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Poder

Senado sobre o muro e Câmara mais à direita

Organização política do país precisa ser revisitada: Congresso poderoso deveria arcar pela eficácia dos gastos

Publicado em 04/02/2025 9:11 - Semana On

Divulgação Reprodução

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O Congresso Nacional inicia seus trabalhos sob um novo comando, mas com algumas continuidades significativas. No Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil) retorna à presidência, enquanto a Câmara dos Deputados passa a ser liderada pelo jovem deputado Hugo Motta (Republicanos), de 35 anos. Motta, um nome que despontou no ano passado, assumiu o cargo com o apoio expressivo de Artur Lira (PP), que comandava a articulação política.

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A escolha de Hugo Motta foi cercada de expectativas e algumas surpresas. Inicialmente, esperava-se que o preferido de Lira fosse outro candidato, mas, devido a rearranjos internos e ao consenso entre diversas alas do Congresso, Motta emergiu como o nome viável. Seu estilo, considerado mais conciliador e menos centralizador do que o de Lira, pode indicar algumas diferenças na condução da Câmara. No entanto, a representatividade ideológica permanece similar ao mandato anterior, com espaço tanto para progressistas quanto para a extrema direita.

No Senado, a mudança é mais sensível. Na gestão anterior, o Partido Liberal (PL) enfrentou uma derrota ao apoiar Rogério Marinho contra Rodrigo Pacheco, mas agora adotou uma estratégia diferente. Com o apoio a Alcolumbre, o partido conseguiu assegurar posições importantes nas comissões, o que desloca o órgão um pouco mais para a direita. Apesar disso, o presidente Lula tem uma boa relação com Alcolumbre, o que pode garantir estabilidade nas negociações.

Polarização ou conciliação?

A nova formação do Congresso levanta questões sobre a possibilidade de superação da polarização política no Brasil. No entanto, o termo “polarização” é frequentemente utilizado de forma superficial. “Não há uma polarização real entre extremos. De um lado, temos uma extrema direita antidemocrática e, do outro, um governo moderado com integrantes de centro e centro-direita”, aponta o analista Reinaldo Azevedo.

Para muitos, a narrativa de que é preciso “virar a página” da era Bolsonaro acaba sendo uma forma de tentar diluir também o protagonismo de Lula. Contudo, no Congresso, a conciliação parece mais viável devido ao seu papel crescente como um “poder executivo paralelo”. Com o controle sobre o orçamento e a distribuição de recursos, os parlamentares têm assumido parte das funções executivas sem arcar com os custos políticos e administrativos de governar.

Debate sobre o semipresidencialismo

A discussão sobre o semipresidencialismo ganha força em meio a esse contexto. Embora não seja algo iminente, especialistas defendem que a organização política do país precisa ser revisitada. O Congresso, com seu crescente poder sobre emendas e recursos financeiros, deveria ser responsabilizado também pela eficácia desses gastos.

O modelo atual permite aos parlamentares os benefícios da gestão pública sem os ônus. Isso cria um desequilíbrio que precisa ser corrigido para garantir maior accountability.

O próximo período promete debates intensos, tanto no campo econômico quanto nas questões institucionais, com o governo Lula buscando consolidar seu projeto em meio às dinâmicas do novo Congresso.

Anistia?

As vitórias de David Alcolumbre no Senado e de Hugo Motta na Câmara dos Deputados colocaram sob os holofotes uma questão crítica para o futuro da democracia brasileira: o perdão ou não aos envolvidos nos atos antidemocráticos que culminaram nos ataques de 8 de janeiro de 2023. Ambos os líderes enfrentam pressões internas e externas, enquanto tentam posicionar o Parlamento como um agente de estabilidade política.

Alcolumbre, ao ser questionado sobre a pauta, foi enfático: “A anistia não é prioridade do Brasil nem do Parlamento brasileiro. Isso não pacifica o país”, afirmou em entrevista à GloboNews, logo após obter 73 dos 81 votos dos senadores para permanecer no cargo.

A ideia de “pacificação”, no entanto, ganhou contornos controversos. Usada por apoiadores do ex-presidente Jair Bolsonaro, a palavra tornou-se um sinônimo velado de anistia aos que participaram de manifestações golpistas desde o segundo turno das eleições de 2022. Entre os defensores da medida está a base bolsonarista, que pressiona para que o Congresso aprove um projeto garantindo perdão e a preservação dos direitos políticos dos envolvidos, incluindo o próprio Bolsonaro e figuras-chave, como generais e parlamentares próximos ao ex-presidente.

A proposta, no entanto, gera resistência dentro e fora do Congresso. Críticos apontam que a anistia não seria um passo em direção à paz, mas um incentivo à reincidência de atos ainda mais violentos no futuro. Para especialistas em direito e democracia, perdoar quem tentou subverter o resultado eleitoral seria uma mensagem de fragilidade institucional.

Conflito entre o discurso e a prática

Apesar de afirmar que “debater o assunto não significa apoiar a anistia”, Alcolumbre fez questão de alertar para os riscos de transformar o Senado em um campo de batalha política. “Se trouxermos à tona assuntos que geram discórdia, veremos senadores se agredindo verbalmente nos corredores. E isso desvia o foco da agenda prioritária dos brasileiros”, afirmou.

Na Câmara dos Deputados, Hugo Motta ecoou a defesa da democracia em seu discurso de posse, citando 28 vezes a palavra “democracia” e fazendo menções históricas importantes. Ele relembrou a figura de Ulysses Guimarães, célebre pela rejeição à ditadura militar, e mencionou o filme Ainda Estou Aqui, que narra a luta de Eunice Paiva, viúva do ex-deputado Rubens Paiva, morto pelos militares.

Porém, críticos alertam que discursos em defesa da democracia precisam ser acompanhados de ações concretas. “Não adianta citar Ulysses Guimarães se, ao mesmo tempo, houver abertura para discutir uma anistia a golpistas. Isso seria contraditório e perigoso”, destacou o cientista político Ricardo Ribeiro.

Anistia como um perigo para o futuro

A possibilidade de perdoar os envolvidos nos atos de 8 de janeiro reacende um debate já conhecido no Brasil, especialmente em razão do perdão concedido aos torturadores da ditadura militar (1964-1985). Para historiadores, anistiar quem comete crimes contra o regime democrático é um convite à repetição desses atos. “Se hoje perdoarmos quem tenta destruir a democracia, amanhã estaremos lidando com algo muito pior”, alertou a socióloga Maria Antunes.

A resistência de Alcolumbre e Motta ao tema será um teste de fogo para suas lideranças. A base bolsonarista exige que o projeto de anistia seja discutido e votado. Por outro lado, setores democráticos da sociedade, organizações internacionais e juristas defendem a aplicação da lei, com denúncias, julgamentos e penas justas para quem orquestrou ou participou dos ataques.

Não se trata de revanchismo, afirmam os críticos da anistia. “Pedir que quem atacou o Congresso e o Supremo seja julgado e punido dentro dos marcos legais não é vingança, mas uma exigência mínima para o fortalecimento do Estado Democrático de Direito”, afirma o jurista Pedro Soares.

O futuro do debate

Para além dos discursos e pressões políticas, o tema da anistia será uma prova para a maturidade democrática do Brasil. Governos e instituições já enfrentaram crises antes, mas a maneira como lidam com esta tentativa explícita de subversão democrática pode definir o rumo do país nas próximas décadas.

“Pacificação só é possível sob a proteção das garantias democráticas”, enfatizou o analista político João Medeiros. “Sem isso, o termo vira uma desculpa para encobrir crimes graves.”

Se Alcolumbre e Motta cederem às pressões, o Brasil pode estar encomendando não a pacificação, mas a próxima crise. Por outro lado, se garantirem que a Justiça siga seu curso, estarão dando um recado claro: democracia não se negocia.

Agora, resta saber se, diante da tentação de “arranjos políticos”, os dois líderes resistirão àquilo que alguns críticos já chamam de uma “chanchada histórica”. Afinal, como ensina a História, os pactos feitos em nome da paz sem justiça costumam acabar com novos conflitos.

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