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Poder
Presidente disse que Brasil não aceita imperadores e chamou Eduardo Bolsonaro de traidor da pátria
Publicado em 26/08/2025 11:56 - Semana On
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Em resposta direta ao novo pacote de tarifas anunciado pelos Estados Unidos, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) endureceu o tom e deixou claro que o Brasil não aceitará imposições unilaterais da Casa Branca. Em reunião com todo o primeiro escalão do governo, Lula afirmou que o país não será tratado como “subalterno” e apontou o ex-presidente Donald Trump e o deputado Eduardo Bolsonaro (PL-SP) como articuladores das sanções, classificando a atuação da família Bolsonaro como “traição à pátria”.
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“Estamos dispostos a sentar na mesa em igualdade de condições. O que não estamos dispostos é sermos tratados como se fôssemos subalternos. Isso, nós não aceitamos de ninguém”, disse Lula, em referência ao tarifaço imposto por Trump — uma medida que impacta diretamente setores estratégicos da indústria brasileira, como o aço e o alumínio.
A declaração ocorre dias após o governo norte-americano anunciar um aumento de tarifas sobre produtos brasileiros, sob alegação de “proteção à indústria nacional” — argumento que analistas veem como parte da retórica eleitoral de Trump, que tenta mobilizar sua base protecionista às vésperas das eleições presidenciais de novembro.
Lula não poupou críticas ao ex-presidente republicano, a quem chamou de “imperador do mundo”. Com tom irônico, disparou: “Se a gente gostasse de imperador, a gente não tinha acabado o império. Se a gente gostasse de imperador, o Brasil ainda seria monarquia”. A fala, que arrancou risos da plateia, foi acompanhada de um gesto simbólico: todos os ministros usavam bonés com os dizeres “O Brasil é dos brasileiros”, em uma tentativa clara de reforçar o apelo nacionalista e a retórica de soberania.
A crítica mais dura, no entanto, foi dirigida à família Bolsonaro, em especial a Eduardo Bolsonaro, apontado por integrantes do Planalto como elo direto entre o trumpismo e os ataques à democracia brasileira. “Não existe nada que possa ser mais grave do que uma família inteira ter um filho — um cidadão que já deveria ter sido expulso da Câmara dos Deputados — insuflando, com mentiras e com hipocrisia, outro Estado contra o Estado Nacional do Brasil”, acusou Lula.
Segundo fontes do Itamaraty, o governo brasileiro considera as recentes tarifas como uma “retaliação política” e avalia recorrer à Organização Mundial do Comércio (OMC), embora diplomatas reconheçam que o trâmite é lento e de resultado incerto, sobretudo diante da paralisia da instância de apelação da entidade, travada por veto dos próprios Estados Unidos desde o governo Trump.
De acordo com levantamento do Instituto Aço Brasil, o país exportou mais de 3,5 milhões de toneladas de aço para os EUA em 2024, sendo o segundo maior destino do produto nacional. Com o novo pacote de tarifas, estima-se que a indústria brasileira pode perder até US$ 1 bilhão em receitas anuais.
Para o cientista político Guilherme Casarões, professor da Fundação Getulio Vargas (FGV), o gesto de Lula busca recolocar o Brasil no centro de uma agenda externa soberana, mas sem romper com os Estados Unidos. “Lula tenta equilibrar o jogo: critica o imperialismo de Trump, mas não fecha a porta para o diálogo com outros atores relevantes da política norte-americana, como democratas e setores empresariais”, analisa.
Já para a historiadora Lilia Schwarcz, o discurso do presidente é também uma resposta ao avanço da extrema direita no continente. “Lula entende que a soberania não se garante apenas com tarifas e tratados, mas com narrativa política. Ele tenta construir uma contra-narrativa ao bolsonarismo, que internacionalizou suas alianças em detrimento dos interesses nacionais”, afirmou em entrevista ao El País (24 ago. 2025).
Nos bastidores, o Planalto avalia que Eduardo Bolsonaro tem usado sua estadia nos EUA para pressionar pela anistia dos envolvidos nos ataques golpistas de 8 de janeiro, mobilizando parlamentares ultraconservadores norte-americanos e explorando as tarifas como forma de chantagem indireta. A estratégia, segundo fontes do STF, busca deslegitimar o julgamento de Jair Bolsonaro, que enfrenta acusações de tentativa de golpe e ataque ao sistema eleitoral.
O tom adotado por Lula sinaliza que o governo está disposto a endurecer no campo diplomático, mas também a fortalecer a frente interna contra aquilo que considera ameaças à democracia. Resta saber se, diante da ofensiva tarifária e do calendário eleitoral norte-americano, haverá espaço real para negociação.
PGR avalia endurecer contra Eduardo Bolsonaro, mas adota cautela com Jair
A Procuradoria-Geral da República (PGR) deve adotar pesos diferentes ao lidar com Eduardo e Jair Bolsonaro nas ações penais em curso sobre a tentativa de golpe de Estado. Com base no relatório final da Polícia Federal, já entregue ao órgão, há margem para uma denúncia mais dura contra o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP), acusado de atuar de forma ativa para interferir em processos judiciais e articular ações com aliados do ex-presidente norte-americano Donald Trump. Já em relação ao ex-presidente Jair Bolsonaro, a PGR tende a manter uma linha de cautela, diante da fragilidade das provas diretas de envolvimento.
Segundo Raquel Scalcon, professora de Direito Penal da FGV, o material reunido contra Eduardo Bolsonaro é “mais robusto” do que o que envolve o pai. “Ali fica muito claro e evidente todo o esforço que ele está fazendo para interferir na ação penal do pai”, avaliou em entrevista. A atuação do deputado nos Estados Unidos incluiu ataques ao ministro Alexandre de Moraes, lobby com autoridades do governo Trump e articulações que, segundo a PF, visavam pressionar o Supremo Tribunal Federal. “É possível que o Procurador-Geral venha com uma denúncia ao STF, ao menos por coação no curso do processo”, completou Scalcon.
O relatório da Polícia Federal aponta que Eduardo expressou reiteradamente, em mensagens de texto, críticas ao ministro Moraes e ao governador Tarcísio de Freitas, além de relatar suas ações nos Estados Unidos ao pai, com tom de intimidade e confiança. Jair Bolsonaro, por outro lado, não deixou rastros diretos em mensagens: optou por responder com áudios que a PF não conseguiu recuperar, ou solicitou ligações telefônicas cujos conteúdos não foram registrados. “Se você olha estritamente para as mensagens, o que você tem contra Jair Bolsonaro é, no máximo, um consentimento. Não há uma atuação ativa registrada”, destaca uma fonte com acesso ao relatório.
A avaliação dentro da PGR, liderada por Paulo Gonet, é que há espaço para diferenciar juridicamente os papéis de pai e filho. Jair Bolsonaro, já em prisão domiciliar, não apresenta, segundo o órgão, novos elementos que justifiquem agravamento de sua situação. “Tenho uma opinião cautelosa. Não vi motivos para mudar a situação de Jair Bolsonaro. O que consta no relatório da PF são questões anteriores à prisão domiciliar”, afirmou Scalcon.
Em relação a Eduardo Bolsonaro, a situação é mais complexa — e diplomática. Residente nos Estados Unidos, o deputado pode ter a prisão decretada, mas a efetivação da medida dependeria de um processo de cooperação internacional, considerado improvável no cenário atual. “Nenhum país pode simplesmente invadir outro e prender alguém porque tem uma ordem judicial. É necessária cooperação do país. No cenário dos EUA, não me parece minimamente plausível”, explicou Scalcon.
Apesar da gravidade dos indícios, decisões mais intensas — como um pedido de prisão preventiva ou medidas cautelares — devem ser evitadas, ao menos neste momento. “O julgamento da trama golpista já vai esquentar relações políticas. Acredito que uma denúncia é provável, agora não tão jurídica, mas política, nas próximas semanas”, afirmou a jurista.
Outro fator importante é a elegibilidade do deputado. Mesmo com uma eventual denúncia, Eduardo Bolsonaro continua apto a disputar eleições. A Lei da Ficha Limpa só impede candidaturas após condenação em segunda instância. “Formalmente ainda seria possível uma candidatura”, explicou Scalcon.
Essa diferença de tratamento jurídico pode gerar novas tensões entre os aliados bolsonaristas e o Judiciário. Ao mesmo tempo, reforça a linha de atuação de Paulo Gonet, marcada até agora por cautela e tecnicismo, evitando ações espetaculares e apostando em processos sólidos e com base probatória consistente.
Nos bastidores, a leitura é de que Eduardo Bolsonaro se tornou um foco central de instabilidade, articulando pressões externas contra decisões internas e ultrapassando a fronteira entre atuação parlamentar e interferência direta em ações penais. A resposta da PGR a essa conduta servirá como termômetro da disposição do Estado brasileiro em lidar com tentativas de erosão institucional feitas por seus próprios representantes — ainda que fora de suas fronteiras.
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