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Poder
Lula propõe negociar sanções econômicas e políticas, mas fortalece elos com China e Índia
Publicado em 14/10/2025 1:43 - Semana On
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O chanceler brasileiro Mauro Vieira e o secretário de Estado dos Estados Unidos, Marco Rubio, devem se reunir oficialmente nesta quinta-feira (16), em Washington, na tentativa de conter a pior crise diplomática entre Brasil e EUA em mais de dois séculos. O encontro marca o início das negociações formais desde que o governo de Donald Trump impôs sanções políticas e sobretaxas de 50% a produtos brasileiros, afetando cerca de 60% das exportações do país para o mercado americano.
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A reunião, confirmada por fontes diplomáticas de ambos os lados, está marcada para as 14h (horário local), e ocorre por iniciativa de Rubio, que ligou pessoalmente para Vieira na semana passada. Embora ambos tenham se encontrado discretamente no fim de julho, a reunião desta quinta será a primeira oficial, com caráter negociador, e contará com a presença de suas equipes, além da possível participação do embaixador Jamieson Greer, representante do Escritório de Comércio dos EUA (USTR).
A iniciativa partiu diretamente da Casa Branca. Após um breve encontro com Lula nos bastidores da Assembleia Geral da ONU, em setembro, e uma ligação telefônica entre os dois presidentes no dia 6 de outubro, Trump designou Rubio como seu principal articulador no processo de reaproximação com o Brasil. A conversa entre os chanceleres será um teste de fogo para o novo rumo que os governos tentam construir.
Medidas unilaterais e resposta diplomática
Desde julho, Washington tem endurecido o tom com o Brasil: aplicou tarifas de 50% sobre produtos brasileiros, impôs sanções com base na Lei Magnitsky ao ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes e sua esposa, além de restringir a emissão de vistos a dezenas de autoridades brasileiras. As medidas, justificadas pelo governo Trump como resposta ao “autoritarismo judicial” e à suposta perseguição a Jair Bolsonaro, provocaram forte reação de Brasília.
O governo Lula, por sua vez, adotou uma estratégia de contenção: quer “congelar a escalada” do conflito e construir um processo gradual de “construção de confiança”. A diplomacia brasileira vê sinais de que Trump estaria buscando reconfigurar sua relação com o Brasil, diante da condenação de Bolsonaro e do desgaste internacional de seus aliados. Segundo fontes do Itamaraty, expressões como “encapsular a crise” e “blindar a relação bilateral” passaram a circular entre os negociadores brasileiros.
Eixos da negociação: tarifas, tecnologia e geopolítica
Do lado brasileiro, o objetivo é claro: Lula já solicitou a retirada das sanções econômicas e das punições políticas. A missão de Vieira é manter o tema sobre a mesa e obter sinalizações concretas ainda nesta rodada. Para Brasília, essa é a pré-condição para qualquer avanço no campo comercial.
Já os EUA têm interesse em temas estratégicos para sua economia e sua posição geopolítica: regulação das big techs — tema sensível que envolve empresas como Meta, Google e Amazon —, abertura do mercado de etanol, acesso a minerais críticos (como terras raras) e a crescente aproximação entre Brasil e China. A situação da Venezuela também deve ser abordada como pano de fundo das tensões regionais.
A sombra de Bolsonaro e os interesses cruzados
Embora o nome de Jair Bolsonaro tenha sido usado como justificativa para as medidas punitivas contra o Brasil, diplomatas brasileiros já deixaram claro que o Judiciário é independente e que a situação do ex-presidente — condenado por tentativa de golpe de Estado e outros quatro crimes — não será pauta de negociação entre os Executivos.
Nos bastidores, entretanto, há uma leitura pragmática em Washington: se o acordo comercial for vantajoso para Trump, o caso Bolsonaro pode se tornar um “assunto superado”. Inclusive figuras da direita exilada nos EUA, como Paulo Figueiredo e Eduardo Bolsonaro (PL-SP), admitem que a prioridade americana será sempre o interesse nacional, não a defesa de seus aliados ideológicos.
Disputa interna e cálculo eleitoral
A escolha de Marco Rubio, político experiente da Flórida e figura influente entre republicanos, para liderar as negociações, também atende a uma lógica doméstica: legitimar sua atuação em um momento de reconfiguração interna da política externa dos EUA. Além disso, há o fator eleitoral: congelar a crise com o Brasil e obter ganhos comerciais pode render a Trump uma vitória política internacional sem custos internos — especialmente diante da disputa acirrada contra Joe Biden em 2026.
O governo brasileiro, por sua vez, busca mais do que uma trégua comercial: quer conter a atuação de grupos bolsonaristas nos EUA e evitar que Trump — caso reeleito — influencie diretamente nas eleições presidenciais brasileiras. Para Brasília, o envolvimento direto do ex-presidente americano seria visto como uma ameaça à democracia no país.
Próximos passos e possibilidades
Dependendo do resultado da reunião entre Vieira e Rubio, há a expectativa de um novo encontro entre Lula e Trump ainda neste mês, durante compromissos na Ásia. Esse seria o momento simbólico de selar uma possível reconciliação, mas isso dependerá da disposição de Washington em rever medidas concretas.
No plano técnico, a investigação conduzida pelo USTR contra o Brasil — com base na seção 301, por supostas práticas comerciais desleais em setores como etanol, desmatamento e ambiente digital — segue em curso. Caso confirmadas as alegações, novas sanções podem ser impostas, o que coloca pressão adicional sobre as negociações desta semana.
O encontro em Washington representa um momento de inflexão para a relação entre Brasil e Estados Unidos. Em meio a um cenário internacional instável, marcado por tensões comerciais, polarização política e redefinições geopolíticas, a retomada do diálogo é um passo necessário — embora ainda frágil.
A depender do equilíbrio entre os interesses econômicos americanos e a firmeza brasileira em defender sua soberania institucional, a reunião desta quinta pode ser o início de uma reaproximação — ou apenas mais um capítulo de uma crise que, até aqui, só fez crescer.
Lula intensifica aliança com China e Índia e reforça laços dos Brics
Duas semanas antes do esperado encontro com Donald Trump na Malásia, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva mobilizou parte expressiva de seu ministério rumo à China e à Índia. A movimentação diplomática sinaliza que, mesmo em processo de reaproximação com os Estados Unidos, o Brasil mantém firme sua aposta estratégica nos Brics, bloco que busca remodelar a ordem econômica global.
Estão em missão oficial na China os ministros Alexandre Padilha (Saúde), Simone Tebet (Planejamento) e o presidente da Comissão Nacional de Energia Nuclear, Francisco Rondinelli Jr. Paralelamente, o vice-presidente e ministro da Indústria e Comércio, Geraldo Alckmin, lidera a partir desta quarta-feira uma delegação à Índia, acompanhado de Padilha, José Múcio (Defesa) e Esther Dweck (Gestão).
A ofensiva diplomática não é pontual. Ela está inserida numa estratégia mais ampla do governo Lula de reequilibrar as relações internacionais do Brasil, diante de um cenário global marcado por disputa entre potências e incertezas econômicas. O recado é claro: o Brasil quer diálogo com os EUA, mas não abrirá mão de aprofundar parcerias estruturantes com China e Índia, dois pilares centrais dos Brics.
Saúde e tecnologia como eixos de cooperação com a China
Direto de Pequim, após reunião com a presidente do Novo Banco de Desenvolvimento (NDB), Dilma Rousseff, o ministro Alexandre Padilha confirmou que o banco dos Brics vai financiar, até dezembro, o primeiro “hospital inteligente” do Brasil, inspirado nos modelos asiáticos. O projeto, orçado em R$ 1,75 bilhão (US$ 320 milhões), será construído em São Paulo, como parte do Instituto Tecnológico de Medicina Inteligente.
“O modelo é inspirado na China e na Índia e representa um salto na organização dos serviços hospitalares no Brasil”, afirmou Padilha. Ele visitará hospitais de referência como o Zhongsham, da Universidade Fudan, em Xangai, e o Narayana, em Bangalore.
Além da infraestrutura, a viagem também abre portas para cooperação em vacinas e medicamentos. Parcerias estão sendo discutidas com a farmacêutica Sinovac, responsável pela CoronaVac, com a empresa de biotecnologia WuXi e com laboratórios de insulina chineses e indianos — um mercado estratégico para o SUS.
Mineração e energia nuclear entram no radar
Outro campo de interesse é o nuclear. Francisco Rondinelli Jr., presidente da CNEN, lidera a delegação brasileira em Chengdu, no oeste da China, onde participa de conferência da Agência Internacional de Energia Atômica. Lá, o Brasil deve assinar quatro acordos com foco em:
– Aumento da produção de radiofármacos;
– Ampliação da exploração de urânio;
– Cooperação na exploração de terras raras;
– Possível operação chinesa de usinas nucleares no Brasil — uma hipótese que dependeria da flexibilização do monopólio estatal.
“A gente não pode ficar para trás. Há muita oportunidade na Ásia”, afirmou Rondinelli. Segundo ele, o interesse chinês em minerais estratégicos — como os usados em chips, baterias e armamentos — coincide com o potencial inexplorado do Brasil na área.
Índia: mercado promissor e ainda subexplorado
Já em Nova Déli, a missão liderada por Alckmin pretende abrir espaço para uma nova fase comercial com a Índia. Atualmente, o Brasil responde por apenas 0,8% das importações indianas, apesar do potencial das duas economias emergentes.
A agenda inclui setores como defesa, saúde e tecnologia, além de negociações com empresários e representantes do governo indiano. Há interesse de Nova Déli no poder de compra do SUS e na indústria brasileira de defesa, com destaque para a participação da Embraer na delegação.
A missão também busca atrair investimentos. Empresas como Novelis (alumínio) e Iveco (veículos pesados) já atuam no Brasil, e há espaço para expansão. A Índia, que ultrapassou a China como país mais populoso do mundo, passa por um ciclo de maior abertura comercial — uma janela que o governo brasileiro tenta aproveitar.
Geopolítica em camadas: China, Índia, EUA
As movimentações do governo Lula desenham uma diplomacia que opera em várias frentes. Ao mesmo tempo em que busca desarmar a crise com os Estados Unidos — deflagrada por sanções unilaterais e tarifas punitivas —, o Brasil fortalece laços com seus parceiros dos Brics, num gesto de reafirmação estratégica.
O Novo Banco de Desenvolvimento, sob liderança brasileira, e os projetos de cooperação tecnológica em saúde e energia são instrumentos concretos dessa aproximação. Ao mesmo tempo, Lula articula com China e Índia uma inserção internacional menos dependente de Washington, em consonância com a política externa que marcou seus governos anteriores.
Para o sociólogo e ex-chanceler Celso Amorim, assessor especial da Presidência, “o mundo está em transição, e o Brasil não pode estar atado a um único eixo de poder”. Em entrevista ao El País em abril deste ano, ele afirmou: “O que está em jogo é uma nova arquitetura internacional, e os Brics são parte dessa construção”.
Diplomacia multifocal em tempos de incerteza
O duplo movimento do governo — aproximação com os EUA por interesse tático, e reforço dos laços com China e Índia por estratégia de longo prazo — mostra que o Brasil busca retomar protagonismo internacional com pragmatismo. A crise com Trump, ainda latente, é tratada com cautela, mas o foco está na diversificação de alianças e na construção de uma nova inserção global.
Enquanto Washington impõe tarifas e sanções, Pequim e Nova Déli oferecem investimento e tecnologia. A mensagem de Brasília é que não há alinhamento automático. Há interesse, negociação e soberania.
Resta saber se Trump — sempre imprevisível — entenderá esse novo jogo de forças.
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