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Poder

PL se curva a Trump e troca soberania por lesa pátria

Tarifaço atinge só 0,6% do PIB brasileiro, mas incomoda

Publicado em 01/08/2025 11:59 - Semana On

Divulgação Reprodução

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Em meio ao mais grave ataque à soberania econômica brasileira em décadas — a decisão do governo de Donald Trump de excluir 566 produtos brasileiros de isenções tarifárias —, o Partido Liberal (PL), com a maior bancada da Câmara dos Deputados, optou por aplaudir o agressor. E mais: puniu com expulsão um de seus parlamentares por defender o país. A decisão partiu do presidente da legenda, Valdemar Costa Neto, e atinge diretamente Antônio Carlos Rodrigues, ex-ministro dos Transportes, que ousou classificar de absurda a sanção de Trump a Moraes e denunciar a interferência estrangeira nos assuntos internos do Brasil.

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No que deveria ser um gesto mínimo de patriotismo, Rodrigues acabou vítima de uma máquina partidária que tem se mostrado cada vez mais a serviço de um projeto autoritário de natureza transnacional, com raízes no trumpismo norte-americano e ramificações profundas na extrema direita brasileira.

Com 95 deputados federais, o PL transformou seu capital político em ferramenta de obstrução institucional. Seu principal objetivo atual é aprovar a anistia a golpistas — incluindo o ex-presidente Jair Bolsonaro — e pavimentar o retorno ao poder por vias não necessariamente democráticas. A interferência direta dos EUA, encabeçada por Trump e endossada por parlamentares do PL como Eduardo Bolsonaro e Sóstenes Cavalcante, amplia esse projeto ao plano internacional.

Eduardo Bolsonaro não esconde suas prioridades. “Se houver cenário de terra arrasada, pelo menos estarei vingado”, disse em vídeo divulgado nas redes sociais. A declaração revela não apenas desprezo pelas instituições nacionais, mas uma disposição cínica para prejudicar o país em nome de uma agenda pessoal e familiar. É ele o principal articulador da aproximação com o trumpismo e o defensor mais ruidoso da subserviência brasileira aos interesses estrangeiros, mesmo quando estes se voltam contra o Brasil.

O reflexo direto dessa aliança foi o tarifaço anunciado pela Casa Branca, que afeta setores estratégicos da economia brasileira. Produtos do agronegócio, como carnes e café — em geral, aliados tradicionais do bolsonarismo —, foram deliberadamente excluídos do Anexo I da lista norte-americana de isenções tarifárias. A Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec) estima um prejuízo de US$ 1 bilhão, enquanto a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) projeta perdas de US$ 481 milhões para o setor cafeeiro.

Apesar do impacto econômico, a fidelidade a Trump prevalece. Sóstenes Cavalcante, líder do PL na Câmara, comemorou o gesto do ex-presidente dos EUA com uma moção de louvor aprovada pela Comissão de Relações Exteriores, no mesmo dia do anúncio das tarifas. Uma cena grotesca protagonizada pelo deputado Delegado Caveira (PL-PR), com uma faixa de apoio a Trump estendida em pleno plenário, selou a imagem de um partido ajoelhado diante de interesses estrangeiros.

No Senado, o líder do PL, Carlos Portinho (PL-RJ), elevou o tom ao afirmar que, sem a anistia, ministros do Supremo “vão presos”. A inversão de valores é completa: juízes da mais alta Corte são tratados como criminosos, enquanto golpistas são reabilitados em nome de um suposto “perdão nacional” que tem mais de chantagem política do que de reconciliação.

Essa retórica não é apenas simbólica. Ela serve à construção de um novo ethos partidário, em que a lealdade a Trump e a Bolsonaro sobrepõe-se a qualquer compromisso com o Estado de Direito. A expulsão de Rodrigues é sintomática: não se trata de um desvio ético ou de uma quebra de decoro, mas da punição exemplar a quem ousa romper com a linha ideológica dominante. É o velho expediente da purificação ideológica, como descreveu o sociólogo Zygmunt Bauman ao tratar dos regimes autoritários que eliminam vozes dissonantes para preservar a “pureza” do grupo dirigente (Modernidade e Holocausto, Zahar, 1998).

Na nota oficial que anunciou a expulsão, o PL classificou a crítica a Trump como “ignorância sem tamanho”. A frase escancara o desprezo pela soberania nacional. Em qualquer democracia funcional, a ingerência de um ex-presidente estrangeiro nos assuntos internos seria tratada como afronta. No PL, é celebrada como demonstração de força e alinhamento estratégico.

A trajetória recente do partido revela, com clareza, que se trata de um comitê de fidelidade ao trumpismo, disposto a sacrificar os interesses nacionais em nome de um projeto de poder global ultraconservador. Como explica a cientista política Wendy Brown, no livro Nas Ruínas do Neoliberalismo (Autêntica, 2020), “a direita autoritária mobiliza a nação não para protegê-la de ameaças externas, mas para canalizar ressentimentos e manter o poder a qualquer custo”. O PL encarna essa lógica: não defende o Brasil, mas usa o Brasil como palco para um jogo de guerra cultural importado.

A expulsão de Antônio Carlos Rodrigues é, portanto, muito mais do que uma decisão partidária. É o símbolo de um processo em curso no qual a política brasileira se torna refém de uma agenda estrangeira hostil à democracia. O recado está dado: quem se opõe ao projeto é descartado. E, como já vimos em outros momentos da história, o silêncio dos cúmplices é sempre o solo fértil para o autoritarismo florescer.

A pergunta, diante desse cenário, já não é se haverá nova tentativa de ruptura democrática. A pergunta é: quando ela vier — e ela virá —, de que lado estará o PL? Se a resposta ainda não é oficial, os sinais já são públicos, explícitos e perigosamente claros.

Juristas pedem ao STF responsabilização civil de Eduardo Bolsonaro

A Associação Brasileira de Juristas pela Democracia (ABJD) protocolou no STF uma Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF) para barrar omissões do Estado brasileiro diante do cenário de sanções econômicas impostas pelos Estados Unidos. A ação também tem como foco a atuação do deputado federal Eduardo Bolsonaro, apontado como um dos articuladores das medidas contra o país e autoridades brasileiras.

A peça, protocolada na quarta-feira (30), diz que a ação é uma resistência jurídica organizada frente a uma escalada de agressões ao ordenamento constitucional brasileiro por atores estrangeiros, tanto estatais, como o governo dos Estados Unidos, quanto privados, como as corporações de tecnologia sediadas naquele país.

Para os juristas, as medidas aplicadas pelos Estados Unidos buscam deslegitimar e subjugar a legislação nacional sob a justificativa de sanções econômicas, pressões diplomáticas ou ameaças de desestabilização, com atuação política significativa de agentes públicos nacionais, como o deputado federal afastado Eduardo Bolsonaro.

A peça sustenta que já há provas materiais e indícios robustos de que o parlamentar praticou coação no curso do processo, obstrução de investigação de organização criminosa e tentativa de abolição violenta do Estado Democrático de Direito.

O documento aponta que Eduardo Bolsonaro lidera uma retaliação às investigações que atingem seu pai, Jair Bolsonaro, denunciado por liderar uma organização criminosa empenhada em romper a ordem democrática. A atuação do deputado busca ferir a soberania do Brasil, com o objetivo de interferir no julgamento da tentativa de golpe – processo em que Jair Bolsonaro é réu, inclusive buscando sanções para autoridades brasileiras.

“O deputado tem atuado, desde o início do ano, para convencer o governo dos Estados Unidos a impor sanções contra ministros do STF e autoridades da Polícia Federal e assumiu, pelas redes sociais, ter influenciado a decisão do presidente Donald Trump de impor taxação de 50% sobre os produtos brasileiros, além da suspensão do visto dos Estados Unidos de oito ministros da Suprema Corte e do procurador-geral da República, Paulo Gonet, seus parentes e ‘aliados’ da Corte”, diz a ação.

“O objetivo dessas medidas não é comercial, mas sim político e jurídico: punir os responsáveis pela destruição do Estado de Direito no país e preservar valores democráticos fundamentais”, diz Eduardo Bolsonaro sobre as tarifas anunciadas por Trump contra o Brasil

Plataformas digitais 

O documento diz ainda que o pacote de retaliações foi uma resposta à atuação soberana do Brasil na regulação das plataformas digitais. A ABJD também aponta que o lobby das big techs, articulado pela Computer & Communications Industry Association (CCIA), busca deslegitimar leis brasileiras como a LGPD e projetos que regulam inteligência artificial, tributação de plataformas e soberania digital.

Para os juristas o “tarifaço” é uma medida de retaliação econômica travestida de ação comercial, tendo por motivação não a defesa do interesse econômico legítimo dos EUA, mas sim a tentativa de coagir o Brasil a recuar em sua soberana atuação jurisdicional, legislativa e regulatória sobre o espaço digital, em especial das big techs.

“O pano de fundo da decisão é inequivocamente político e transborda os limites do direito internacional econômico, invadindo a seara da soberania nacional e da autonomia dos Poderes da República Federativa do Brasil”, diz a ação.

Para a ABJD, os efeitos do tarifaço vão muito além da economia, atingindo setores estratégicos como agronegócio, siderurgia e indústria de transformação, com impacto bilionário no Produto Interno Bruto (PIB) e na vida de milhares de trabalhadores. Além disso, segundo a entidade, a pressão das big techs enfraquece mecanismos de proteção de dados e combate à desinformação, abrindo espaço para manipulação eleitoral e ataques às instituições democráticas.

“Não aceitaremos que o Brasil seja tratado como colônia digital e econômica. Nossa ação exige que o STF reafirme que nenhuma sanção estrangeira, chantagem comercial ou lobby corporativo pode se sobrepor à Constituição e à vontade soberana do povo brasileiro,” disse Tereza Mansi, jurista e integrante da Executiva Nacional da ABJD.

Tarifaço de Trump atinge só 0,6% do PIB brasileiro, mas incomoda

As tarifas de 50% impostas por Donald Trump a uma parte das exportações brasileiras para os Estados Unidos, anunciadas no dia 30 de julho, representam mais um capítulo da longa história de instrumentalização da política comercial para fins políticos e eleitorais. Embora o impacto direto sobre a economia brasileira seja pequeno — cerca de 0,6% do Produto Interno Bruto —, o gesto carrega implicações mais profundas: revela a continuidade de um projeto de poder autoritário, baseado em ameaças, desinformação e desmonte das normas multilaterais que sustentaram a ordem global desde o pós-guerra.

Ao aplicar simultaneamente a Lei Magnitsky contra o ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes e a sobretaxa de 50% sobre cerca de um terço das exportações brasileiras, Trump envia um recado claro ao seu eleitorado interno e à extrema direita internacional: a política externa americana, sob sua liderança, é uma extensão de sua guerra pessoal contra o que chama de “establishment globalista”. Não se trata de proteger a economia americana, mas de punir adversários políticos, mesmo que estrangeiros.

A retaliação comercial não se sustenta em nenhuma lógica econômica. Pelo contrário: os Estados Unidos fecharam o primeiro semestre de 2025 com um superávit comercial de US$ 1,7 bilhão em relação ao Brasil. Exportaram quase US$ 22 bilhões e importaram US$ 20 bilhões — números que revelam um intercâmbio crescente e favorável aos americanos. E enquanto as exportações brasileiras para os EUA cresceram 4%, as americanas para o Brasil subiram 12% — três vezes mais.

Além disso, o Brasil não impõe barreiras comerciais relevantes aos produtos americanos. Não há medidas de salvaguarda, tarifas antidumping, cotas ou subsídios que distorçam a concorrência. A relação comercial vinha sendo, até aqui, funcional e vantajosa para ambos os lados. Por isso, a decisão de Trump escapa à racionalidade econômica e insere-se no padrão de chantagem já observado em seu primeiro mandato — uma prática que, segundo especialistas, tende a se repetir caso ele retorne ao poder em 2025.

A lógica do bode na sala

A estratégia é conhecida. Trump cria crises artificiais, adota medidas draconianas e, posteriormente, recua parcialmente, apresentando-se como pragmático. No caso brasileiro, fontes diplomáticas afirmam que o governo americano já estuda mais de 700 exceções às tarifas impostas — o que pode neutralizar ainda mais seu efeito prático. “É o estilo do governo Trump: ameaça, pressiona e depois oferece alívio seletivo. É chantagem disfarçada de negociação”, avalia o economista Paulo Feldmann, professor da FEA-USP e especialista em comércio internacional.

Essa postura não é nova. Em seu primeiro mandato, Trump impôs tarifas unilaterais à China, Canadá, México, União Europeia e outros aliados históricos, utilizando o argumento da “segurança nacional”. Também abandonou acordos multilaterais como o TPP (Parceria Transpacífica) e travou uma guerra tarifária com Pequim que custou bilhões à economia global. Como mostrou o Peterson Institute for International Economics, as tarifas americanas entre 2018 e 2020 elevaram os custos para consumidores e empresas americanas, sem gerar os empregos industriais prometidos.

No caso brasileiro, as novas tarifas atingem principalmente produtos como café não torrado (6% das exportações para os EUA), mas deixam de fora itens estratégicos como petróleo (12%), aviões da Embraer e suco de laranja. Cerca de 45% das exportações continuarão com a tarifa padrão de 10% e 20% já estavam sujeitas a tarifas globais anteriores, como o aço e o alumínio. O impacto total estimado é de US$ 14 bilhões em exportações — um valor significativo, mas proporcionalmente baixo frente a um PIB de US$ 2,2 trilhões.

O Brasil diante da geopolítica do caos

Apesar do impacto econômico moderado, o gesto de Trump não deve ser subestimado. Ele coloca o Brasil, novamente, no centro de uma disputa geopolítica que transcende o comércio e expõe a fragilidade das democracias diante de lideranças populistas, tanto em países centrais como periféricos.

Para a cientista política Yascha Mounk, autor de The People vs. Democracy (2018), o populismo contemporâneo se caracteriza por enfraquecer instituições, explorar ressentimentos e polarizar o debate público. Nesse contexto, ações como a sanção a um ministro do STF e o uso de tarifas comerciais como instrumento de coerção revelam um desprezo pelas regras do jogo democrático e uma tentativa de intimidar os defensores do Estado de Direito fora das fronteiras americanas.

Do ponto de vista brasileiro, a resposta deve ser estratégica. O episódio escancara a necessidade de diversificar mercados e reduzir a dependência de parceiros imprevisíveis. Em 2024, a China já era o principal destino das exportações brasileiras, com quase o dobro do volume negociado com os Estados Unidos. A União Europeia, por sua vez, voltou a negociar o Acordo Mercosul-UE após a eleição de governos progressistas em países como Brasil, Colômbia e Chile, interessados em pautas ambientais e sociais mais consistentes.

Trump, com seu isolacionismo agressivo, pode acelerar um realinhamento global. Como afirmou a socióloga francesa Dominique Méda, “a globalização neoliberal está em crise, mas o que virá em seu lugar depende da nossa capacidade de construir alternativas multilaterais, democráticas e sustentáveis”.

Política externa precisa ser soberana, não reativa

O Brasil deve aproveitar a oportunidade para afirmar uma política externa soberana, pautada pela cooperação Sul-Sul, pela defesa da ordem multilateral e pelo fortalecimento de vínculos com países comprometidos com o multilateralismo. Em vez de se curvar às chantagens de Washington, o país pode reforçar laços com potências médias como Índia, Indonésia e África do Sul, ao mesmo tempo em que negocia em bloco com China e UE.

Essa não é apenas uma escolha pragmática, mas uma necessidade diante do colapso da previsibilidade nas relações com os EUA sob Trump. Como apontou Celso Amorim, ex-chanceler brasileiro, “não se trata de romper com ninguém, mas de não depender de ninguém. A soberania se exerce na pluralidade de alianças”.

No longo prazo, o maior risco para os Estados Unidos não é perder mercado no Brasil, mas ceder espaço político e diplomático a concorrentes estratégicos. Ao fragilizar a relação com a maior economia da América do Sul, Trump contribui para a erosão da influência americana no hemisfério e no mundo em desenvolvimento.

As tarifas de Trump são, em última instância, menos uma questão comercial e mais uma evidência do uso autoritário do poder econômico. Revelam um modelo de liderança que despreza a diplomacia, criminaliza adversários e transforma o comércio em arma de guerra política. O impacto imediato para o Brasil é limitado — mas o alerta é profundo.

A resposta adequada passa por fortalecer a democracia interna, blindar instituições contra pressões externas e projetar o país no cenário internacional como ator autônomo, democrático e comprometido com a cooperação global.

Líder de campanha global pela Lei Magnitsky critica sanção a Moraes


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