Entre em nosso grupo

2

WhatsApp Semana On

21/06/2026 - Desde 2009 informando com qualidade

Nos apoie:

Chave PIX:

19.485.790/0001-70

QR Code para doação

Poder

MPF recomenda processos contra 361 prefeitos, e STF foca deputados do PL

Municípios não prestaram contas sobre R$ 279 milhões em emendas Pix; deputados são acusados de corrupção e ameaças

Publicado em 13/03/2025 10:04 - Semana On

Divulgação Crédito: Getty Images

Clique aqui e contribua para um jornalismo livre e financiado pelos seus próprios leitores.

O Brasil mais uma vez se vê diante de um escândalo que escancara a fragilidade dos mecanismos de controle sobre o uso de recursos públicos. O Ministério Público Federal (MPF) recomendou a abertura de ações criminais contra prefeitos de 361 municípios que não prestaram contas sobre o destino de milhões de reais em emendas Pix, mecanismo de transferência de recursos sem vinculação específica. Paralelamente, o Supremo Tribunal Federal (STF) tornou réus três deputados do Partido Liberal (PL) por suspeita de corrupção na venda dessas mesmas emendas, em um caso que envolve ameaças, extorsão e até a participação de um agiota.

CLIQUE PARA SEGUIR A SEMANA ON NO INSTAGRAM, NO FACEBOOK E NO WHATSAPP

Os dois episódios, embora distintos, convergem para uma questão central: a falta de transparência e a recorrência de práticas corruptas na destinação de verbas parlamentares. O que deveria ser um mecanismo para fortalecer os municípios e atender às necessidades da população se tornou, na prática, um instrumento de poder, barganha e, muitas vezes, enriquecimento ilícito.

As emendas Pix e a omissão de centenas de prefeitos

As chamadas emendas Pix foram criadas como uma forma de acelerar o repasse de recursos federais a estados e municípios, evitando a burocracia tradicional. Na prática, essas transferências especiais permitiram que prefeitos e governadores utilizassem o dinheiro sem necessidade de justificar previamente seu uso. Isso só mudou após uma decisão do Supremo Tribunal Federal (STF), no segundo semestre de 2023, que passou a exigir um plano de trabalho para o uso da verba.

O problema é que muitos municípios ignoraram essa obrigação. Segundo o MPF, 361 cidades receberam repasses em 2024, foram notificadas sobre a necessidade de prestar contas, mas ainda não explicaram para onde o dinheiro foi. No total, R$ 279 milhões estão sem justificativa, um montante expressivo dentro dos R$ 7,7 bilhões destinados via emendas Pix no ano passado. O caso mais emblemático ocorre no município baiano de Tucano, que recebeu R$ 11,7 milhões, mas não detalhou seu uso. Coincidentemente, a indicação da verba foi feita pelo deputado Ricardo Maia (MDB-BA), e o prefeito da cidade é seu próprio filho, Ricardo Maia Chaves de Souza Filho, de apenas 25 anos.

A recomendação do MPF é de que sejam abertas ações criminais contra os prefeitos por crime de responsabilidade, uma vez que a omissão na prestação de contas configura violação da lei. Além disso, órgãos como a Controladoria-Geral da União (CGU) e o Tribunal de Contas da União (TCU) já vinham identificando irregularidades na aplicação dos recursos. Um levantamento do TCU apontou que, em anos anteriores, R$ 469 milhões em emendas Pix estavam sem comprovação de uso.

Em fevereiro deste ano, o ministro Flávio Dino, do STF, determinou que a CGU auditasse todos os municípios que ainda não prestaram contas, reforçando a necessidade de fiscalização sobre os gastos públicos.

Venda de emendas e ameaças: o caso dos deputados do PL

Enquanto centenas de prefeitos deixam de prestar contas sobre o uso dos recursos, em outra ponta do sistema, deputados são acusados de transformar as emendas em mercadoria. O Supremo Tribunal Federal (STF) aceitou a denúncia contra três parlamentares do PL por um esquema de venda de emendas parlamentares em troca de propina. Os acusados são Josimar Maranhãozinho (PL-MA), Pastor Gil (PL-MA) e Bosco Costa (PL-SE).

A investigação aponta que os deputados cobraram um “retorno” de 25% sobre o valor das emendas, totalizando R$ 1,67 milhão em propinas, em troca da liberação de R$ 6,67 milhões para o município de São José de Ribamar (MA), entre dezembro de 2019 e abril de 2020. O prefeito da cidade, José Eudes Sampaio Nunes (Avante), resistiu à cobrança e acabou denunciando o caso à Polícia Federal em novembro de 2020.

O esquema de pressão sobre o prefeito envolvia o agiota Josival Cavalcanti da Silva, o “Pacovan”, que atuava como intermediário dos deputados. Ele chegou a ir pessoalmente à casa do prefeito acompanhado de criminosos já condenados por tortura e homicídio. Pacovan foi assassinado em junho de 2023, mas antes disso, registrou ameaças explícitas contra um lobista que tentava reivindicar parte das propinas.

Em áudios obtidos pela investigação, Pacovan deixa claro o nível de violência envolvido na disputa pelos valores desviados. Em um deles, enviado ao deputado Maranhãozinho em janeiro de 2020, ele afirma que um lobista concorrente iria “pegar uma bala na cara” se insistisse na cobrança. As mensagens revelam um ambiente de total impunidade, onde agentes políticos e criminosos dialogam sobre milhões de reais como se fossem meros negócios ilícitos.

O que esses casos revelam sobre a política brasileira?

A combinação dos dois escândalos expõe um problema estrutural do sistema político brasileiro: a fragilidade dos mecanismos de controle sobre o uso de dinheiro público e a perpetuação da corrupção no financiamento da política.

As emendas parlamentares, embora sejam um instrumento legítimo para garantir que municípios recebam recursos, são frequentemente utilizadas para fins eleitorais e negociadas como moeda de troca no Congresso Nacional. Como destaca o cientista político Fernando Limongi, professor da USP e da FGV, “o orçamento secreto e as emendas Pix escancaram uma prática que sempre existiu, mas que agora ganhou um nível de opacidade e volume de recursos sem precedentes” (Folha de S.Paulo, 2023).

Já os casos de venda de emendas e extorsão revelam um cenário ainda mais preocupante: a relação entre política e crime organizado. O envolvimento de agiotas e a normalização da violência como método de coerção indicam um grau de degradação institucional alarmante. Para o sociólogo Luiz Werneck Vianna, “a corrupção no Brasil não é apenas um fenômeno econômico, mas um sintoma da fragilidade democrática e da captura do Estado por interesses privados” (O Estado de S. Paulo, 2019).

Caminhos para a transparência e o combate à corrupção

Se há algo que os dois casos demonstram, é a necessidade de mecanismos mais rígidos de controle sobre as emendas parlamentares e os gastos municipais. Algumas medidas que podem ser discutidas incluem:

Reforço na fiscalização das emendas Pix: É fundamental que os órgãos de controle tenham autonomia e capacidade técnica para auditar a aplicação dos recursos de forma contínua.

Exigência de transparência total: Todos os repasses e gastos deveriam estar disponíveis para consulta pública em tempo real, dificultando práticas ilegais.

Criminalização mais severa para a venda de emendas: Parlamentares que utilizam seu mandato para negociar emendas em troca de propina devem ser processados e perder o cargo imediatamente.

Reforma política e financiamento eleitoral: Enquanto campanhas eleitorais dependerem de altos volumes de dinheiro, esquemas de corrupção continuarão sendo uma realidade.

A democracia brasileira enfrenta desafios profundos, mas a exposição desses casos e o avanço das investigações demonstram que ainda há mecanismos capazes de frear a impunidade. O caminho para um sistema político mais íntegro passa por um compromisso real com a transparência e pela punição rigorosa dos envolvidos em esquemas ilícitos.

Afinal, sem responsabilidade e fiscalização, os cofres públicos continuarão sendo um terreno fértil para a corrupção – e quem paga essa conta, como sempre, é o cidadão brasileiro.

1ª mulher presidente no STM: “Se chegarem denúncias sobre o 8 de janeiro, vamos julgá-las”


Voltar


Comente sobre essa publicação...

Uma resposta para “MPF recomenda processos contra 361 prefeitos, e STF foca deputados do PL”

  1. Eduardo disse:

    Quais os deputados?

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *