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Poder

PGR mantém denúncia contra Bolsonaro

Ex-presidente articula apoio para anistia: Justiça Militar avalia possível punição

Publicado em 13/03/2025 1:58 - Semana On

Divulgação Valter Campanato - Abr

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A cena política brasileira se encontra em um de seus momentos mais críticos desde a redemocratização. O embate entre as instituições democráticas e Jair Bolsonaro, ex-presidente denunciado por tentativa de golpe de Estado, revela não apenas a fragilidade dos sistemas de freios e contrapesos, mas também a resiliência de um setor da política nacional que, mesmo diante de evidências robustas, busca um caminho para legitimar e normalizar o ataque às instituições republicanas.

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O procurador-geral da República, Paulo Gonet, reafirmou que cabe ao Supremo Tribunal Federal (STF) julgar Bolsonaro e seu círculo próximo, incluindo ex-ministros e militares de alta patente, pelo que definiu como “núcleo crucial” da conspiração golpista. Esse entendimento se baseia na nova jurisprudência do Supremo, que ampliou o foro especial de autoridades, garantindo que crimes cometidos no exercício do cargo sejam julgados na Corte mesmo após a saída das funções públicas.

O caso de Bolsonaro, no entanto, vai além de uma mera questão processual. Trata-se de um desafio direto ao arcabouço democrático construído desde a Constituição de 1988. A denúncia envolve não apenas a tentativa de invalidar uma eleição legítima, mas também o incentivo aos ataques às sedes dos Três Poderes, além de um suposto plano de assassinato contra o ministro Alexandre de Moraes. A defesa do ex-presidente alega que há um “excesso de narrativas” e “falta de provas concretas”, enquanto a PGR rebate afirmando que a denúncia está solidamente fundamentada em uma vasta gama de documentos, testemunhos e registros eletrônicos.

O ministro Alexandre de Moraes deve liberar a denúncia para julgamento na Primeira Turma do STF até abril, o que marcará um novo estágio do processo. Caso a denúncia seja aceita, Bolsonaro se tornará réu em um julgamento de repercussão histórica, cujo desfecho pode definir não apenas sua própria trajetória política, mas também o futuro da democracia brasileira.

O articulador da anistia e a mobilização parlamentar

Diante do avanço da investigação, Bolsonaro tem se dedicado a um esforço frenético para garantir uma anistia que abranja não apenas sua situação jurídica, mas também a de aliados envolvidos nos atos de 8 de janeiro de 2023. O projeto de anistia precisa de 257 votos na Câmara dos Deputados para ser aprovado, e a contagem mais recente indica que os bolsonaristas já conseguiram ao menos 237 apoios.

A estratégia do ex-presidente inclui conversas diretas com líderes partidários do Republicanos, PP, União Brasil e PSD, tentando consolidar os votos necessários para levar a proposta ao plenário. Bolsonaro e seus aliados sabem que a batalha na Câmara é viável, mas a situação no Senado é bem mais incerta.

O governo Lula monitora a situação de perto e já articula resistência para impedir o avanço do projeto. Além do embate no Congresso, caso a anistia seja aprovada, é quase certo que sua constitucionalidade será questionada no STF. Juristas apontam que uma anistia preventiva, que busca impedir a responsabilização por crimes ainda não julgados, seria inconstitucional, pois violaria princípios fundamentais do Estado de Direito.

O cientista político Christian Lynch observa que, mesmo que o Congresso tente aprovar a anistia, “não existe anistia para um crime ainda não julgado”, o que pode gerar um intenso embate entre Legislativo e Judiciário. Esse conflito poderia escalar para tentativas futuras de impeachment de ministros do STF, especialmente se a direita radical conseguir fortalecer sua base parlamentar até 2026.

Bolsonaro fora das eleições de 2026 mesmo com a anistia

Mesmo que a anistia seja aprovada, Bolsonaro seguirá inelegível para 2026. Isso porque sua condenação no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) por abuso de poder político e econômico durante a campanha de 2022 não está diretamente ligada ao julgamento do golpe de Estado.

A inelegibilidade de Bolsonaro representa um golpe duro para a extrema-direita, que já busca um nome alternativo para liderar o bloco conservador nas próximas eleições. Setores do PL tentam construir um candidato viável, enquanto outros defendem que Bolsonaro atue como um “mártir político”, usando a inelegibilidade para alimentar um discurso de perseguição e vitimização.

Nos bastidores, parlamentares bolsonaristas já reconhecem que, mesmo que a anistia passe na Câmara, o Senado pode barrar o projeto. Além disso, há uma aposta na radicalização dos apoiadores para pressionar juízes e congressistas a tomarem decisões mais favoráveis ao ex-presidente.

A Justiça Militar entra no jogo

Um novo fator complica ainda mais a situação do ex-presidente: o Superior Tribunal Militar (STM) pode julgá-lo por crimes militares. A presidente da Corte, ministra Maria Elizabeth Rocha, afirmou que Bolsonaro pode perder a patente de capitão da reserva do Exército caso seja condenado por crimes como incitação à tropa.

Historicamente, a Justiça Militar foi complacente com militares que atuaram politicamente, mas a atual conjuntura pode modificar essa tendência. Bolsonaro, que sempre se apresentou como defensor das Forças Armadas, vê agora a possibilidade de ser julgado por seus próprios pares, o que enfraquece ainda mais seu discurso.

A perda da patente não teria apenas um impacto simbólico — ela representaria um duro golpe em sua base militar, que já vem demonstrando sinais de descontentamento. Além disso, caso ocorra, seria uma das primeiras punições desse tipo contra um ex-presidente brasileiro, algo inédito desde a ditadura militar.

O futuro da democracia brasileira

A conjuntura política e jurídica envolvendo Bolsonaro é um divisor de águas para a democracia brasileira. Se as instituições conseguirem garantir que os responsáveis por um ataque direto ao Estado de Direito sejam responsabilizados, o Brasil consolidará sua posição como uma democracia resiliente. No entanto, se a anistia for aprovada e o STF não conseguir impor barreiras jurídicas, o país pode abrir um perigoso precedente para futuras tentativas de golpe.

A experiência internacional mostra que democracias que falham em punir atentados contra suas instituições tendem a sofrer novas crises. Nos Estados Unidos, por exemplo, a leniência com figuras da extrema-direita após a invasão do Capitólio em 2021 fortaleceu o trumpismo e permitiu que Donald Trump permanecesse como um candidato viável em 2024. No Brasil, um cenário similar pode ocorrer se Bolsonaro, mesmo inelegível, continuar a mobilizar sua base e incentivar a radicalização.

Como alertou Hannah Arendt em Origens do Totalitarismo: “O declínio do Estado de Direito é o primeiro sintoma de uma sociedade que perde sua capacidade de distinguir entre o certo e o errado”.

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