrático. O Judiciário respondeu com clareza. Resta saber se o eleitorado — e os demais Poderes — farão o mesmo.
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