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Poder

Senado dos EUA contesta tarifa ao Brasil e enfraquece bolsonarismo

Enquanto Lula e Trump ensaiam reaproximação, extrema direita ainda aposta na sabotagem diplomática

Publicado em 30/10/2025 9:37 - Semana On

Divulgação Reprodução

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A recente reunião entre Luiz Inácio Lula da Silva e Donald Trump na Malásia, marcada por sorrisos diplomáticos e abraços performáticos, parece ter selado mais que uma tentativa de distensão entre Brasil e Estados Unidos. Representou também a consolidação de uma nova fase da relação bilateral, na qual Jair Bolsonaro e sua situação judicial deixam de pautar a agenda comercial — ao menos oficialmente. Para o governo Lula, o ex-presidente brasileiro tornou-se um “assunto superado”. Para setores do bolsonarismo, contudo, a batalha mal começou.

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A aproximação entre os dois governos acontece no rastro de um dos episódios mais turbulentos da história diplomática recente entre Brasil e EUA. Desde 6 de agosto, uma tarifa de 40% — acrescida de 10% anteriores — foi imposta unilateralmente pela administração Trump a centenas de produtos brasileiros. A medida foi justificada, por Washington, como retaliação à “caça às bruxas” contra Bolsonaro e à alegada censura promovida pelo Supremo Tribunal Federal (STF) contra redes sociais norte-americanas.

A carta enviada por Trump ao Brasil em junho deixou explícito o tom beligerante: “A forma como o Brasil tem tratado o ex-presidente Bolsonaro […] é uma vergonha internacional. Esse julgamento não deveria estar ocorrendo. É uma caça às bruxas que deve acabar IMEDIATAMENTE.”

Com a crise tarifária pressionando a inflação norte-americana, especialmente sobre commodities como café e carne bovina, e com fazendeiros insatisfeitos em estados-chave, o Senado dos EUA aprovou, por 52 votos a 48, a derrubada da emergência econômica que justificava as tarifas. Foi uma derrota política para Trump — agravada pelo voto dissidente de cinco senadores republicanos, como Rand Paul, que qualificou a retaliação ao Brasil como “política pública ruim”.

“A China não está comprando nenhuma soja nossa neste ano. A guerra tarifária levou a isso. […] Eles têm medo de que [Trump] faça com eles o que está tentando fazer comigo”, disse Rand Paul ao site Politico.

A votação, contudo, não teve efeito prático: a liderança republicana na Câmara bloqueou qualquer resolução de oposição às tarifas. A suspensão só virá, se vier, por acordo político — exatamente o que Lula e Trump começaram a desenhar. Segundo diplomatas brasileiros, na segunda rodada de conversas entre os dois governos, os EUA “não vincularam” a redução tarifária à revisão da condenação de Bolsonaro. Para o Palácio do Planalto, a política doméstica brasileira saiu da mesa.

Mas se a diplomacia oficial avança, o subsolo da política ideológica trava outra guerra.

A sabotagem como estratégia

Na contramão da distensão diplomática, expoentes do bolsonarismo como Eduardo Bolsonaro e o comentarista Paulo Figueiredo têm feito campanha ativa em Washington para manter sanções contra autoridades brasileiras. A dupla, inclusive, chegou a reunir-se com membros do Departamento de Estado no mesmo período em que o chanceler Mauro Vieira selava o encontro entre Lula e Trump com o assessor Celso Amorim.

Figueiredo e Eduardo alegam nunca ter pedido o tarifaço — mas tampouco pediram sua retirada. Preferem que sanções como a Lei Global Magnitsky continuem vigentes, especialmente contra o ministro Alexandre de Moraes e outros membros do STF. Segundo eles, qualquer alívio na pressão internacional significaria enfraquecer a cruzada bolsonarista contra o Judiciário.

“Não fazemos questão de manter tarifas, achamos a negociação comercial positiva, mas pedimos ao governo Trump que mantenha as sanções às autoridades brasileiras”, afirmou Figueiredo.

A estratégia é clara: manter o STF como inimigo comum, mesmo ao custo de prejuízos comerciais ao país. Para os bolsonaristas, trata-se de um cálculo político. Com Bolsonaro em prisão domiciliar, a extrema-direita tem dificuldades de mobilização. Na ausência do líder, transformam a política externa em palco de revanche.

Essa lógica se estende à sucessão de 2026. Eduardo Bolsonaro e Figueiredo vêm repetindo a tese de que qualquer eleição sem um “Bolsonaro nas urnas” seria ilegítima, e têm pressionado aliados nos EUA a não reconhecer eventuais resultados. A retórica é abertamente golpista — e não passa despercebida a diplomatas e congressistas americanos.

O fantasma de Epitácio Pessoa

Para justificar a viabilidade de uma candidatura presidencial mesmo a partir do exílio, Eduardo cita o exemplo histórico de Epitácio Pessoa, eleito presidente do Brasil em 1919, enquanto estava na França. É uma analogia, no mínimo, distorcida. Pessoa foi escolhido por oligarquias da República do Café com Leite, eleito em colégio restrito, em um tempo em que mulheres não votavam e o voto era público. Sua candidatura tampouco foi fruto de oposição sistemática ao Judiciário ou mobilização internacional contra instituições democráticas.

Trazer esse exemplo revela mais sobre o descolamento da extrema-direita brasileira com a realidade democrática do que qualquer estratégia factível. A evocação de 1919 como inspiração para uma candidatura do exílio é um exercício de revisionismo romântico e inócuo — mas, ao mesmo tempo, perigoso, por sinalizar o desprezo bolsonarista pelo ordenamento institucional atual.

Pragmatismo trumpista e dilemas democráticos

Apesar da retórica radical de seus aliados, Trump tem sinalizado interesse em reverter as tarifas. O motivo? O custo político das medidas entre fazendeiros e consumidores norte-americanos e a disputa geopolítica com a China, que se aproveita da crise para aprofundar laços comerciais com o Brasil e a América do Sul.

“Achamos que será benéfico fazer um acordo. Vai levar algum tempo”, afirmou Marco Rubio.

A visão pragmática do atual governo americano começa a se sobrepor à ideologia. A Casa Branca quer evitar que o Brasil se aproxime ainda mais de Pequim e entende que, apesar das divergências sobre o STF e as big techs, manter Lula como interlocutor confiável é melhor que antagonizá-lo.

Essa racionalidade, porém, é constantemente sabotada por figuras que operam no submundo da diplomacia paralela bolsonarista. Transformar a política externa em trincheira de revanche doméstica compromete o que resta da imagem institucional do Brasil e expõe uma profunda fragilidade: a dificuldade da extrema-direita em aceitar as regras do jogo democrático.

Mais que tarifas

A crise das tarifas e sanções é, no fundo, a superfície visível de uma disputa maior: o lugar do Brasil no mundo em tempos de instabilidade democrática. O que está em jogo não é apenas o preço do café no Texas ou o lucro dos exportadores de carne em Mato Grosso. É o embate entre dois projetos de país — um que aposta no diálogo, mesmo entre adversários, e outro que transforma todo gesto diplomático em nova frente de guerra ideológica.

Se o governo Lula conseguir manter a negociação no plano técnico, isolando a pauta bolsonarista, o Brasil poderá, enfim, virar a página de sua mais grave crise diplomática em décadas. Mas será preciso vigilância. Pois como ensinava o sociólogo Norbert Elias, o processo civilizatório é reversível — e seu retrocesso, sempre começa com a deslegitimação das instituições.

Os pedidos americanos ao Brasil

Redução das tarifas aplicadas pelo Brasil contra o etanol americano. A medida envolveria a queda da taxa de 18% cobrada pelos brasileiros sobre o produto dos EUA. Para a Casa Branca, a medida é estratégica, já que representaria uma sinalização de Trump de que está defendendo seus produtores de milho, duramente afetados pela guerra comercial dos EUA com a China.

O Brasil, portanto, seria um deles e daria uma sensação de vitória ao americano. Os dados oficiais mostram que as exportações agrícolas dos EUA para a China caíram quase 40% no período de junho de 2024 a junho de 2025. Em 2018, os EUA exportaram 489 milhões de galões de etanol para o Brasil, no valor de US$ 761 milhões. Esse número caiu para 28 milhões de galões, no valor de US$ 53 milhões, até 2024.

Acesso às terras raras no Brasil. O governo Trump quer um compromisso de Lula de que terá maior acesso aos minérios brasileiros. Um acordo assinado nesta semana entre a Austrália e os EUA pode servir de modelo para um eventual entendimento com o Brasil.

No acordo com os australianos, o objetivo era o de aumentar o fornecimento de terras raras e outros minerais essenciais, uma arma de Trump para combater o domínio da China no mercado. O primeiro-ministro australiano, Anthony Albanese, afirmou que o acordo apoiará um projeto de US$ 8,5 bilhões que expandirá a capacidade de mineração e processamento de seu país. O acordo inclui US$ 1 bilhão a ser investido pelos dois países em projetos nos EUA e na Austrália nos próximos seis meses.

Compromisso de investimentos de empresas brasileiras nos EUA. Trump quer garantias de que poderá vender ao público americano sua principal bandeira comercial e que envolve a atração de investimentos. Dados de algumas das maiores empresas brasileiras que operam nos EUA sugerem que aproximadamente US$ 7 bilhões em novos investimentos poderiam ser realizados no curto prazo se as tarifas sobre o Brasil fossem reduzidas.

Hoje, as empresas brasileiras já sustentam mais de 110.000 empregos nos EUA e mantêm operações em pelo menos 23 estados, com presença mais forte na Flórida, Geórgia, Texas e Tennessee.

Acesso às compras governamentais. O governo Trump quer acesso ao bilionário mercado de licitações públicas no Brasil, principalmente diante do risco de um acordo entre Mercosul e União Europeia. Pelo tratado que pode sair até o final do ano, os europeus teriam melhores condições para ganhar contratos com governo federal no Brasil.

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