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Poder

PF rejeita delação de Daniel Vorcaro e endurece cerco ao esquema de corrupção

Todo mundo solta a mão de todo mundo: relação entre Flávio Bolsonaro e Ciro Nogueira azeda

Publicado em 22/05/2026 9:02 - Semana On

Divulgação Agência Senado

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A Polícia Federal decidiu rejeitar a proposta de delação premiada apresentada por Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master e apontado pelas autoridades como principal articulador do esquema de fraudes investigado pela Operação Compliance Zero. A avaliação dos investigadores é de que o material entregue pelo ex-banqueiro não trouxe elementos novos capazes de justificar os benefícios previstos em um acordo de colaboração.

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Embora a legislação permita a retomada das negociações, mediante apresentação de novos fatos ou provas relevantes, integrantes da investigação avaliam que o cenário para uma reversão é restrito. Nos bastidores, investigadores consideram improvável que Vorcaro consiga superar a resistência já consolidada dentro da PF.

As tratativas vinham sendo conduzidas simultaneamente com a Polícia Federal e com a Procuradoria-Geral da República. Segundo pessoas ligadas ao caso, um dos principais entraves foi o fato de Vorcaro não ter reconhecido, nos anexos entregues às autoridades, informações já identificadas em aparelhos celulares apreendidos durante as investigações.

Além da suposta omissão de fatos conhecidos pelos investigadores, pesa contra o banqueiro a avaliação de que ele não observou o requisito de boa-fé exigido em acordos de colaboração premiada. Integrantes da apuração sustentam que Vorcaro tentou relativizar ou justificar crimes atribuídos a ele, quando a legislação exige admissão integral dos ilícitos praticados e daqueles de que o colaborador tenha conhecimento.

A defesa ainda poderia tentar uma negociação direta com a Procuradoria-Geral da República, excluindo a PF da condução do acordo. Para isso, contudo, seria necessário convencer os procuradores da validade de informações anteriormente rejeitadas pela polícia, além de obter aval do ministro André Mendonça, relator do caso no Supremo Tribunal Federal.

Outro ponto de forte resistência envolve as condições financeiras propostas pelo ex-banqueiro. Vorcaro teria sugerido devolver cerca de R$ 40 bilhões ao longo de dez anos. O valor, no entanto, é considerado insuficiente tanto pela Polícia Federal quanto pela PGR. Os órgãos calculam que o montante desviado em fraudes relacionadas ao Banco Master pode chegar a R$ 60 bilhões e defendem um prazo significativamente menor para ressarcimento.

A rigidez nas negociações decorre também da posição atribuída a Vorcaro dentro da organização investigada. Para os órgãos de controle, ele exercia papel central no esquema, o que reduz a margem para concessões amplas em eventual acordo.

Os impactos financeiros da quebra do Banco Master já ultrapassariam R$ 57 bilhões, segundo dados divulgados pelas autoridades. Apenas os recursos que precisarão ser cobertos pelo Fundo Garantidor de Créditos (FGC) — mecanismo abastecido pelos próprios bancos para proteger correntistas e investidores — são estimados em R$ 51,8 bilhões. O prejuízo total, entretanto, ainda não foi integralmente calculado.

Vorcaro foi preso pela primeira vez em 17 de novembro do ano passado, no Aeroporto Internacional de Guarulhos, quando tentava embarcar para o exterior. A Polícia Federal sustentou que havia risco de fuga. A defesa alegou que a viagem tinha como objetivo reuniões com investidores interessados na aquisição do Banco Master.

Dez dias depois, ele obteve liberdade, mas voltou a ser preso em 4 de março, durante uma nova fase da Operação Compliance Zero, que também teve como alvo servidores do Banco Central. Atualmente, permanece detido na Superintendência da Polícia Federal no Distrito Federal.

Até recentemente, a estratégia da defesa descartava qualquer possibilidade de colaboração premiada. Segundo relatos de bastidores, Vorcaro insistia que conseguiria responder às acusações diretamente no mérito da ação penal, contestando as imputações relacionadas a fraudes financeiras e outros crimes investigados.

Nesta semana, a PF transferiu o banqueiro para uma cela comum na superintendência em Brasília. Até então, ele ocupava a cela anteriormente preparada para o ex-presidente Jair Bolsonaro, hoje em prisão domiciliar.

A rejeição da delação também alimentou interpretações políticas e jurídicas sobre os limites da colaboração premiada em casos de grande impacto financeiro e institucional. Críticos da proposta apresentada por Vorcaro sustentam que o ex-banqueiro teria tentado preservar aliados políticos, operadores financeiros e parte do patrimônio investigado, oferecendo uma colaboração considerada seletiva pelas autoridades.

Investigadores apontam que conexões identificadas em celulares apreendidos envolveriam interlocuções com figuras influentes do meio político e econômico, incluindo supostos repasses e pedidos de vantagens financeiras. Para integrantes da apuração, a recusa da Polícia Federal sinaliza resistência institucional a acordos percebidos como incompletos ou estrategicamente limitados.

A avaliação predominante entre investigadores é de que a colaboração apresentada não atendia ao princípio central da delação premiada: fornecer informações inéditas, detalhadas e verificáveis que ampliem o alcance das investigações e permitam responsabilizar outros envolvidos no esquema.

Relação entre Flávio e Ciro Nogueira azeda

No último dia 7, a PF cumpriu mandados de busca e apreensão contra o senador Ciro Nogueira (PP-PI), ex-ministro da Casa Civil do governo Jair Bolsonaro e uma das principais lideranças do Centrão. As suspeitas concentram-se na relação financeira entre o parlamentar e Felipe Vorcaro, primo do controlador do Banco Master.

Segundo a investigação, Felipe teria operacionalizado pagamentos periódicos destinados ao senador, inicialmente fixados em R$ 300 mil mensais e posteriormente elevados para R$ 500 mil. Os investigadores também apuram o custeio de despesas pessoais de Ciro Nogueira, incluindo deslocamentos em aeronaves privadas. Felipe Vorcaro acabou preso temporariamente durante a operação.

A Polícia Federal sustenta que os repasses estariam associados à atuação política em favor de interesses do banco no Congresso Nacional e em órgãos estratégicos da administração pública. O aprofundamento dessas linhas investigativas consolidou a percepção, dentro da PF, de que o esquema atribuído ao grupo extrapolava o sistema financeiro e buscava construir uma rede de proteção institucional.

A expansão das investigações atingiu também o núcleo familiar de Daniel Vorcaro. Em 14 de maio, Henrique Vorcaro, pai do empresário, foi preso em Belo Horizonte. Ele é apontado como integrante de um grupo conhecido como “A Turma”, descrito pela Polícia Federal como uma organização voltada à intimidação de adversários, obtenção clandestina de informações e invasões de dispositivos eletrônicos.

De acordo com os investigadores, o grupo teria sido utilizado para monitorar desafetos, pressionar agentes públicos e proteger interesses ligados ao Banco Master. A PF atribui à organização práticas de coerção e operações clandestinas destinadas a sustentar a estrutura de influência construída pelo banqueiro.

O avanço das apurações também produziu abalos políticos entre aliados historicamente próximos. Na semana passada, o senador Flávio Bolsonaro comentou publicamente o envolvimento de Ciro Nogueira no caso e afirmou que o parlamentar deveria responder às acusações, embora tenha dito esperar que sua inocência fosse comprovada.

Dias depois, Ciro adotou tom semelhante ao comentar as suspeitas envolvendo Flávio Bolsonaro. Em entrevista à TV Clube, afiliada da Globo no Piauí, o senador declarou que não cabia a ele defender ou acusar o aliado político, mas afirmou que qualquer pessoa investigada deve responder com isenção perante a lei. Acrescentou ainda que eventuais culpados deveriam sofrer punições severas.

As declarações evidenciaram um distanciamento gradual entre personagens atingidos pela mesma investigação. Nos bastidores políticos de Brasília, interlocutores avaliam que o caso Master começou a corroer alianças antes consideradas sólidas dentro do campo conservador.

O nome de Flávio Bolsonaro passou a enfrentar maior desgaste após a revelação de mensagens e áudios atribuídos a negociações financeiras envolvendo Daniel Vorcaro. Já Ciro Nogueira passou a ser pressionado pelas suspeitas de recebimento sistemático de valores supostamente vinculados à atuação parlamentar favorável aos interesses do grupo econômico.

Para investigadores, os elementos reunidos até agora — incluindo registros financeiros, mensagens, planilhas e diálogos apreendidos — indicam a existência de uma engrenagem política construída para ampliar influência institucional, neutralizar fiscalizações e preservar a operação financeira do Banco Master mesmo diante de sinais crescentes de colapso.

O caso passou, assim, a transcender a esfera criminal e financeira, atingindo diretamente o ambiente político de Brasília. A avaliação de integrantes da investigação é que a rede de relações estabelecida por Vorcaro ajudou a criar mecanismos de proteção informal em diferentes esferas de poder, combinando interesses empresariais, conexões políticas e influência sobre setores estratégicos do Estado.

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