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Poder
Tarifaço e ataques ao Judiciário reacendem frente ampla pró-soberania
Publicado em 01/08/2025 10:11 - Semana On
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O investidor britânico William Browder, líder da campanha global que resultou na aprovação da Lei Magnitsky nos Estados Unidos, criticou a aplicação da norma pelo presidente norte-americano Donald Trump contra o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes.
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“Passei anos lutando para que a Lei Magnitsky fosse aprovada no intuito de acabar com a impunidade de graves violadores de direitos humanos e de cleptocratas. Até onde posso entender, o juiz brasileiro Moraes não se enquadra em nenhuma das duas categorias”, escreveu, em seu perfil, na rede social X.
Como parte de sua biografia, Browder se descreve como o maior investidor estrangeiro na Rússia até 2005, quando teve sua entrada no país negada e foi declarado ameaça à segurança nacional por expor casos de corrupção em empresas estatais russas.
Em 2008, o advogado de Browder, Sergei Magnitsky, descobriu uma fraude massiva cometida por funcionários do governo russo, envolvendo US$ 230 milhões em impostos. Ele testemunhou contra pessoas envolvidos no esquema e foi, posteriormente, preso e torturado.
Sergei Magnitsky morreu na prisão em 16 de novembro de 2009, deixando a esposa e dois filhos. Desde então, Browder lidera uma campanha global pela Lei Magnitsky, com foco em impor proibições de vistos e congelamentos de bens a violadores de direitos humanos e funcionários corruptos.
Moraes diz a Lula que não quer atuação do governo em sua defesa nos EUA
O ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), decidiu não levar adiante, por ora, uma ação judicial nos Estados Unidos contra as sanções financeiras impostas pelo ex-presidente Donald Trump com base na Lei Magnitsky. A decisão foi comunicada ao governo Lula, que havia articulado uma possível representação internacional por meio da Advocacia-Geral da União (AGU), com aval do presidente e apoio de ministros do STF.
Durante jantar no Palácio da Alvorada, na noite de quinta-feira (31), Moraes afirmou que não pretende estabelecer relação com os EUA neste momento e minimizou os efeitos das sanções no Brasil. Segundo relatos de participantes, o ministro demonstrou tranquilidade e reafirmou que seguirá exercendo suas funções normalmente. O advogado-geral da União, Jorge Messias, presente ao encontro, afirmou que respeitará a posição do magistrado.
Apesar da recusa inicial, o governo federal não descarta futuras medidas, e avalia dois caminhos: contratar um escritório de advocacia americano para representar Moraes diretamente ou provocar a Suprema Corte dos EUA a debater a soberania das instituições brasileiras frente à legislação extraterritorial norte-americana.
As sanções, anunciadas por Trump, impedem Moraes de acessar contas bancárias nos EUA, utilizar cartões de crédito internacionais e congelam eventuais bens no país. A Lei Magnitsky, usada como base, foi originalmente criada para punir violações de direitos humanos por regimes autoritários, mas, na visão do STF, está sendo usada politicamente para interferir no julgamento do ex-presidente Jair Bolsonaro.
A reação do governo brasileiro à medida tem sido cuidadosamente construída, envolvendo reuniões entre Lula, ministros do STF e figuras-chave da política e do setor financeiro. Lula afirmou que a defesa do STF e da soberania nacional é inegociável, e que não aceitará a inclusão de questões judiciais internas — como o julgamento de Bolsonaro — em negociações comerciais com os EUA.
O jantar no Alvorada, oferecido por Lula aos ministros do STF, foi interpretado como um gesto público de apoio a Moraes. Estiveram presentes figuras centrais do Judiciário e do governo, incluindo os ministros Barroso, Gilmar Mendes, Cristiano Zanin, Flávio Dino, Edson Fachin, Ricardo Lewandowski e o procurador-geral Paulo Gonet.
Com a reabertura dos trabalhos do Judiciário nesta sexta-feira (1º), o STF prepara manifestações públicas em defesa da independência do tribunal e de Moraes. O presidente da Corte, Luís Roberto Barroso, abrirá espaço para declarações em plenário, com transmissão pela TV Justiça.
Enquanto isso, o julgamento da tentativa de golpe de 2022, no qual Bolsonaro é réu por crimes como tentativa de golpe de Estado e abolição do Estado Democrático de Direito, segue previsto para meados de setembro. A pena máxima dos crimes somados chega a 43 anos de prisão.
Judiciário no Brasil é independente, diz Mauro Vieira a Rubio
O ministro das Relações Exteriores do Brasil, Mauro Vieira, se reuniu na quarta-feira (30) com o secretário de Estado dos Estados Unidos (EUA), Marco Rubio, em Washington, capital norte-americana.
Em pronunciamento na Embaixada do Brasil em Washington, após a reunião, o chanceler brasileiro afirmou ser “inaceitável e descabida a ingerência na soberania nacional no que diz respeito a decisões do poder judiciário do Brasil, inclusive a condução do processo judicial no qual é réu o ex-presidente Jair Bolsonaro”.
“Afirmei que o Poder Judiciário é independente no Brasil tanto quanto aqui e que não se curvará em pressões externas nesse sentido. O governo brasileiro se reserva o direito de responder às medidas adotadas pelos EUA. Ao final do encontro, concordamos sobre a necessidade de manter diálogo para solucionar os problemas bilaterais”, relatou Vieira.
O chanceler disse que volta ainda hoje ao Brasil, onde vai relatar ao presidente Lula o teor das conversas nos EUA. A partir daí, serão definidas respostas do Brasil diante da tarifa imposta ao Brasil por Donald Trump.
Vieira já estava em território norte-americano nos últimos dias, onde cumpriu outras agendas em Nova York, e acabou se deslocando à capital do país para o encontro com seu homólogo.
Congresso não admite ingerência em Poderes do Brasil, diz Alcolumbre
O presidente do Congresso Nacional, senador Davi Alcolumbre (União-AP), soltou nota sobre a crise política, diplomática e comercial afirmando que o Parlamento brasileiro não admite interferências nos Poderes da República do país.
Sem citar diretamente o ministro Alexandre de Moraes, Alcolumbre disse que confia no fortalecimento do Poder Judiciário. “Reafirmo a confiança no fortalecimento das nossas instituições, entre elas o Poder Judiciário, elemento essencial para a preservação da soberania nacional, que é inegociável. O Congresso Nacional não admite interferências na atuação dos nossos Poderes”.
O presidente do Senado vem sendo pressionado por senadres aliados do ex-presidente Jair Bolsonaro para pautar o impeachment ao ministro Alexandre de Moraes.
Alcolumbre destacou ainda que o Parlamento “permanece atento e unido na defesa dos interesses nacionais, sempre vigilante na proteção das nossas instituições e da soberania do país”.
Segundo ele, o Senado tem atuado para reforçar o diálogo e buscar soluções equilibradas que preservem os interesses do Brasil.
“O caminho da cooperação internacional deve prevalecer, com o objetivo de restabelecer a confiança mútua e manter a histórica parceria entre as duas nações”, comentou.
No final do comunicado, Alcolumbre disse que o Congresso acompanha de perto os desdobramentos dessa questão, “em conjunto com o Executivo e o Judiciário, para assegurar a proteção da nossa economia e a defesa intransigente das instituições democráticas”.
O presidente da Câmara, deputado Hugo Motta (Republicanos-PB), também condenou sanção por nações estrangeiras a membros de Poderes do Brasil.
“Como país soberano não podemos apoiar nenhum tipo de sanção por parte de nações estrangeiras dirigida a membros de qualquer Poder constituído da República. Isso vale para todos os parlamentares, membros do executivo e ministros dos Tribunais Superiores”, afirmou o deputado.
Gilmar Mendes defende Moraes e diz que STF seguirá firme
O ministro Gilmar Mendes (STF) também saiu em defesa de seu colega de toga. Segundo Gilmar, o trabalho de Moraes é fundamental para preservar a democracia brasileira. Ele citou o plano golpista para matar autoridades e anular a eleição.
“Diante dos ataques injustos, declaro integral apoio ao ministro Alexandre de Moraes. Ao conduzir com coragem e desassombro a função de relator de processos que envolvem acusações graves, como um plano para matar juízes e opositores políticos e a tentativa de subversão do resultado das eleições, o ministro Alexandre tem prestado serviço fundamental para a preservação da nossa democracia”, afirmou Mendes em uma rede social na noite de quarta-feira (30).
Ainda segundo ele, o STF não se intimidará diante das ameaças dos EUA. “É importante que se diga: a independência do Poder Judiciário brasileiro é um valor inegociável, e o Supremo Tribunal Federal seguirá firme no cumprimento de suas funções”, completou.
Outro ministro do Supremo que apoiou Moraes foi Flávio Dino, que destacou que ele apenas faz seu trabalho de modo honesto e conforme a Constituição. “E as suas decisões são julgadas e confirmadas pelo colegiado competente (Plenário ou 1ª Turma do STF)”, disse Dino em uma rede social.
Em nota, o STF também saiu em defesa do ministro Moraes após as sanções. “Todas as decisões tomadas pelo relator do processo foram confirmadas pelo Colegiado competente. O Supremo tribunal federal não se desviará do seu papel de cumprir a Constituição e as leis do país, que asseguram a todos os envolvidos o devido processo legal e um julgamento justo”, disse nota institucional do STF.
The Economist: ‘Ataque sem precedentes ao Judiciário’
Em editorial publicado ontem (31/07), a revista The Economist classificou como “sem precedentes” as sanções impostas pelo governo norte-americano ao ministro Alexandre de Moraes. A aplicação da Lei Magnitsky, de acordo com a The Economist, é algo “nunca antes visto” contra um juiz atuando em uma democracia
Segundo o editorial, a legislação americana tem sido usada para punir “generais genocidas de Mianmar e autoridades russas que assassinaram dissidentes políticos”. “Moraes não fez nada parecido”, afirma a revista.
A revista também destaca as motivações políticas das sanções, lembrando que o magistrado é conhecido por conduzir o processo contra o ex-presidente Jair Bolsonaro por tentativa de golpe, caso que Trump considera uma “perseguição política”.
A publicação lembra que o governo Trump revogou recentemente vistos de ministros do STF e aliados ligados à investigação contra Bolsonaro. No decreto de tarifas assinado por Trump, o governo americano cita “perseguição politicamente motivada, intimidação, assédio, censura e processo” contra o ex-presidente.
The Economist critica aliados de Bolsonaro
A Economist criticou aliados de Bolsonaro, que minimizam os atos de 8 de janeiro de 2023. O editorial lembra que “qualquer busca superficial mostra que foi uma orgia de vandalismo” e cita ainda outros episódios violentos atribuídos a bolsonaristas, como incêndios de veículos em Brasília e um plano de atentado contra Lula e Moraes elaborado no fim do governo Bolsonaro.
O texto contextualiza a atuação de Moraes, destacando que ele lidera desde 2019 o inquérito das fake news, ampliado ao longo dos anos para combater desinformação sobre instituições democráticas no Brasil. A investigação, segundo a revista, é polêmica por concentrar poderes de investigação, julgamento e decisão no próprio STF, mas destaca que isso não é ilegal no contexto jurídico brasileiro.
Ao final, a revista questiona se a pressão de Trump, do secretário de Estado Marco Rubio e do secretário do Tesouro Scott Bessent pode ter efeito sobre o magistrado. “Moraes, acostumado a receber ameaças de morte, é difícil de intimidar”, afirma o texto, mencionando que, no mesmo dia em que a Lei Magnitsky foi aplicada,Moraes foi assistir ao jogo de seu time de futebol em São Paulo.
Tarifaço de Trump reacende frente ampla pró-soberania no Brasil
A ofensiva tarifária do ex-presidente norte-americano Donald Trump contra exportações brasileiras não apenas uniu momentaneamente Executivo e Judiciário no Brasil, como reacendeu uma bandeira capaz de reorganizar o debate político nacional: a defesa da soberania. Segundo o Instituto Datafolha, 89% da população acredita que o “tarifaço” trará prejuízos à economia, enquanto 77% apontam impactos negativos nas próprias finanças. Mais da metade (57%) desaprova a tentativa de Trump de interferir no julgamento de Jair Bolsonaro no Supremo.
Esses dados, ainda que não traduzam automaticamente intenções de voto, oferecem pistas políticas relevantes a um ano e três meses das eleições presidenciais. Revelam um campo fértil para a construção de uma narrativa que transcenda o embate entre lulismo e bolsonarismo, reposicionando o debate em torno da autonomia do Brasil frente a ingerências externas — uma bandeira capaz de mobilizar tanto setores da esquerda quanto o eleitorado de centro que garantiu a vitória de Lula em 2022.
A reação articulada entre o Planalto, o STF e a Advocacia-Geral da União à aplicação da Lei Magnitsky contra o ministro Alexandre de Moraes é parte dessa reconfiguração. A sanção americana, com base em uma legislação criada durante o governo Obama para punir violadores de direitos humanos, foi usada por Trump de forma inusitada e politicamente orientada. Na prática, trata-se de uma tentativa de constranger uma instituição soberana — o Supremo brasileiro — e interferir diretamente na responsabilização judicial de Bolsonaro pelos atos golpistas de 8 de janeiro de 2023.
O retorno da frente ampla
Desde sua posse, Lula vinha sinalizando distanciamento da frente ampla que garantiu sua eleição, optando por um governo de centro com viés pragmático. Mas o ataque à soberania nacional, somado ao desgaste internacional do bolsonarismo e à radicalização do trumpismo, reacende o potencial de uma coalizão em torno de valores republicanos e democráticos. Sai o risco à democracia como mote central. Entra a defesa do Brasil contra agressões externas e manipulações transnacionais.
Esse tipo de inflexão já foi observado em outros momentos históricos. Após o golpe militar de 1964, por exemplo, a defesa da soberania — embora instrumentalizada pelos próprios militares — tornou-se elemento central do discurso público, atravessando espectros ideológicos. Nos anos 1980, com a redemocratização, foi a defesa das liberdades civis que uniu forças diversas. Agora, a resistência ao “bolsotrumpismo” pode cumprir papel semelhante.
A conjunção entre a nostalgia autoritária do clã Bolsonaro e o expansionismo populista de Trump — uma aliança informal e simbólica, mas de efeitos concretos — restaurou temporariamente o ambiente de instabilidade institucional que marcou o Brasil pré-2023. O bolsonarismo, mesmo acuado por investigações e denúncias, tenta manter vivo o projeto de reinterpretação golpista da história recente, agora com um aliado externo disposto a agir além das fronteiras diplomáticas usuais.
O 8 de janeiro como sintoma crônico
O uso da Lei Magnitsky contra Moraes representa mais do que um gesto hostil. É parte de um esforço contínuo de deslegitimação das instituições brasileiras. Em 2023, a tentativa de golpe materializada nos ataques às sedes dos Três Poderes foi o ponto culminante dessa ofensiva. O episódio, que deveria ter encerrado uma era de instabilidade, parece, ao contrário, ter se tornado um sintoma crônico — um “dia interminável”, como descrevem alguns analistas políticos.
O historiador Timothy Snyder, especialista em autoritarismo, adverte que “a maneira mais eficaz de destruir uma democracia é fazê-lo a partir de dentro, com instrumentos legais e aparente normalidade” (On Tyranny, 2017). O que se vê no Brasil é uma variação desse fenômeno, com apoio externo e tentativas de normalizar o anormal.
A ironia histórica é inevitável: enquanto o Judiciário brasileiro busca afirmar a legalidade e concluir, em setembro, o julgamento de Bolsonaro por tentativa de golpe, o mesmo setor político que tentou subverter o Estado de Direito agora recorre a lideranças estrangeiras para evitar ser julgado.
Uma página que insiste em não virar
A presença reiterada de Trump como ator político relevante no Brasil — mesmo após deixar a presidência dos EUA — evidencia o grau de colonização simbólica da extrema direita nacional. A aliança entre o trumpismo e o bolsonarismo não é apenas ideológica, mas operacional: o uso de redes sociais, desinformação em massa, teorias da conspiração e o ataque sistemático às instituições são traços comuns e replicados.
Neste contexto, a retomada dos trabalhos do STF marca não apenas o reinício de um calendário judicial, mas um momento de afirmação institucional. Ministros devem usar o plenário para condenar, com veemência, a tentativa de interferência americana e reafirmar a independência do Judiciário. A expectativa é que o julgamento de Bolsonaro, previsto para meados de setembro, simbolize não só uma resposta jurídica, mas também histórica.
Como afirmou Hannah Arendt, em Origens do Totalitarismo (1951), “o poder totalitário começa com desprezo pelo que existe”. O desprezo pelas regras, pela verdade e pela soberania nacional são, hoje, os traços centrais do bolsotrumpismo — uma ameaça que exige resposta articulada, firme e pública.
O tarifaço, longe de ser um problema apenas econômico, se tornou um catalisador político. É, para Lula, uma oportunidade rara de retomar o protagonismo discursivo e reconstruir a ponte com setores que, embora não lulistas, rejeitam o autoritarismo e a submissão a interesses estrangeiros.
Cabe agora ao campo democrático, de centro à esquerda, compreender o sinal de alerta emitido pelas urnas, pelas pesquisas e pela história. É tempo de virar a página. Mas, desta vez, para a frente.
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