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Poder

Tarcísio sonha com o espólio de Bolsonaro, custe o que custar

Ele quer os votos do “capitão”, mesmo que precise colocar o país em uma nova crise institucional

Publicado em 02/09/2025 9:31 - Semana On

Divulgação Reprodução X

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Tarcísio de Freitas deixou para trás qualquer pretensão de moderação. No momento em que o Supremo Tribunal Federal (STF) inicia o julgamento mais importante desde a redemocratização, o governador de São Paulo opera nos bastidores por uma anistia ampla, geral e irrestrita — não apenas para agradar Jair Bolsonaro, mas para herdar seu capital político.

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A movimentação ocorre enquanto o STF julga a cúpula do complô golpista, num processo marcado por provas robustas que devem resultar na condenação do ex-presidente. Bolsonaro, trancado em casa e isolado politicamente, deixou de lado o tom triunfal alimentado por sua aliança com Donald Trump e se lançou em busca de salvação política: articula com o Centrão e aposta numa anistia parlamentar que o tire da rota da prisão. No centro dessa engenharia, Tarcísio tenta se mostrar útil — e confiável.

O governador paulista esteve em Brasília repetidamente nas últimas semanas. Esteve com Bolsonaro, conversou com o presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos), e participou de reuniões com líderes do União Brasil, Progressistas e PL. No evento que selou a federação entre União e PP, foi chamado por vários interlocutores de “presidente” — o apelido não é casual.

Na manhã desta terça-feira (2), Tarcísio recebeu o presidente do Republicanos, Marcos Pereira, para um café no Palácio dos Bandeirantes. A pauta foi abertamente revelada pelo próprio Pereira nas redes sociais: “No cardápio do dia: anistia.” Ambos falaram por telefone com Hugo Motta, que até agora tem resistido em pautar o tema. Há expectativa de que o Republicanos feche questão em apoio à proposta.

O texto defendido por Tarcísio, e endossado por aliados de Bolsonaro, inclui uma anistia que contemple os envolvidos no 8 de janeiro e outras tentativas de ruptura institucional. A proposta já teria apoio do PL, Novo, Republicanos, PP e parte do União Brasil. Líderes do centro admitem que a medida pode ser aprovada, ainda que com margem estreita.

Da tecnocracia ao messianismo

O discurso de Tarcísio mudou radicalmente. O ex-ministro da Infraestrutura, vendido em 2022 como um gestor técnico, tem se rendido cada vez mais à retórica religiosa e autoritária. Em entrevista ao Diário do Grande ABC, afirmou que seu primeiro ato como presidente seria conceder indulto a Jair Bolsonaro, mesmo reconhecendo publicamente que não confia na Justiça.

É uma declaração grave. O governador comanda uma força armada de quase 500 mil homens e lidera o estado mais rico da federação, onde se concentra a maior operação já feita no país contra o crime organizado. Ao declarar desconfiança no Judiciário, compromete não apenas a legitimidade das instituições, mas também a própria política de segurança pública que diz liderar.

Como escreveu o colunista Reinaldo Azevedo em seu blog no UOL: “Se ele não aposta na efetividade da Justiça, por que os paulistas e os brasileiros deveriam fazê-lo?”

O mesmo Tarcísio que hoje diz representar a racionalidade do campo conservador, em São Bernardo do Campo, evocou passagens bíblicas e disse que “Deus dá o fardo a quem pode carregá-lo”, numa analogia direta à sua eventual missão presidencial. “Romanos 12:12”, citou, entre aplausos.

Não é o primeiro flerte do governador com a ideia de ser um ungido. Em fevereiro, comparou-se a Abraão e Moisés, dizendo que, se foi colocado na posição em que está, é porque há uma “missão” maior a cumprir. Não faltam setores no mercado financeiro e na imprensa que o veem como “o candidato da direita viável”, alguém que pode manter o eleitorado bolsonarista sem o ônus da rejeição do clã.

Mas essa viabilidade política cobra seu preço. E Tarcísio parece disposto a pagá-lo.

A herança maldita do bolsonarismo

A tentativa de herdar os votos do bolsonarismo passa, necessariamente, pela fidelidade incondicional. Tarcísio se curvou às exigências da família Bolsonaro, que cobra lealdade à pauta golpista. O filho mais ativo do ex-presidente, Eduardo Bolsonaro, já obrigou o governador paulista a endossar bandeiras que antes repudiava — inclusive a defesa do impeachment de ministros do STF, como Alexandre de Moraes.

Como resumiu com precisão o jornalista Reinaldo Azevedo: “O filho mais estridente de Jair Bolsonaro obrigou o governador de São Paulo a beijar a cruz de uma eventual e futura crise institucional.”

É disso que se trata. Não há, neste momento, nada mais sintomático da degeneração do discurso político do que a mobilização por uma anistia pré-fabricada, que contorne os mecanismos constitucionais e garanta impunidade a quem atacou a democracia.

Bolsonaro está à beira de uma condenação criminal. O Supremo deve concluir o julgamento nas próximas semanas, com base em provas obtidas em cooperação com as investigações da Polícia Federal. A resposta institucional esperada seria o fortalecimento das instituições. O que Tarcísio articula, no entanto, é o oposto: uma tentativa de reescrever o veredicto político e judicial do país no balcão do Congresso.

Anistia como ruptura

A anistia, nesses termos, não é apenas uma medida jurídica — é um gesto político de ruptura. Lembremos: em 1979, a anistia articulada no fim da ditadura militar foi construída com base na ideia da reconciliação nacional. Ainda assim, sofreu duras críticas por equiparar crimes de Estado a atos de resistência. Hoje, a proposta de Tarcísio é ainda mais distorcida: quer anistiar um projeto deliberado de destruição institucional.

Não por acaso, setores do STF já discutem a possibilidade de declarar a inconstitucionalidade de qualquer anistia aprovada com efeito retroativo sobre crimes contra a democracia. Segundo o artigo 5º, inciso XLIV da Constituição, “constitui crime inafiançável e imprescritível a ação de grupos armados, civis ou militares, contra a ordem constitucional e o Estado Democrático”.

Tarcísio, ao articular o perdão para golpistas, insinua que esse dispositivo constitucional pode ser ignorado — como se os crimes de 8 de janeiro fossem apenas “excessos” cometidos por “pessoas de bem”. É uma reedição do negacionismo institucional em nome de um projeto de poder.

A movimentação de Tarcísio de Freitas não é apenas uma jogada eleitoral. É um teste de até onde o sistema político brasileiro está disposto a tolerar a corrosão da legalidade para acomodar um projeto de poder. Ao assumir a linha de frente da articulação pela anistia, ele se compromete com a impunidade de um ex-presidente que tramou contra a República — e insinua que, se necessário, repetirá o gesto.

Mais do que disputar o espólio de Bolsonaro, Tarcísio quer provar que pode levá-lo adiante — mesmo que para isso precise colocar o país à beira de uma nova crise institucional.

Eduardo Bolsonaro ameaça candidatura própria

Em meio ao avanço das articulações de Tarcísio, Eduardo Bolsonaro passou a discutir com aliados a possibilidade de lançar uma candidatura presidencial independente em 2026 — mesmo sem o apoio do pai. O movimento escancara o racha interno do bolsonarismo e reflete a disputa pelo espólio político da extrema direita.

Nos bastidores, Eduardo avalia que uma eventual vitória de Tarcísio enterraria o bolsonarismo como força ideológica autônoma, submetendo-o aos interesses do centrão. A interlocutores, tem dito que o ex-presidente Jair Bolsonaro estaria sendo chantageado por lideranças partidárias a apoiar o governador de São Paulo — algo que ele vê como “rendição ao sistema”.

A insatisfação tem crescido. O deputado ficou especialmente irritado com imagens de Tarcísio jogando futebol ao lado de Gilberto Kassab (PSD) — aliado do governo Lula — dias antes do julgamento do ex-presidente no STF. Para Eduardo, a cena revela descolamento da realidade e desrespeito à gravidade do momento.

Em busca de um palanque próprio — até do exterior

Atualmente nos Estados Unidos, onde foi indiciado pela Polícia Federal, Eduardo Bolsonaro não tem data para retornar ao Brasil. Teme ser preso. Enquanto isso, tenta articular com parlamentares e aliados uma proposta de anistia ampla que alcance não apenas seu pai, mas também ele próprio e outros bolsonaristas alvos do ministro Alexandre de Moraes.

Mesmo no exterior, não descarta se candidatar. Segundo especialistas em direito eleitoral, a legislação permite que brasileiros residentes fora do país disputem eleições, desde que mantenham domicílio eleitoral regular no Brasil — o que Eduardo tem.

Em ofício enviado ao presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos), o deputado solicitou autorização para exercer remotamente o mandato a partir dos EUA. A estratégia, além de blindá-lo juridicamente, serve para manter ativa sua presença política.

Obstáculos jurídicos e articulações partidárias

A principal barreira à candidatura de Eduardo é o inquérito que tramita no Supremo Tribunal Federal. Ele é investigado por envolvimento com autoridades estrangeiras, especialmente nos EUA, para pressionar o sistema de Justiça brasileiro — o que, se confirmado, pode torná-lo inelegível.

Ainda assim, o deputado não descarta o lançamento de uma candidatura em 2026. O “plano A” continua sendo aprovar a anistia até abril do próximo ano, abrindo caminho para que Jair Bolsonaro retorne à disputa presidencial. Se isso não for possível, considera-se como “reserva” — ainda que a chance de vitória seja improvável, a ideia seria manter vivo o movimento bolsonarista e eleger uma bancada expressiva no Congresso, com foco em 2030.

Além da insegurança jurídica, há também o problema partidário. Eduardo cogita deixar o PL caso Tarcísio migre para a sigla, o que tem sido ventilado por aliados do governador. O deputado considera que a legenda lhe dá pouco respaldo político. Segundo relatos de pessoas próximas, ele se ressente do apoio frágil recebido do partido durante suas investidas internacionais. Para disputar a Presidência, precisaria estar filiado a outra sigla até abril de 2026.

Disputa de herança e racha explícito

As mensagens reveladas pela Polícia Federal entre Eduardo e Jair Bolsonaro mostram que o filho é abertamente contrário à candidatura de Tarcísio. Considera que, ao abraçar o governador, o ex-presidente estaria entregando o capital político construído desde 2018 nas mãos do sistema que ele sempre combateu.

A desconfiança não é infundada. O avanço de Tarcísio em direção ao centro — com apoio de líderes como Kassab e de parte da imprensa e do mercado financeiro — tem incomodado os setores mais radicais da direita. No Congresso, parlamentares ligados ao clã Bolsonaro veem na movimentação de Eduardo uma tentativa clara de manter o espólio eleitoral dentro da família.

Carlos Bolsonaro (PL-RJ), vereador no Rio de Janeiro, também entrou no jogo. Nas redes sociais, tem elevado o tom contra “aliados oportunistas” que tentam se beneficiar do vácuo deixado pela inelegibilidade de Bolsonaro. Embora não cite nomes, as críticas são direcionadas a Tarcísio e aos partidos que o apoiam.

Flávio Bolsonaro (PL-RJ), por sua vez, adota uma postura mais discreta. Residente em Brasília e com maior acesso ao pai, tem atuado como porta-voz informal e evita confrontos com o governador. Segundo aliados, vê em Tarcísio um quadro importante para o grupo político, mesmo que sua candidatura gere divisões.

Entre a sobrevivência política e a implosão do bolsonarismo

O plano de Eduardo Bolsonaro não é apenas eleitoral — é existencial. O deputado aposta que, sem um nome 100% alinhado ao discurso bolsonarista-raiz, o movimento se diluirá entre alianças fisiológicas. Lançar-se candidato, mesmo sem chance real de vitória, serviria para preservar a identidade ideológica do bolsonarismo, garantir palanque para os radicais e manter a pressão sobre o sistema político.

Mas a manobra carrega riscos. O racha na direita pode minar a candidatura de Tarcísio e enfraquecer o campo conservador como um todo, abrindo caminho para a esquerda ou uma candidatura de centro mais competitiva. Ao mesmo tempo, uma eventual derrota em 2026 isolaria ainda mais Eduardo e o grupo radical do bolsonarismo.

Resta saber se Jair Bolsonaro, acuado judicialmente e com pouca margem de manobra, irá confrontar os filhos ou ceder à pressão dos partidos para preservar algum protagonismo no jogo.

Por ora, o bolsonarismo assiste, dividido, à sua primeira disputa interna real — uma disputa onde não está em jogo apenas quem será o candidato, mas qual será o futuro do próprio movimento.

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