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Poder
Gusttavo Lima é o candidato de direita que se sairia melhor na disputa com o presidente
Publicado em 03/02/2025 9:24 - Semana On
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A pesquisa Genial/Quaest divulgada nesta segunda-feira (3) aponta um cenário político intrigante para as eleições de 2026: Luiz Inácio Lula da Silva lidera em todos os cenários testados e venceria qualquer adversário em um eventual segundo turno. No entanto, o levantamento evidencia uma erosão na vantagem do petista e coloca em destaque a figura inesperada de Gusttavo Lima, cantor sertanejo e nome emergente da direita, como um adversário competitivo.
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Lula, cuja trajetória política atravessa quase cinco décadas, seria eleito novamente se o pleito ocorresse hoje, mas sua vantagem sobre os rivais caiu substancialmente. No confronto com o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), por exemplo, a margem de vitória despencou de 26 para apenas 9 pontos. Contra Ronaldo Caiado (União Brasil), governador de Goiás, a diferença foi reduzida de 34 para 19 pontos. No cenário mais acirrado, contra Gusttavo Lima, Lula aparece com 41% das intenções de voto, enquanto o cantor alcança 35% — uma diferença dentro da margem de alerta político.
O ressurgimento do “outsider” na política brasileira
O destaque de Gusttavo Lima na pesquisa surpreende, mas não chega a ser um fenômeno isolado. Para Felipe Nunes, diretor da Quaest, sua visibilidade é um fator determinante. Com 80% de reconhecimento nacional, Lima supera nomes estabelecidos da direita, como Tarcísio, Romeu Zema (Novo) e o próprio Caiado. “Para ser votado, é preciso ser conhecido”, ressalta Nunes, destacando que Gusttavo Lima é um outsider, alguém sem experiência política formal, mas com forte apelo popular.
A figura do outsider não é novidade no Brasil nem no mundo. Desde a vitória de Donald Trump nos Estados Unidos, em 2016, analistas políticos passaram a observar um padrão de ruptura com a política tradicional, algo que se intensificou com a crise de representatividade pós-2010. No Brasil, o fenômeno ganhou força com Jair Bolsonaro, ex-capitão do Exército e figura marginal aos grandes partidos até sua eleição em 2018. Agora, com Bolsonaro inelegível, Lima desponta como herdeiro de um eleitorado conservador e fragmentado.
Leonardo Avritzer, cientista político da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), alerta, no entanto, para o risco de superestimar o potencial eleitoral do cantor. “Ninguém sabe o que Gusttavo Lima pensa sobre política. Ele aparece ali porque as pessoas o conhecem. Ainda não dá para dizer se isso é um antecipador de desempenho em uma eleição presidencial”, afirma.
Para Leandro Consentino, professor do Insper, o cenário reflete o descontentamento com a classe política tradicional. “O brasileiro está apostando nesse perfil de outsider. O desempenho de Gusttavo Lima lembra o de Pablo Marçal, que quase chegou ao segundo turno na disputa pela Prefeitura de São Paulo em 2024. Isso mostra que o fenômeno não é passageiro”, argumenta.
A fragmentação da direita: um trunfo para Lula?
Um dado central da pesquisa Quaest reforça a fragilidade da oposição: 78% dos eleitores não conseguem indicar espontaneamente em quem votariam se as eleições fossem hoje. Entre os indecisos, há tanto eleitores desiludidos com o governo Lula quanto aqueles sem identificação clara com um nome da direita. Enquanto isso, Lula mantém um piso histórico de 30% das intenções de voto, suficiente para garantir a liderança nas simulações de primeiro turno.
Felipe Nunes observa que a ausência de Jair Bolsonaro reorganiza o campo da direita, mas de forma desordenada. “A oposição vai precisar mais do que os erros do governo para ser competitiva em 2026. Ela vai precisar se organizar e se apresentar com alguma unidade para lançar um candidato forte contra Lula”, afirma o cientista político.
Por enquanto, a fragmentação é evidente. No cenário com maior número de candidatos, Lula lidera com 30%, seguido por Tarcísio de Freitas (13%), Gusttavo Lima (12%) e Pablo Marçal (11%). Ciro Gomes (PDT), que já disputou quatro eleições presidenciais, aparece com 9%. Romeu Zema e Ronaldo Caiado estão na lanterna, com 3% cada. Em outro cenário, onde Tarcísio é substituído por Eduardo Bolsonaro (PL), Lula mantém a liderança com 28%, enquanto Gusttavo Lima e Marçal empatam com 12%.
Essa pulverização beneficia Lula, mas é acompanhada de um desafio crescente: a rejeição ao petista também aumentou. De acordo com a pesquisa, 49% dos eleitores afirmam conhecer Lula, mas não votariam nele em 2026, enquanto 47% mantêm a intenção de voto no presidente. A rejeição de Gusttavo Lima também é alta, chegando a 50%, um índice semelhante ao de Bolsonaro (53%) e Haddad (56%).
Democracia sob a lente da “política pop”
A ascensão de Gusttavo Lima simboliza o que Felipe Nunes chama de “política pop”, fenômeno em que o debate político é influenciado pela cultura de entretenimento e celebridades. “Embora a ‘política pop’ já tenha se provado vitoriosa para cargos legislativos, ela ainda não foi capaz de vencer uma grande disputa majoritária no Brasil”, argumenta o diretor da Quaest.
A rejeição ao status quo político, impulsionada pelas redes sociais, reforça esse novo contexto. Lima, que não tem partido definido e ainda não apresentou uma plataforma política clara, surge como uma tela em branco na qual parte do eleitorado projeta suas frustrações e esperanças. Mas, como lembra Avritzer, a transição de figura popular para liderança política viável exige mais do que carisma. “Para sustentar sua candidatura, ele precisará apresentar propostas concretas e formar alianças estratégicas.”
Um cenário em aberto e o desafio da governabilidade
Com a pesquisa indicando que 2026 está longe de uma definição, Lula enfrentará não apenas a oposição fragmentada, mas também o desafio de manter sua base de apoio firme. Desde seu retorno ao poder, o presidente vem lidando com um cenário econômico difícil e uma oposição que, apesar de desorganizada, tem uma base ideológica sólida.
Para a direita, a eleição de 2026 é uma oportunidade de reconstrução, mas o risco de dispersão é evidente. Se Gusttavo Lima decidir concorrer, ele poderá dividir ainda mais o eleitorado conservador, a menos que consiga se consolidar como candidato unificador. Enquanto isso, Lula, apesar das dificuldades, continua sendo o nome mais forte — uma posição que ele já ocupou antes, mas que, desta vez, carrega novos desafios em um Brasil politicamente polarizado.
A pesquisa, conduzida entre os dias 23 e 26 de janeiro de 2025, ouviu 4.500 eleitores em 250 municípios e apresenta margem de erro de um ponto percentual. O resultado reflete não apenas a volatilidade do cenário eleitoral, mas também a resiliência de figuras políticas experientes e o apelo renovado dos outsiders, em um Brasil onde o tradicional e o disruptivo continuam em constante disputa.
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