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Poder

Silêncio nas ruas e a solidão de Bolsonaro diante dos fatos

Com a condenação confirmada, ex-presidente vê ruir a fantasia de levante popular enquanto se decide onde ele cumprirá sua pena

Publicado em 08/11/2025 9:24 - Semana On

Divulgação Semana On - IA

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A unanimidade na Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal nesta sexta-feira (7) para manter a condenação de Jair Bolsonaro na trama golpista que visava subverter o processo democrático brasileiro marca um momento decisivo na história política recente do país — e talvez um dos mais simbólicos. Alexandre de Moraes, Flávio Dino, Cristiano Zanin e Cármen Lúcia rejeitaram o recurso da defesa, estreitando ainda mais o caminho de Bolsonaro rumo ao cumprimento efetivo de sua pena. Mas o que mais chama atenção neste capítulo final é o que não se vê nem se ouve: o silêncio das ruas.

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Ao contrário dos tempos em que o ex-presidente mobilizava multidões a cada ameaça institucional, desta vez, a Praça dos Três Poderes permanece serena. Nenhuma grande manifestação, nenhum clamor incendiário. A retórica da perseguição, do “salvador injustiçado”, parece ter perdido a ressonância que, por anos, sustentou uma estrutura de poder calcada no ressentimento e na desinformação. O asfalto, agora, é mudo.

Essa quietude revela mais do que o cansaço de uma base social desgastada. Ela expõe o desmonte de um imaginário político que, por anos, flertou abertamente com o autoritarismo. A mesma sociedade que, em outros tempos, assistiu inerte ao avanço da militarização da política e à banalização do discurso de ódio, agora assiste — com um misto de indiferença e alívio — ao ex-presidente ser tragado pelas engrenagens da Justiça.

O fim de um mito em construção

Bolsonaro construiu sua trajetória política sobre a negação sistemática dos direitos humanos, que classificava como “o esterco da vagabundagem”. Sua retórica desprezava os princípios mais básicos da convivência democrática e exaltava a violência como método político. Hoje, envolto em recursos judiciais que miram o insucesso, o mesmo homem clama por dignidade no cárcere e busca tratamento humanitário — algo que, por ironia trágica, ele negou a tantos outros brasileiros.

Entre as possibilidades em debate estão a prisão na Papuda, em Brasília, a custódia em um quartel ou em dependências da Polícia Federal. A defesa pleiteia, porém, a prisão domiciliar, alegando motivos de saúde. Não se descarta, nos bastidores, que Bolsonaro inicie seu cumprimento de pena em regime fechado, com posterior transferência para casa, como gesto de “equilíbrio institucional”.

Contudo, essa perspectiva abre um debate fundamental: a seletividade do sistema penal brasileiro. Se a Justiça aceitar que Bolsonaro cumpra pena em casa por razões médicas, ignorando milhares de presos pobres, negros e doentes que apodrecem em celas superlotadas e insalubres, estará, mais uma vez, chancelando a desigualdade que marca profundamente o país. Como bem resume a máxima popularizada por juristas e ativistas: se não vale para todos, é privilégio — não é Justiça.

Justiça para poucos?

Segundo o CNJ (Conselho Nacional de Justiça), cerca de 30% da população carcerária brasileira poderia estar em regime domiciliar por questões de saúde, idade ou baixa periculosidade. No entanto, a morosidade processual, a ausência de defensores públicos e o preconceito estrutural impedem que esses direitos sejam efetivados. Quando se abre a possibilidade de tratamento especial para Bolsonaro — um ex-chefe de Estado com acesso ilimitado a advogados, médicos e redes de proteção política —, a distorção ética salta aos olhos.

A filósofa norte-americana Martha Nussbaum, em sua obra “Frontiers of Justice”, alerta que “uma sociedade justa se mede pela forma como trata seus membros mais vulneráveis”. A realidade carcerária brasileira, por essa métrica, é um fracasso histórico — agravado quando líderes políticos desfrutam de exceções em nome de uma pretensa estabilidade institucional.

Um crepúsculo sem aplausos

Em sua última tentativa de escapar à responsabilização, Bolsonaro buscou refúgio na Embaixada da Hungria, episódio que evidenciou não apenas a intenção de fugir da Justiça, mas também o esvaziamento de sua capacidade de mobilização. Mesmo suas falas mais radicais — como a de Eduardo Bolsonaro, que ameaçou a realização das eleições de 2026 — ecoaram no vazio, sem reação das massas que, outrora, marchavam em sua defesa. A ideia de um levante popular perdeu força diante da crueza dos fatos e da inércia das ruas.

O historiador Timothy Snyder, especialista em autoritarismos, lembra em “Sobre a Tirania” que “a política do inevitável — a crença de que as instituições se manterão por inércia — é o que permite que tiranos floresçam”. No Brasil de 2025, paradoxalmente, é o próprio colapso dessa crença que impede o retorno de um autoritarismo personalista. Sem multidões, sem generais dispostos ao sacrifício, sem aliados dispostos a cair com ele, Bolsonaro assiste ao ocaso de sua era — não como mártir, mas como réu.

O que resta

A definição de onde Jair Bolsonaro começará a cumprir pena será, agora, uma decisão do ministro Alexandre de Moraes. Nos corredores do Supremo, especula-se que ele passará algum tempo em cela de Estado Maior — em quartel ou repartição policial — antes que o STF avalie o pedido de prisão domiciliar. Mas, diante da total ausência de comoção pública, o caso se desenha como uma advertência para a elite política: a impunidade seletiva está, mais do que nunca, sob os holofotes.

Em tempos de normalização do arbítrio, o silêncio das ruas pode parecer apatia. Mas há outra leitura possível: a de que a democracia, aos trancos, começa a se defender sozinha. Sem gritos, sem tanques, sem mitos.

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