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Poder
Deputado é acusado de tentar intimidar ministros da Corte ao articular sanções nos EUA
Publicado em 26/11/2025 1:52 - Semana On
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A Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal (STF) aceitou, por unanimidade, a denúncia da Procuradoria-Geral da República (PGR) contra o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP), que agora se torna réu por coação no curso do processo. A decisão foi tomada em plenário virtual e finalizada na madrugada desta quarta-feira (26).
A acusação tem como base a atuação do parlamentar nos Estados Unidos, onde, segundo a PGR, ele buscou articular sanções contra autoridades brasileiras com o objetivo de intimidar ministros do STF. A suposta pressão ocorreu às vésperas do julgamento que condenou seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro, por tentativa de golpe de Estado e outros crimes relacionados à tentativa de subversão do processo democrático.
Segundo o relator do caso, ministro Alexandre de Moraes, Eduardo Bolsonaro ultrapassou os limites da liberdade de expressão parlamentar. Em seu voto, o magistrado afirmou que houve uma tentativa deliberada de “criar ambiente de intimidação” não apenas contra os ministros do Supremo, mas também contra parlamentares que discutiam, simultaneamente, um projeto de anistia aos envolvidos nos atos antidemocráticos de 8 de janeiro de 2023.
“A conduta do parlamentar extrapolou o limite da crítica política e configurou grave ameaça ao tribunal”, escreveu Moraes, destacando a gravidade de parlamentares atuarem no exterior para buscar punições contra membros do próprio Estado brasileiro.
Atuação coordenada e desmembramento
Além de Eduardo, a denúncia inicial da PGR também atingia o blogueiro Paulo Figueiredo Filho, neto do último general-presidente da ditadura militar (1979–1985), apontado como coautor na articulação das sanções. A Procuradoria afirma que os dois atuaram de forma coordenada na divulgação de conteúdos e contatos políticos nos EUA, incentivando a adoção de medidas restritivas contra ministros do Supremo.
O STF, no entanto, decidiu desmembrar o processo. A denúncia contra Figueiredo será analisada em separado, em data ainda não definida.
Defesa ausente e atuação da DPU
Apesar da gravidade das acusações, Eduardo Bolsonaro não apresentou resposta formal à denúncia. Com isso, a Defensoria Pública da União (DPU) assumiu sua defesa no processo. Em manifestação protocolada, a DPU pediu a rejeição da denúncia alegando que as falas atribuídas ao deputado configurariam apenas “declarações públicas sobre política externa e críticas a decisões judiciais”, não havendo, segundo o órgão, elementos de ameaça ou violência.
Quando a denúncia foi formalizada, em setembro deste ano, Eduardo Bolsonaro e Paulo Figueiredo publicaram nota conjunta em que se diziam vítimas de perseguição política, alegando que sua intenção era apenas “corrigir abusos e injustiças” por meio de mecanismos diplomáticos.
Com a aceitação da denúncia, tem início uma ação penal. A fase seguinte envolve a coleta de depoimentos, produção de provas e diligências. Somente após a instrução processual o STF poderá decidir pela absolvição ou condenação dos réus.
Contexto e implicações políticas
A decisão do Supremo ocorre em um momento de forte tensão institucional entre Poderes, alimentada por setores da extrema direita que seguem questionando, sem provas, a legitimidade do sistema eleitoral brasileiro e a autoridade do STF. A atuação de parlamentares da base bolsonarista em fóruns internacionais, buscando apoio para deslegitimar decisões judiciais internas, representa um novo capítulo na estratégia de confrontação adotada pelo grupo desde a derrota de Jair Bolsonaro nas urnas em 2022.
Para o jurista Oscar Vilhena Vieira, professor de Direito Constitucional da FGV-SP, “a tentativa de utilizar canais internacionais para pressionar instituições nacionais configura uma forma velada, mas grave, de ataque à soberania e à independência dos Poderes”. A declaração foi dada em entrevista ao jornal O Globo, em setembro de 2023.
A denúncia e sua aceitação reforçam o entendimento da Corte de que há limites constitucionais para a liberdade de expressão de agentes públicos, especialmente quando usada para descredibilizar ou ameaçar instituições democráticas. A transformação de Eduardo Bolsonaro em réu tem também impactos políticos: enfraquece sua retórica de “perseguido político” e o coloca no centro de um processo criminal com potencial de desgaste à sua carreira e ao seu grupo político.
O processo, ainda em fase inicial, será acompanhado com atenção por observadores da cena política, já que pode representar um divisor de águas na responsabilização de atores públicos que, sob o manto do mandato parlamentar, atuam contra os fundamentos do Estado de Direito.
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