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Poder
Em ano eleitoral, Nikolas e extremistas caminham menos por Bolsonaro e mais por si mesmo
Publicado em 23/01/2026 3:25 - Semana On
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A chamada “Caminhada pela Justiça e Liberdade”, liderada por Nikolas Ferreira (PL-MG), diz menos sobre qualquer tentativa concreta de pressionar o Judiciário e muito mais sobre a engrenagem eleitoral da extrema direita em tempos de redes sociais. Na prática, trata-se de uma operação de visibilidade cuidadosamente encenada, com pouco ou nenhum efeito institucional e alto rendimento simbólico junto ao eleitorado fiel.
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Não há mistério: o Supremo Tribunal Federal (STF) não decide prisões por aclamação em acostamento de rodovia. Ainda assim, o deputado insiste no gesto épico — não porque acredite em seus efeitos jurídicos, mas porque conhece bem o funcionamento do algoritmo. Em ano eleitoral, Nikolas caminha menos por Jair Bolsonaro e muito mais por si mesmo. A prisão domiciliar do ex-presidente é um detalhe secundário; o objetivo central é manter sua imagem em circulação permanente, turbinando engajamento e reafirmando vínculos com sua base.
A marcha começou em Paracatu (MG), percorre cerca de 240 quilômetros até Brasília e, nos primeiros dias, reunia pouco mais de 20 pessoas. No entanto, como toda boa narrativa épica contemporânea, o roteiro ganhou reforços estratégicos: carros de apoio, helicópteros, escolta policial, atendimento fisioterapêutico improvisado em restaurantes de estrada e uma abundância alimentar que faria corar qualquer romeiro medieval. Houve até picanha — devidamente politizada.
Relatos de participantes descrevem um ambiente de solidariedade seletiva. Moradores da BR-040 e apoiadores vindos de outras cidades distribuíram água, isotônicos, roupas secas, shampoo e palavras de incentivo. Em vídeos nas redes, famílias aguardam os caminhantes com mesas improvisadas de doces e refeições gratuitas, enquanto influenciadores perguntam, em tom teatral, quem estaria financiando a empreitada. A resposta, invariavelmente, é “Jesus” — solução metafísica conveniente para questões logísticas bem resolvidas.
O apoio do agronegócio aparece sem rodeios. Fazendeiros recepcionam o grupo com máquinas agrícolas perfiladas, bandeiras do Brasil, fogos de artifício e caixas de som entoando o hino nacional. Um churrasco patrocinado por empresários goianos virou conteúdo de rede social, com destaque para peças de picanha adesivadas com imagens de Bolsonaro e de Flavio Bolsonaro, tratado por aliados como presidenciável em estado embrionário.
Enquanto isso, Nikolas reafirma sua persona messiânica digital. Em vídeos noturnos, relata dores no joelho e nos pés, atribui a missão a um chamado divino antigo e promete “a maior caminhada da história do país”. O vocabulário é conhecido, a encenação também: sacrifício físico, fé, patriotismo e um inimigo difuso — o sistema, o STF, a democracia que não se submete a cliques.
A adesão de políticos do PL ao longo do trajeto reforça o caráter performático da ação. Deputados e pré-candidatos se revezam no percurso, discursam sobre “resgate do Brasil” e tratam a caminhada como prólogo de uma jornada política maior. Não por acaso, todos falam para as câmeras, não para os ministros do Supremo.
A presença de políticos de Mato Grosso do Sul acrescenta um elemento quase folclórico à caminhada, funcionando como prova material de que o ato é menos peregrinação cívica e mais convenção itinerante do PL. A adesão escalonada de figuras como Capitão Contar, Rodolfo Nogueira, Ana Portela, João Henrique Catan e Marcos Pollon transforma a marcha em vitrine de alinhamento ideológico e oportunismo eleitoral.
O que se vê é a disputa silenciosa por espaço no enquadramento das câmeras, na foto compartilhável e no vídeo curto para redes sociais. A caminhada vira, assim, um desfile de fidelidade bolsonarista, no qual cada quilômetro percorrido rende dividendos simbólicos e cada discurso reforça a retórica de “justiça e liberdade” — conceitos suficientemente vagos para acomodar ambições pessoais bem concretas. Em vez de pressão institucional, o grupo oferece engajamento coordenado; em vez de proposta política, entrega pertencimento tribal. É a política reduzida à estética da resistência, com sotaque regional e ambição nacional.
O contraste entre a realidade e a propaganda, aliás, precisou de correção factual. Circulou nas redes uma imagem que mostraria Nikolas à frente de uma multidão ao lado de outros parlamentares. A cena, no entanto, foi desmontada por checagem independente: tratava-se de conteúdo gerado por inteligência artificial, com probabilidade de 99,9%. Cartazes com frases ininteligíveis denunciaram o truque — uma metáfora involuntária da própria caminhada.
No fim das contas, a romaria não ameaça decisões judiciais nem altera correlações institucionais. Serve, isso sim, como laboratório de mobilização digital e como vitrine para um deputado que compreendeu cedo que, na política contemporânea, não é preciso convencer tribunais — basta manter a audiência fiel, alimentada a fé, carne e conteúdo viral.
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