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Poder
Disputa entre o governador de SP e Eduardo Bolsonaro revela colapso moral do bolsonarismo
Publicado em 12/07/2025 12:03 - Semana On
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O que parece delírio institucional, infelizmente, não é: Tarcísio de Freitas, governador do estado mais poderoso da federação, tentou interceder junto a ministros do Supremo Tribunal Federal para que Jair Bolsonaro tivesse seu passaporte devolvido e pudesse viajar aos Estados Unidos, supostamente para “negociar” com Donald Trump a retirada do tarifaço que pune produtos brasileiros. O gesto, que mais lembra uma manobra de roteiro mal escrito, expõe não apenas uma tentativa de construir uma rota de fuga ao ex-presidente investigado por tentativa de golpe de Estado, mas também revela uma perigosa conivência com o desmonte institucional promovido pelo bolsonarismo. A ação despertou reações severas, como a do Grupo Prerrogativas, que ingressou com representação no STF, acusando o governador de obstrução de justiça.
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Ao agir como um emissário informal de Bolsonaro, Tarcísio transgride a lógica institucional da República. Seu papel, como chefe do Executivo paulista, é defender os interesses dos cidadãos de São Paulo — o estado mais atingido pelas sanções impostas por Trump. A responsabilidade pela condução das relações internacionais, inclusive negociações comerciais, cabe exclusivamente ao governo federal, por meio do Itamaraty. Ao se deslocar desse eixo constitucional, Tarcísio não apenas usurpa uma função que não lhe cabe, como submete a dignidade do cargo que ocupa aos caprichos de um ex-presidente investigado e sem mandato.
A revelação da jornalista Mônica Bergamo (Folha de S.Paulo) de que o governador fez ligações a ministros do STF com a proposta de liberar Bolsonaro para um tour diplomático nos EUA gerou perplexidade. A justificativa — de que Bolsonaro poderia negociar pessoalmente com Trump — beira a farsa. Como lembrou o jurista Marco Aurélio de Carvalho, coordenador do Grupo Prerrogativas, “qualquer conversa pode ser feita por telefone, em ambiente seguro. Não faz sentido alegar necessidade de viagem. Talvez o objetivo seja facilitar a fuga dele, esse é o objetivo inconfessável”.
Mais que apenas obstrução, o gesto carrega uma simbologia política. Ao tentar reabilitar Bolsonaro como suposto herói nacional, negociador de uma crise que ele próprio ajudou a criar, Tarcísio contribui para a reescrita de uma narrativa absolutamente distorcida da realidade. Afinal, foi o bolsonarismo que incentivou Trump a adotar a retaliação comercial contra o Brasil, como mostram documentos e declarações já conhecidas. O tarifaço de 50% imposto pelos EUA sobre o aço e o alumínio brasileiros não é um castigo a Lula, como a retórica bolsonarista tenta sustentar, mas uma consequência de uma política externa alinhada ideologicamente à extrema direita americana, em detrimento da soberania nacional.
É emblemático que Tarcísio, em vez de criticar o mandatário estrangeiro responsável pelas sanções, direcione suas críticas ao governo brasileiro. Recentemente, o governador chegou a aplaudir uma publicação de Donald Trump que atacava o Brasil por processar Bolsonaro. A sua suposta indignação com os efeitos econômicos do tarifaço perde qualquer legitimidade diante desse alinhamento incondicional. O gesto de vestir um boné com o lema “Make America Great Again” ganha aqui contornos simbólicos ainda mais reveladores — é a entrega não apenas da política, mas da dignidade institucional.
A tentativa de blindagem de Bolsonaro também tem efeito pedagógico para os que ainda acreditam na existência de uma “direita democrática” representada por Tarcísio. Como observou Marco Aurélio de Carvalho, “para aqueles que achavam que havia algum tipo de diferença entre o Bolsonaro e o Tarcísio, talvez elas se resumam de fato às circunstâncias com que cada um se alimenta, um com as mãos e outro com os talheres”. Em outras palavras, a estética muda, mas a essência autoritária e antirrepublicana permanece intacta.
Essa prática política — voluntarista, personalista e institucionalmente destrutiva — não surgiu do nada. Ela remonta à tradição patrimonialista brasileira, que sempre buscou colocar os interesses privados acima do bem público. No caso do bolsonarismo, esse traço ganha nova roupagem: um populismo digital, antipolítico e revisionista, que tenta apagar os próprios crimes através da manipulação narrativa. A tentativa de transformar Bolsonaro em “negociador” de uma crise provocada por ele mesmo é um exemplo clássico desse esforço de revisionismo político.
Historicamente, tentativas de golpismo e conivência institucional costumam ser suavizadas com eufemismos no Brasil. Foi assim com a ditadura de 1964, muitas vezes descrita como “revolução”, e é assim agora, com o bolsonarismo tentando se reciclar em figuras como Tarcísio, que acenam com polidez enquanto continuam a corroer as bases da democracia. Como lembra o historiador Timothy Snyder, em Sobre a tirania (Companhia das Letras, 2017), “a defesa das instituições democráticas começa com o reconhecimento de sua fragilidade”.
Se o Supremo aceitar qualquer tipo de interferência nesse processo — como sugerido pelo próprio texto da pauta — não estará apenas comprometendo a Justiça, mas legitimando a farsa de um “herói bolsonarista” salvando o Brasil de uma crise bolsonarista. Como afirmou um interlocutor da Corte, ceder a esse tipo de pressão seria o equivalente a escrever “otário” na testa.
A representação feita pelo Grupo Prerrogativas é, portanto, mais que necessária: é um ato de resistência institucional. Em tempos em que se testa diariamente a resiliência da democracia brasileira, cada gesto de defesa da legalidade e da lógica republicana importa. Mais do que julgar o ato de Tarcísio, o STF precisará decidir se está disposto a ser cúmplice do que a história já começou a julgar.
Tarcísio na corda bamba
Na tentativa de se reinventar como interlocutor internacional, Tarcísio de Freitas mergulhou num labirinto sem saída, onde cada passo revela mais sua adesão ao bolsonarismo do que qualquer traço de liderança racional ou republicana. Ao tentar assumir o papel de negociador entre o Brasil e os Estados Unidos diante do tarifaço imposto por Donald Trump — movimento hostil que ameaça empregos e compromete exportações estratégicas — o governador de São Paulo expôs não apenas a fragilidade de seu projeto político, mas também o descompromisso com os limites institucionais da democracia.
Desde a confirmação da sobretaxa de 50% sobre aço e alumínio brasileiros, Tarcísio alterna entre a retórica do confronto e a tentativa desajeitada de parecer estadista. No entanto, como observam aliados do presidente Lula, o governador parece mais interessado em se esquivar da crise e preservar sua imagem junto à base bolsonarista do que em apresentar soluções reais. Ao se reunir com Gabriel Escobar, encarregado de negócios da embaixada americana no Brasil, Tarcísio buscou simular uma iniciativa diplomática — ignorando que o posto está muito distante do centro de decisões em Washington e que a negociação comercial internacional é competência constitucional do governo federal.
O gesto, analisado com ceticismo pelo Planalto, foi interpretado como “uma mise-en-scène inócua”, nas palavras de um ministro petista, pois Escobar não tem qualquer influência relevante junto à Casa Branca. Mesmo se tivesse, Tarcísio não possui mandato constitucional para conduzir tratativas desse tipo. “Ele não tem caneta para liderar uma negociação”, sintetizou outro auxiliar de Lula, referindo-se à ausência de prerrogativas legais do governador na esfera de política externa.
Ao tentar vestir o figurino de mediador entre Lula e Trump, Tarcísio colhe o pior dos mundos: é visto com desconfiança pelo empresariado, com irritação pelo Judiciário e com ironia pela própria base bolsonarista. Sua tentativa de reescrever os fatos — responsabilizando Lula por uma retaliação articulada no seio do trumpismo — só reforçou sua incoerência. Poucos dias antes de tentar parecer conciliador, o governador compartilhava mensagens de apoio a Bolsonaro nas redes, elogiava Trump por atacar o STF e acusava o governo federal de “prestigiar ditaduras, defender a censura e agredir o maior investidor direto no Brasil”.
Essa oscilação discursiva evidencia a encruzilhada na qual o governador se encontra. Se tenta moderar o discurso para dialogar com setores econômicos e institucionais, é alvejado por seu próprio campo político. A resposta de Eduardo Bolsonaro à tentativa de negociação não poderia ser mais clara: só haverá diálogo com os EUA, diz o deputado licenciado, se houver “anistia ampla, geral e irrestrita” para Jair Bolsonaro. O recado está dado: para os bolsonaristas mais radicais, não há espaço para moderação ou institucionalidade — só rendição total.
No campo simbólico, a lógica é ainda mais devastadora. A tentativa de vincular a sobretaxa imposta por Trump à suposta perseguição judicial contra Bolsonaro não resiste à análise dos fatos. A retaliação foi um gesto claro de alinhamento ideológico entre os setores trumpistas e bolsonaristas, que usam o Brasil como peão num tabuleiro geopolítico marcado por guerras culturais e disputas de narrativas — não por interesses comerciais reais. Como alertou o sociólogo Manuel Castells, em Redes de Indignação e Esperança (Zahar, 2013), a crise da legitimidade institucional se dá, sobretudo, quando atores políticos passam a priorizar performances ideológicas em detrimento da governança eficaz.
Tarcísio parece ter perdido a bússola entre esses dois polos: tenta acenar à racionalidade, mas se vê permanentemente puxado pelo pântano do bolsonarismo. Seu telefonema a ministros do STF, pedindo que Bolsonaro fosse liberado para viajar aos EUA e negociar com Trump, foi interpretado não como gesto diplomático, mas como uma afronta à legalidade. Magistrados consultados classificaram a proposta como “fora de propósito” e colaboradores de Lula viram na iniciativa uma “tentativa velada de facilitar fuga”.
O que Tarcísio talvez ainda não compreenda é que, ao insistir em ocupar um papel que não lhe cabe — de diplomata, de defensor de Bolsonaro, de salvador da pátria — ele se distancia da posição que efetivamente conquistou nas urnas: a de governador de São Paulo. E São Paulo não é palco de encenação ideológica, mas motor econômico de um país que precisa de política pública séria, não de teatro revisionista.
Na avaliação do líder do governo na Câmara, José Guimarães (PT-CE), o comportamento do governador marca sua reprovação no “primeiro teste nacional”. Guimarães lembra que até durante a ditadura havia um certo zelo com os interesses nacionais. “Hoje, não. São subservientes”, resumiu.
Essa subserviência, no entanto, não é um detalhe acidental. É expressão direta de um projeto político alinhado à extrema direita global, que já mostrou sua face em outras partes do mundo: hostilidade às instituições, culto ao personalismo e um ultranacionalismo contraditório, que ataca o próprio país quando convém à causa. A adesão de Tarcísio a esse projeto, com modos mais polidos mas igual conteúdo, revela um bolsonarismo travestido de gestão técnica.
A crise provocada pelo tarifaço escancarou esse dilema. Ao buscar protagonismo no cenário internacional, Tarcísio revelou a profundidade de sua dependência simbólica em relação ao bolsonarismo e ao trumpismo. E ao tentar escapar da armadilha, acabou mais enredado nela — pois, como já alertava Maquiavel em O Príncipe, “os homens ofendem mais a quem amam do que a quem temem”. O bolsonarismo ama Bolsonaro, teme Trump, e tolera Tarcísio — mas só enquanto ele for útil à causa.
O Brasil sob chantagem: Flávio Bolsonaro e a lógica da rendição
Na distopia política brasileira em que os filhos de um ex-presidente golpista ecoam a lógica do opressor estrangeiro, o senador Flávio Bolsonaro (PL) cruzou um limite que deveria alarmar qualquer democrata: o da rendição explícita da soberania nacional em troca da impunidade de seu pai. Em entrevista à CNN Brasil e, depois, num confronto com jornalistas da GloboNews, o senador não apenas relativizou o tarifaço imposto por Donald Trump ao Brasil como comparou o episódio à bomba atômica lançada sobre Hiroshima — e sugeriu que a única saída seria ceder à chantagem do ex-presidente norte-americano. O paralelo não é só grotesco, é revelador: trata-se da linguagem do derrotado que sonha com o retorno pela força.
A comparação de Flávio entre o Brasil de hoje e o Japão de 1945 é mais que um desvario retórico: é um manifesto político embutido em ameaças. Para o senador, o país deve “encarar a situação como uma negociação de guerra”, onde o poder imperial — no caso, Trump — impõe sua vontade, e ao Brasil resta apenas a rendição. “Ou se cede, ou virá a bomba”, disse ele, com insólita naturalidade, como quem sugere que a destruição é inevitável caso o Judiciário não conceda a anistia que seu clã exige.
A fala explicitou um projeto autoritário que há tempos se insinua sob a capa da retórica bolsonarista: a ideia de que os interesses de uma família se sobrepõem aos da República; de que a diplomacia deve ser usada como instrumento de autoindulto; de que chantagens devem ser aceitas para proteger um líder envolvido em múltiplos crimes documentados.
Como bem pontuou a jornalista Julia Duailibi na GloboNews, trata-se de “aceitar que o Brasil sucumba à ameaça que Trump está fazendo ao país. No final do dia, o discurso dos senhores é: ‘ok aceitar a chantagem’, ‘ok aceitar a interferência no Judiciário’, ‘ok o Brasil perder emprego’…”. Em outras palavras, para Flávio e o bolsonarismo, o Brasil é moeda de troca — e o povo, dano colateral.
O paralelo entre essa submissão ativa e o colaboracionismo de regimes autoritários não é fortuito. Durante a Segunda Guerra Mundial, muitos líderes europeus colaboraram com a Alemanha nazista, acreditando que poderiam manter parcelas de poder sob tutela externa. O resultado foi o aprofundamento da miséria e da opressão. Flávio Bolsonaro parece beber da mesma fonte histórica, mas inverte os papéis: ele não se vê como aliado do agredido, mas como representante interno do agressor. Seu “nós” coletivo, usado ao descrever a suposta ameaça de Trump, é um esforço cínico para se livrar da responsabilidade de estar, de fato, no lado que impõe a sanção.
É impossível dissociar essa lógica da narrativa maior do bolsonarismo: a construção de um “nacionalismo de fachada” que, na prática, entrega o país a interesses estrangeiros desde que estes sirvam à proteção do mito e de sua família. Como lembra o historiador Timothy Snyder, “regimes autoritários modernos não são sustentados apenas pelo medo, mas por ficções cuidadosamente projetadas — e por elites dispostas a mentir por conveniência”. O Brasil, neste momento, vê alguns de seus representantes abraçarem exatamente esse papel.
É emblemático que, num contexto de crise econômica iminente provocada pelas novas tarifas norte-americanas, o clã Bolsonaro não demonstre preocupação com os empregos perdidos, as exportações interrompidas ou o impacto no setor produtivo. Sua única pauta é o indulto. E não qualquer indulto — mas um imposto à força ao STF, como Flávio já sugeriu em entrevista à Folha de S.Paulo, caso a Corte não aceite, de bom grado, a libertação do pai.
Jair Bolsonaro, por sua vez, permanece fiel à sua estratégia: apresentar-se como vítima de perseguição judicial e defensor da liberdade. Em sua nota sobre a carta de Trump ao Brasil, o ex-presidente chegou a elogiar o tarifaço, afirmando que “jamais teria acontecido sob o meu governo” e culpando Lula pelo “afastamento dos compromissos com a liberdade”. Não há uma só palavra de crítica à medida norte-americana. A agressão contra o Brasil é justificada em nome da fidelidade ideológica. Um traço comum a regimes personalistas e submissos, como os que marcaram ditaduras latino-americanas do século XX.
Nesse sentido, o que se desenha é um novo tipo de vassalagem internacional, em que uma elite política submete o país a chantagens externas em troca de proteção pessoal. A estratégia do senador Flávio e dos irmãos — Eduardo, nos Estados Unidos, e Carlos, nas redes — não é casual. Está inserida num projeto de deslegitimação das instituições brasileiras, sobretudo o STF, e de reabilitação política do pai, mesmo que ao custo do empobrecimento da nação.
Se o Brasil já teve elites que traíram a soberania por temor, como no golpe de 1964, o bolsonarismo avança um passo além: celebra a traição como estratégia política, aplaude a sanção como aviso divino e ridiculariza o patriotismo em nome da sobrevivência do clã. É nesse contexto que Tarcísio de Freitas, antes visto como “nome técnico” da direita, surge como coadjuvante voluntário da farsa, tentando interceder junto ao STF e aos diplomatas norte-americanos para liberar Bolsonaro para uma suposta negociação com Trump.
O bolsonarismo não é apenas autoritário, é entreguista. E sua lógica de “contrato de adesão”, como disse Flávio em outra entrevista, revela uma concepção de país que já não se enxerga como soberano.
A democracia brasileira precisa, mais do que nunca, reconhecer a gravidade dessa inflexão. Ceder à chantagem é aceitar que um líder estrangeiro pode interferir diretamente no sistema de justiça, na política externa e na integridade econômica do país — tudo para proteger um político investigado por tentativa de golpe. E quem aplaude essa lógica não está apenas desprezando o Estado de Direito: está ajudando a corroer os pilares da soberania e do pacto democrático.
Tarifaço de Trump acirra disputa entre Tarcísio e Eduardo Bolsonaro
A tentativa de Tarcísio de se apresentar como interlocutor confiável entre os interesses comerciais do Brasil e a ala trumpista dos EUA caiu como provocação no núcleo duro do bolsonarismo. Sua visita à embaixada americana em Brasília foi o estopim para uma reação agressiva de Eduardo Bolsonaro, que, mesmo sem citar o governador nominalmente, publicou nas redes sociais que qualquer negociação com os Estados Unidos sem a anistia dos envolvidos no 8 de Janeiro seria “um acordo Caracu”.
O termo vulgar usado pelo deputado licenciado não é apenas um deboche: é um aviso. No imaginário bolsonarista, a lealdade se mede por adesão incondicional à cruzada contra o Supremo Tribunal Federal e à reabilitação de Jair Bolsonaro — e Tarcísio, ao evitar confrontos diretos com o STF e adotar um tom mais institucional, está sendo lido como traidor.
O tarifaço de Trump, justificado pela retórica protecionista da campanha republicana de 2024, atingiu diretamente setores estratégicos da economia brasileira, com especial impacto sobre o agronegócio e a indústria paulista. A reação de Tarcísio — que defendeu o diálogo com “dados e argumentos consolidados” — foi vista por setores empresariais como sensata e pragmática. Mas no ambiente tóxico da extrema-direita, ponderação virou sinônimo de fraqueza.
Eduardo Bolsonaro, por sua vez, assumiu a autoria indireta da medida americana, lendo em rede social uma carta em que alega ter dialogado intensamente com aliados de Trump nos EUA para “apresentar, com precisão e documentos, a realidade que o Brasil vive hoje”. A insinuação de que o tarifaço seria resultado dessa articulação beira o surrealismo político: um deputado brasileiro comemorando um ataque comercial contra seu próprio país como se fosse uma vitória moral contra o governo Lula.
Uma disputa por legado — e por sobrevivência
Em jogo está mais do que a candidatura de 2026: trata-se da tentativa de ressurreição do bolsonarismo em meio ao seu processo de autofagia. “Pressentindo que pode dar com os burros n’água, Tarcísio procura desesperadamente burros mais secos”, ironizou um dos trechos da apuração revelada por Mônica Bergamo (Folha de S.Paulo).
Enquanto isso, vozes como a do extremista de direita Paulo Figueiredo, ex-Jovem Pan e aliado de Eduardo nos EUA, tratam o governador de São Paulo como “alguém que atrapalha sem saber” e “um aliado da China”. Em tempos normais, tais acusações seriam descartadas como histeria de bastidores. No contexto atual, são parte de uma guerra aberta por influência, na qual Tarcísio é visto como “direita moderada” demais para herdar o espólio bolsonarista.
A sombra do 8 de Janeiro e a anistia como senha de lealdade
O centro gravitacional dessa disputa permanece o episódio de 8 de Janeiro de 2023 — tentativa de golpe que entrou para a história como o maior ataque às instituições democráticas brasileiras desde a ditadura militar. A anistia aos envolvidos tornou-se exigência central dos bolsonaristas radicais. Para Eduardo Bolsonaro e seus aliados, qualquer político que se omita ou se oponha a essa pauta não é digno da bênção do “mito”.
Não por acaso, os discursos de Tarcísio têm evitado esse terreno minado. Em ato recente na avenida Paulista, atacou Lula e o PT, mas ignorou o STF e não defendeu a anistia. Para a base bolsonarista, isso é inadmissível. Afinal, como bem apontou o cientista político Christian Lynch: “A extrema-direita brasileira se ancora menos em um projeto político do que em um culto à personalidade de Bolsonaro. Romper com o rito da lealdade significa, para essa base, cometer heresia”.
Entre o centrão e a cruz
Tarcísio se vê encurralado: de um lado, tenta preservar sua imagem de gestor eficiente para os empresários e políticos do centrão; de outro, não pode romper completamente com a base bolsonarista sem perder apoio popular. Mas o bolsonarismo, cada vez mais preso ao radicalismo de sua origem, parece incapaz de conviver com nuances.
A história recente mostra que movimentos políticos baseados na figura de um líder messiânico tendem a se autodestruir quando perdem sua bússola original. A experiência do trumpismo nos EUA, a ascensão e queda de figuras como Matteo Salvini na Itália ou Marine Le Pen na França indicam que, sem renovação e institucionalização, o personalismo vira veneno. A antropofagia que hoje marca a direita brasileira pode ser apenas o prenúncio de sua própria implosão.
Entre o colapso e a reinvenção
O racha entre Tarcísio e Eduardo não é apenas disputa por 2026 — é sintoma da crise mais profunda da extrema-direita no Brasil. O bolsonarismo, que já foi movimento popular de massas, agora se vê dividido entre o messianismo autoritário e a tentativa de sobrevida institucional. Nessa briga, ninguém sai ileso: nem o país, que paga a conta da instabilidade, nem a direita, que corre o risco de morrer de indigestão antes mesmo de encontrar um nome viável para disputar o Planalto.
Como escreveu o filósofo alemão Theodor Adorno, “o fascismo começa com o abandono da razão em favor da fidelidade cega”. E é exatamente nesse ponto que o bolsonarismo parece agora tropeçar — traído pela própria lealdade que um dia o ergueu.
Parlamentares brasileiros denunciam Trump em carta ao Congresso dos EUA
A ameaça à democracia brasileira já não se restringe ao território nacional. Em uma iniciativa inédita, parlamentares brasileiros enviaram ontem (11) uma carta a senadores e deputados dos Estados Unidos para denunciar o ex-presidente Donald Trump por tentativa de interferência indevida nos assuntos internos do Brasil. O documento revela uma preocupação crescente com a articulação internacional da extrema direita e a corrosão das bases democráticas promovida por líderes que rejeitam os limites constitucionais e recorrem à desinformação como ferramenta política.
A carta é assinada pelos senadores Eliziane Gama (PSD-MA) e Humberto Costa (PT-PE), e pelos deputados federais Henrique Vieira (PSOL-RJ), Jandira Feghali (PCdoB-RJ), Rafael Brito (MDB-AL) e Rogério Correia (PT-MG). Os parlamentares classificam como “inaceitável” a atitude de Trump, que teria enviado uma carta diretamente ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva com exigências políticas — numa clara tentativa de pressionar o Executivo brasileiro sobre decisões do Judiciário. Para os autores da denúncia, trata-se de um gesto que fere o princípio da separação dos poderes e desrespeita a soberania do Brasil.
“Trata-se de uma ofensiva coordenada por atores políticos que rejeitam os limites constitucionais e recorrem à desinformação como método de disputa”, afirma o documento, que também relembra ações anteriores dos mesmos parlamentares junto ao Congresso dos EUA.
O pano de fundo: aliança global da extrema direita
A denúncia vem na esteira de uma série de movimentações que demonstram o fortalecimento da cooperação entre lideranças da extrema direita mundial. Em 2024, uma delegação parlamentar brasileira visitou Washington para alertar seus pares norte-americanos sobre os riscos dessa aliança ideológica. Participaram da articulação nomes influentes como o senador Bernie Sanders, além dos deputados Susan Wild, Jim McGovern, Chuy Garcia, Greg Casar e Jamie Raskin — este último, membro da Comissão Parlamentar que investigou a tentativa de golpe no Capitólio em 6 de janeiro de 2021.
Na ocasião, a delegação brasileira contou também com a presença de Rogério Sottili, diretor-executivo do Instituto Vladimir Herzog, entidade que atua pela defesa dos direitos humanos e da liberdade de imprensa. A missão reforçou a necessidade de vigilância internacional e construção de uma frente ampla em defesa da democracia. A carta conjunta firmada naquele momento foi um marco simbólico da solidariedade transnacional diante do avanço autoritário.
A retórica da “ditadura judicial” e os ecos bolsonaristas
A nova carta dos parlamentares brasileiros afirma que a narrativa agora impulsionada por Trump — a de que o Brasil estaria sob uma “ditadura judicial” — foi antecipada e denunciada ainda em 2024, como parte de uma estratégia da extrema direita para deslegitimar o Judiciário brasileiro. “A tentativa de projetar sobre o Brasil a narrativa de uma ‘ditadura judicial’ retoma uma estratégia já denunciada por nós, em carta enviada em novembro de 2024”, reforçam os signatários.
Essa retórica, semelhante à utilizada por Jair Bolsonaro durante seu mandato e intensificada após sua saída do poder, busca mobilizar setores da sociedade contra instituições democráticas como o Supremo Tribunal Federal (STF) e o Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Como destaca o cientista político Steven Levitsky, coautor do livro Como as Democracias Morrem (Zahar, 2018), “o descrédito sistemático das instituições por parte de líderes eleitos é um dos sinais mais perigosos de erosão democrática” — e isso vale para o Brasil, os EUA ou qualquer outro país.
Bolsonaro e os processos no STF: o elo com Trump
Na carta aos congressistas americanos, os parlamentares brasileiros lembram que Jair Bolsonaro responde atualmente a ações penais no STF por crimes gravíssimos: tentativa de golpe de Estado, organização criminosa, abolição violenta do Estado Democrático de Direito e desvio de bens públicos. Trump, ao interceder diretamente junto ao presidente Lula, ignora deliberadamente o fato de que o Judiciário brasileiro atua de forma independente e em consonância com a Constituição de 1988.
O gesto é interpretado como uma tentativa de internacionalizar a defesa do ex-presidente brasileiro, transformando-o em símbolo de uma cruzada ideológica contra a esquerda e contra o sistema democrático, como tem sido feito também nos EUA com a narrativa revisionista em torno dos eventos do Capitólio. A afinidade entre Bolsonaro e Trump não é nova — ambos compartilham estratégias retóricas, base social e discurso antissistêmico. Mas, como alertam os parlamentares, essa aliança agora busca interferir diretamente nas decisões soberanas do Brasil.
A resposta democrática precisa ser global
A carta termina com um apelo à continuidade da cooperação entre parlamentares democratas dos dois países: “É fundamental que nossas instituições democráticas estejam preparadas para enfrentar ameaças autoritárias, em qualquer lugar do mundo”. A fala remete à noção defendida por filósofos como Hannah Arendt, para quem “o totalitarismo não conhece fronteiras nacionais” (Origens do Totalitarismo, 1951).
A ofensiva de Trump e a reação dos parlamentares brasileiros devem ser compreendidas como parte de um mesmo campo de disputa global, onde está em jogo não apenas a soberania de um país, mas os próprios alicerces da democracia liberal contemporânea. Ao denunciar a interferência externa e reafirmar o compromisso com a separação dos poderes, os signatários da carta reforçam a necessidade de uma resposta institucional à altura dos desafios colocados pela extrema direita internacional.
Como ensina Norberto Bobbio, “a democracia não é um ponto de chegada, mas um processo permanente de construção e vigilância” (O Futuro da Democracia, Paz e Terra, 1984). E hoje, mais do que nunca, essa vigilância precisa ser compartilhada.
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