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STF impõe vigilância integral a Bolsonaro diante de risco de fuga

Publicado em 27/08/2025 8:57 - Semana On

Divulgação Semana On - IA

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O ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), determinou ontem (26) o monitoramento contínuo do ex-presidente Jair Bolsonaro, que cumpre prisão domiciliar em Brasília. A medida, a ser executada pela Polícia Penal do Distrito Federal, visa prevenir um possível plano de fuga, motivado principalmente pela atuação do deputado federal licenciado Eduardo Bolsonaro (PL-SP) nos Estados Unidos.

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A decisão surge em um momento decisivo: o julgamento de Bolsonaro no processo em que é acusado de articular uma tentativa de golpe de Estado está marcado para começar em 2 de setembro. Moraes não economizou nas palavras: destacou que a movimentação internacional de Eduardo Bolsonaro — que teria buscado apoio de autoridades americanas para interferir no processo judicial brasileiro — representa “possibilidade de um risco de fuga por parte de Jair Messias Bolsonaro, de modo a se furtar da aplicação da lei penal”.

A medida foi reforçada após ofício enviado pelo deputado Lindbergh Farias (PT-RJ), líder do PT na Câmara, à Polícia Federal. Farias alegou possuir “informações seguras” de que o ex-presidente cogitava pedir asilo à Embaixada dos Estados Unidos, localizada a poucos quilômetros de sua residência. A Procuradoria-Geral da República (PGR) endossou o pedido do parlamentar e recomendou o monitoramento integral.

Além disso, segundo investigações da PF, um pedido de asilo à Argentina foi encontrado em celular apreendido com Bolsonaro, reforçando a tese de fuga iminente. Moraes também destacou a proximidade do julgamento e a reincidência no descumprimento de medidas cautelares como agravantes da situação do ex-presidente.

Vigilância substitui prisão preventiva e preserva imagem do Judiciário

A vigilância permanente aparece, neste momento, como uma alternativa à prisão preventiva. Embora a PGR ainda precise se manifestar formalmente sobre o suposto descumprimento das medidas impostas a Bolsonaro — o prazo vence nesta quarta-feira (27) —, a escolha por um monitoramento intensificado sinaliza uma estratégia jurídica cuidadosa por parte do STF. Com isso, evita-se a narrativa de perseguição judicial antes do julgamento e garante-se a presença do réu no processo.

Na prática, a decisão protege a integridade do processo penal sem antecipar a pena. Como observou o jornalista Josias de Souza em análise publicada no UOL, a medida “esvazia a hipótese de prisão preventiva” e, paradoxalmente, acaba preservando Bolsonaro de uma medida mais grave, ainda que sob vigilância constante. “Confirmando-se o descarte da hipótese de prisão preventiva, a ação de Lindbergh terá contribuído com Bolsonaro”, pontua o colunista.

Centrão se distancia e prepara sucessão sem Bolsonaro

O isolamento político de Bolsonaro se intensifica à medida que avança o processo judicial. O Centrão, outrora fiel aliado, já articula abertamente alternativas à candidatura presidencial de 2026. O nome de Tarcísio de Freitas (Republicanos), atual governador de São Paulo, desponta como principal herdeiro do espólio bolsonarista.

A movimentação incomoda a família Bolsonaro. Carlos e Eduardo passaram a criticar publicamente a articulação em torno de Tarcísio, acusando os antigos aliados de oportunismo e deslealdade. Eduardo Bolsonaro teria chamado a iniciativa de “chantagem” e alertado que os aliados desejam “limar” o pai da sucessão em troca de um futuro indulto. Carlos, por sua vez, referiu-se aos antigos companheiros políticos como “ratos”.

Ainda assim, o Centrão não recua. A avaliação pragmática é que Bolsonaro tornou-se um passivo eleitoral. O grupo político que o sustentou no poder agora busca um novo nome capaz de manter a retórica conservadora e o discurso antipetista, mas sem os riscos jurídicos que o ex-presidente representa.

O cerco jurídico se fecha

Desde 5 de agosto, Bolsonaro cumpre prisão domiciliar por decisão de Moraes. O ministro do STF apontou violação deliberada de medidas cautelares, como a proibição de uso das redes sociais, inclusive por meio de terceiros. As redes continuaram ativas, com postagens de teor político e ataques indiretos ao Judiciário, o que motivou nova apreensão de celulares e dispositivos eletrônicos.

Segundo Moraes, “a Justiça não permitirá que um réu a faça de tola, achando que ficará impune por ter poder político e econômico”. A decisão reflete o endurecimento da Corte diante do comportamento do ex-presidente, que, mesmo réu, mantém discurso desafiador.

Além do processo sobre a tentativa de golpe, Bolsonaro e Eduardo agora são investigados também por coação no curso do processo, após o envolvimento do deputado nos contatos com autoridades estrangeiras. Moraes concedeu à PGR o prazo de cinco dias para decidir se oferece denúncia formal contra os dois no âmbito desse novo inquérito.

Um capítulo decisivo para a democracia brasileira

O episódio revela não apenas a gravidade das acusações contra Bolsonaro, mas também a robustez institucional do STF diante das tentativas de deslegitimação e fuga. O monitoramento integral é uma resposta dura, mas proporcional à complexidade do caso: envolve articulação internacional, violação de medidas judiciais, risco de evasão do país e ameaça à estabilidade democrática.

Resta saber se o Judiciário conseguirá manter o equilíbrio entre firmeza e legalidade até a conclusão do julgamento. E se o sistema político, hoje em fase de reacomodação, resistirá à tentação de se alinhar novamente com o populismo que ajudou a criar — e que agora tenta enterrar discretamente.

Brasil rejeita pressão dos EUA

O ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, afirmou ontem (26) que o Brasil não aceitará qualquer negociação com os Estados Unidos que implique interferência judicial ou ameaça à soberania nacional. A declaração foi feita durante o evento O Novo Cenário Global e o Papel do Setor Privado nas Relações Brasil-EUA, promovido pela Fiesp, que reuniu representantes de grandes empresas como Boeing, Salesforce, AWS, JBS e Embraer.

A fala do chanceler ocorre em meio ao aumento significativo de tensões diplomáticas após o governo norte-americano impor uma tarifa de 50% sobre diversos produtos brasileiros — medida sem precedentes nos 201 anos de relações diplomáticas formais entre os dois países.

Vieira foi direto ao vincular o tarifário à situação judicial do ex-presidente Jair Bolsonaro, atualmente em prisão domiciliar e prestes a ser julgado por tentativa de golpe de Estado. Segundo o ministro, “trata-se de medida expressamente adotada por razões políticas relacionadas com o processo envolvendo o ex-presidente da República e seus principais assessores por tentativa de abolição violenta do Estado Democrático de Direito”.

De forma enfática, o chanceler destacou que o tema é “interno e soberano do Brasil”, conduzido pelo Judiciário, e que “não há possibilidade de qualquer interferência por parte do Poder Executivo” — um recado claro tanto para Washington quanto para setores da política brasileira que vêm sugerindo algum tipo de acomodação diplomática em nome da estabilidade comercial.

Itamaraty articula reação com aliados e defende reforma da OMC

Ao mesmo tempo em que reiterou o compromisso com a defesa das instituições nacionais, Vieira sinalizou que o governo brasileiro não ficará isolado na disputa. O país já iniciou articulações com outros países afetados pelas tarifas norte-americanas, numa tentativa de formar um bloco de resistência à decisão da Casa Branca.

“O presidente Lula manteve, apenas nas últimas duas semanas, contatos com líderes da Índia, da China, do México e da França, dentre outros países”, disse o chanceler, em clara demonstração de que o Brasil pretende elevar o tom nas instâncias multilaterais e ampliar o custo político da medida imposta por Washington.

Entre os desdobramentos dessa postura, o governo brasileiro pretende impulsionar uma ampla discussão sobre a reforma da Organização Mundial do Comércio (OMC), visando uma estrutura mais moderna e flexível para lidar com disputas tarifárias e abusos unilaterais. Segundo Vieira, a meta é promover “uma verdadeira refundação do organismo”, o que sinaliza um reposicionamento mais ativo do Brasil no cenário global.

Separar política de comércio: o recado a Washington

Apesar do endurecimento do tom, Vieira deixou claro que o Brasil não pretende romper os canais de diálogo com os Estados Unidos. Ao contrário, afirmou que o Itamaraty continuará defendendo o que chamou de “único caminho possível” para a superação do impasse atual: a separação clara entre interesses políticos e relações comerciais.

“Seguiremos insistindo na necessidade de separarmos questões comerciais das questões políticas. Esse é o único caminho possível para que a situação presente possa encontrar solução satisfatória”, disse o ministro.

O posicionamento do governo brasileiro reflete o esforço por manter autonomia diplomática em meio a pressões externas, ao mesmo tempo em que busca preservar o comércio exterior, responsável por mais de US$ 35 bilhões em exportações brasileiras para os EUA em 2024, segundo dados da Secretaria de Comércio Exterior.

Lula reage ao tarifaço dos EUA e diz que Brasil não será “subalterno”


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