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Poder

Tarcísio patina entre o oportunismo e o respeito à democracia

Governador deve optar entre consolidar sua liderança ou se firmar como menino de recados do bolsonarismo

Publicado em 08/08/2025 12:48 - Semana On

Divulgação Semana On - IA

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O episódio recente do “tarifaço” imposto pelos Estados Unidos sobre produtos brasileiros transformou-se em mais do que uma questão comercial: tornou-se um termômetro da maturidade política e da capacidade de liderança do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos). A sobretaxa de 50% anunciada por Donald Trump atinge diretamente setores produtivos essenciais — especialmente no agronegócio e na indústria paulista —, exigindo respostas rápidas e coordenadas. No entanto, a reação inicial de Tarcísio, marcada por críticas seletivas ao governo federal e silêncios estratégicos sobre aliados, expôs fragilidades que vão além do campo econômico.

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A primeira leitura do governador foi acusatória: atribuiu a culpa pela medida ao presidente Lula, sem considerar publicamente a dimensão política da decisão americana, registrada inclusive na carta de Trump que deixou clara sua motivação. Mais grave, ignorou o papel desempenhado por Eduardo Bolsonaro, que em Washington articulou com setores trumpistas e exigiu sanções ao Brasil. Esse recorte seletivo gerou críticas contundentes, como as do jornalista Josias de Souza, que classificou o gesto como hipocrisia: falar em “desescalar a crise” sem mencionar quem a provocou é, no mínimo, um exercício de conveniência política.

Esse silêncio seletivo de Tarcísio tem raízes no jogo complexo da política nacional. O governador, alçado ao Executivo paulista com o apoio decisivo de Jair Bolsonaro, mantém-se num fio de navalha: qualquer crítica direta à família Bolsonaro pode significar perda de capital político no eleitorado conservador, base indispensável para eventuais ambições presidenciais em 2026. Essa equação, porém, traz outro risco: a imagem de gestor pragmático — que deveria ser seu principal trunfo — é corroída pela percepção de subordinação a alianças políticas.

A inflexão veio após dias de críticas e pressão interna. Gilberto Kassab, presidente do PSD e secretário de Governo de Tarcísio, admitiu que houve necessidade de “corrigir a rota”: depois de culpar Lula, o governador buscou diálogo com empresários e representantes diplomáticos norte-americanos, sinalizando apoio aos produtores prejudicados. O movimento, embora necessário, deixou registrada a marca de um recuo calculado, típico de políticos que operam mais pelo impacto da narrativa do que pelo compromisso inicial com a solução do problema.

Historicamente, crises comerciais com os EUA não são novidade para o Brasil. O embate entre Getúlio Vargas e o governo Roosevelt nos anos 1940, as tensões na década de 1970 envolvendo tarifas sobre aço, ou mesmo as disputas mais recentes em fóruns como a OMC, mostram que a política externa brasileira sempre precisou equilibrar pragmatismo econômico e posicionamento político. O que distingue o momento atual é a corrosão da diplomacia técnica por disputas ideológicas internas: ao transformar uma questão de comércio internacional em munição para a guerra política doméstica, lideranças brasileiras — de ambos os espectros — acabam minando a própria capacidade de negociação no cenário global.

Nesse sentido, o “tarifaço” não é apenas um desafio para Tarcísio: é um reflexo da polarização que molda a política brasileira desde 2014. Ao apoiar abertamente Donald Trump — assim como Lula apoiou democratas —, Tarcísio incorporou à sua identidade política uma associação direta com um projeto ideológico estrangeiro. Essa vinculação, embora possa render dividendos eleitorais em setores da direita, cobra um preço quando o aliado externo toma decisões que prejudicam a economia nacional. É a armadilha da política de alinhamento automático: os ganhos de curto prazo na retórica interna são anulados pelos custos de longo prazo na governabilidade e nas relações comerciais.

No cenário eleitoral, Kassab avalia que Tarcísio só se lançará ao Planalto se tiver “quase certeza da vitória” — algo improvável no quadro atual, em que pesquisas indicam vantagem para Lula. A percepção de que Jair Bolsonaro priorizará candidaturas da família ao Senado reforça a tese de que Tarcísio pode optar por buscar a reeleição em São Paulo, preservando capital político e evitando um desgaste nacional precoce. Ainda assim, para ser viável como presidenciável, precisará construir pontes com partidos de centro, o que exigirá gestos públicos de independência em relação à família Bolsonaro — algo que até agora tem evitado fazer.

A sociologia política ensina que a liderança se mede, entre outros fatores, pela capacidade de assumir custos políticos em nome do interesse público. Em “A Ética da Responsabilidade” (1919), Max Weber advertia que líderes democráticos precisam equilibrar convicção e pragmatismo, sem confundir cálculo eleitoral com responsabilidade de Estado. Aplicado ao caso Tarcísio, o dilema é claro: ao priorizar a conveniência de manter intacta a relação com Bolsonaro e evitar críticas internas à direita, corre o risco de ser percebido como omisso diante de um problema que atinge diretamente milhões de eleitores e milhares de empresas em seu próprio estado.

No plano diplomático, a questão permanece aberta. Kassab ecoa preocupações de diplomatas que avaliam a dificuldade de encontrar mercados alternativos capazes de compensar a perda comercial com os EUA. Lula, por sua vez, também enfrenta críticas por adotar uma postura considerada pouco flexível para o diálogo com Trump, alimentando a percepção de que o impasse se agravou por “má vontade bilateral”. Essa simetria de intransigências reflete o cenário global contemporâneo, em que a interdependência econômica é atravessada por disputas ideológicas, e em que líderes usam o comércio como ferramenta de pressão política.

Em última análise, a condução de Tarcísio nesse episódio será lembrada como um momento definidor de sua trajetória: ou consolidará a imagem de líder capaz de enfrentar crises com firmeza e clareza, ou ficará marcado como mais um político que, diante de um “elefante na sala”, preferiu desviar o olhar para não incomodar aliados. Como a história política brasileira demonstra, de Afonso Pena a Itamar Franco, a omissão diante de crises externas raramente perdoa ambições nacionais.

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