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Poder
Caso expõe uso político da religião pela extrema direita no Brasil
Publicado em 21/08/2025 12:35 - Semana On
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Silas Malafaia, um dos principais nomes do bolsonarismo religioso, virou alvo direto do Supremo Tribunal Federal (STF). Na quarta-feira (20), o ministro Alexandre de Moraes autorizou busca e apreensão contra o pastor, no âmbito da investigação que apura a tentativa de obstrução de Justiça durante o julgamento do ex-presidente Jair Bolsonaro por participação em articulações golpistas.
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Malafaia, que retornava de Portugal, foi abordado por agentes da Polícia Federal (PF) já em solo brasileiro. Além da apreensão de seu celular e cadernos com anotações, ele teve o passaporte recolhido e está proibido de deixar o país ou manter contato com outros investigados.
As autoridades identificaram, no celular de Bolsonaro, mensagens que ligam diretamente Malafaia à articulação para obstruir investigações judiciais. Segundo a PF, o pastor “atuou em articulação com outros investigados na definição de estratégias de coação e difusão de narrativas inverídicas”. O objetivo, segundo os investigadores, seria “impedir que eventuais ações jurisdicionais do STF contrariem os interesses ilícitos do grupo”.
Embora o pastor critique a operação e acuse o ministro Moraes de “ditador”, a gravidade do caso se impõe. Os desdobramentos escancaram a instrumentalização da fé como ferramenta de poder político, um fenômeno antigo, mas que ganha nova roupagem na extrema direita brasileira.
A fé como palanque
O entrelaçamento entre religião e política não é novidade no Brasil. Desde a redemocratização, líderes evangélicos vêm ampliando sua presença institucional, com destaque para a fundação da Frente Parlamentar Evangélica em 2003. O que se observa no bolsonarismo, no entanto, é uma guinada ainda mais perigosa: a conversão de púlpitos em trincheiras ideológicas, e de líderes espirituais em operadores políticos.
Silas Malafaia é, talvez, o exemplo mais ruidoso dessa simbiose. À frente da Assembleia de Deus Vitória em Cristo (Advec), com templos em vários estados e até no exterior, ele acumulou influência política e financeira ao longo da última década. Apoiador ferrenho de Bolsonaro, foi figura central nas manifestações contra as instituições democráticas, incluindo o ato golpista de 25 de fevereiro de 2023 na Avenida Paulista — evento que, segundo levantamento da USP, reuniu cerca de 185 mil pessoas.
O próprio pastor admitiu ter financiado a manifestação com recursos pessoais, após tentar, sem sucesso, atribuir os custos à Avec, braço beneficente da sua igreja. Quando questionado, reagiu com escárnio: “Vem, pode vir PF, Receita Federal. Vocês sabem a renda que eu tenho. Eu não preciso tirar dinheiro de igreja para pagar nada”.
Fortuna pessoal e poder religioso
Em maio deste ano, uma investigação do ICL Notícias, revelou detalhes sobre o “Império Malafaia“. Com base em mais de 30 mil páginas de documentos, a apuração mostrou que o pastor declarou rendas anuais acima de R$ 1 milhão em diversos anos entre 2013 e 2018, mas sem evolução patrimonial compatível.
Apesar do discurso agressivo contra o Estado, Malafaia usufrui de benefícios tributários concedidos a instituições religiosas — isenções que, segundo estudo da Receita Federal de 2020, resultam em renúncia fiscal superior a R$ 4 bilhões anuais. Isso coloca em xeque não apenas a transparência de sua fortuna, mas também os limites entre a fé e o lucro.
Na semana passada, o pastor foi alvo de extensa reportagem da Semana ON. Leia aqui.
Política como cruzada
As mensagens resgatadas pela PF também revelam um Malafaia agressivo, de linguagem vulgar, destoando do tom moralista que adota em público. Em conversas com Jair Bolsonaro, chama Eduardo Bolsonaro de “babaca”, exalta Flávio por “falar certo, cacete, na GloboNews” e incentiva o ex-presidente a seguir os passos de Donald Trump com frases como: “A faca e o queijo está na tua mão, cacete!”.
Esse discurso bélico e escatológico — marcado por referências à “justiça divina” e à “queda” de Alexandre de Moraes — alimenta a retórica do embate entre o “bem cristão” e o “mal institucional”. Trata-se de uma estratégia típica do populismo autoritário, identificada por estudiosos como Cas Mudde e Pippa Norris, que destacam o uso da religião como recurso de legitimação simbólica para projetos antidemocráticos.
Quando o púlpito vira tribunal
O uso da fé como escudo e espada não é uma exclusividade brasileira, mas aqui ganha contornos alarmantes. Como alerta o filósofo político Michael Sandel, “a religião tem um papel legítimo na vida pública, mas quando usada para anular a razão pública, ela se transforma em tirania moral”. É o que se vê quando líderes religiosos tentam coagir juízes, intimidar opositores e moldar o debate público à sua imagem e semelhança.
Silas Malafaia, longe de ser um mero pregador, é peça central de uma engrenagem ideológica que alimenta a negação da democracia, o culto à autoridade e a criminalização da crítica. Ao fazer da religião um bunker político, ele desvirtua a fé e agride a Constituição. Como já advertiu Hannah Arendt, “os que dizem falar em nome de Deus frequentemente se colocam acima da lei dos homens — e essa é a semente do totalitarismo”.
Justiça e memória
A operação contra Malafaia não é apenas um episódio isolado. Ela marca um capítulo decisivo na tentativa do Estado democrático de Direito de conter a captura das instituições por um projeto messiânico-autoritário. Um projeto que se ancora na manipulação do medo, na fé instrumentalizada e na mentira como método.
A democracia brasileira, ainda jovem e em constante tensão, precisa se lembrar de que liberdade religiosa não é salvo-conduto para a impunidade — e que os púlpitos não podem ser usados como tribunais paralelos.
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