Entre em nosso grupo
2
19.485.790/0001-70
Poder
A crise da ultradireita sob a sombra de Trump e a fragilidade do bolsonarismo
Publicado em 14/07/2025 11:20 - Semana On
Clique aqui e contribua para um jornalismo livre e financiado pelos seus próprios leitores.
De promessa de renovação conservadora a símbolo da desorientação política, Tarcísio de Freitas encarna a tragédia de uma direita brasileira presa entre o delírio autoritário do bolsonarismo e a exigência democrática de civilidade. Sua tentativa fracassada de liderar esse campo revelou não apenas a falência de um projeto político, mas a dificuldade estrutural de uma elite conservadora em abandonar seus fantasmas ideológicos — mesmo diante do risco de isolamento e irrelevância.
CLIQUE PARA SEGUIR A SEMANA ON NO INSTAGRAM, NO FACEBOOK E NO WHATSAPP
No início de sua trajetória política, Tarcísio de Freitas parecia ter a fórmula perfeita para a direita brasileira pós-Bolsonaro: técnico, discreto, militar de formação, com trânsito entre o empresariado e aceitação no bolsonarismo moderado. Era visto como a figura ideal para manter o capital simbólico do conservadorismo sem os excessos do autoritarismo. Mas em 2025, como resumiu com ironia o jornalista Reinaldo Azevedo, Tarcísio tornou-se o “I-Juca Pirama da política brasileira” — um guerreiro sem tribo, rejeitado pelos extremos que tentou unir.
Essa derrocada não se limita ao fracasso pessoal do governador de São Paulo. Trata-se da metáfora perfeita da crise de um campo político inteiro, que oscila entre o desejo de respeitabilidade institucional e a lealdade a um líder que despreza o Estado democrático de direito. Como já advertia o sociólogo Max Weber, “a ética da responsabilidade exige previsibilidade e consequência” — duas qualidades ausentes na conduta errática da atual direita.
Entre Trump, Bolsonaro e o interesse nacional
O episódio que cristalizou o colapso político de Tarcísio foi sua resposta às ameaças tarifárias feitas por Donald Trump, recém-eleito para um novo mandato nos Estados Unidos. Em vez de defender os interesses econômicos brasileiros — muitos deles afetando diretamente o agronegócio paulista —, o governador atacou Lula, culpando-o por uma crise que tem origem na aliança do trumpismo com o bolsonarismo.
Na tentativa de proteger Bolsonaro, que é investigado pela Justiça brasileira e alvo da carta de Trump, Tarcísio chegou a propor ao STF a devolução do passaporte do ex-presidente para que ele “negociasse diretamente” com o governo americano. A ideia beira o surrealismo institucional. Para o jurista Oscar Vilhena Vieira, da FGV-SP, “a ideia de um governador interferir diretamente em decisões judiciais ou em relações exteriores é juridicamente insustentável e institucionalmente temerária”.
A reação do empresariado foi imediata — e negativa. A expectativa de que Tarcísio fosse o fiador do equilíbrio e da previsibilidade deu lugar à decepção com sua subserviência ideológica. “Esse é o líder em quem apostamos?”, circulou nos bastidores das entidades empresariais, segundo apuração do jornal O Globo.
“Até ontem, certos capitalistas do país achavam normal fazer pouco de uma trama golpista. Fingiam aceitar, contra todas as evidencias e provas, a tese segundo a qual nunca existiu uma trama golpista. Agora, este pedaço troglodita do empresariado está atrás de um novo sentimento de tribo. Estavam até ontem aferrados a uma tribo primitiva. Agora estão perplexos e migrando para a tribo dos ultrajados, diante da perspectiva de prejuízos. No mundo empresarial toda ideologia deve estar amarrada ao balanço financeiro”, sintetizou o jornalista Josias de Souza (UOL).
O bolsonarismo como culto, não como política
Se os moderados já se afastaram, o núcleo duro bolsonarista também não perdoa. A base ideológica mais radical, que exige anistia para os golpistas de 8 de janeiro, revogação de processos judiciais e hostilidade explícita ao STF — especialmente ao ministro Alexandre de Moraes —, viu no gesto de Tarcísio uma tentativa de contornar suas pautas centrais. Para esse grupo, ceder é trair. Negociar é capitular.
Essa lógica remete à visão de mundo de Carl Schmitt, teórico do decisionismo e da política como guerra, influência direta das novas extremas-direitas. Para Schmitt, a política não é negociação entre adversários, mas enfrentamento entre inimigos. Aplicada ao bolsonarismo, essa doutrina transforma qualquer aceno à institucionalidade em “fraqueza”, e qualquer compromisso democrático em traição.
A luta por uma direita sem Bolsonaro
Nos bastidores, o que se disputa é a liderança do campo conservador. Tarcísio representa o setor do “dinheiro graúdo” — empresários e elites que desejam um conservadorismo ordeiro, higienizado, sem os arroubos golpistas, mas com o discurso antipetista e os valores morais tradicionais. Porém, como observa Reinaldo Azevedo, “os Bolsonaros não parecem dispostos a ceder o comando da direita”. Para a família, a fidelidade à figura do patriarca é inegociável.
Esse conflito repete um fenômeno global. Nos EUA, o Partido Republicano foi capturado pelo trumpismo, expulsando ou silenciando vozes moderadas. Na Hungria, Viktor Orbán transformou o conservadorismo liberal num nacionalismo iliberal. No Brasil, o bolsonarismo sufoca qualquer tentativa de reconstrução democrática da direita.
O editorial do Estadão e o espelho rachado
Em editorial, o jornal O Estado de S. Paulo foi contundente ao denunciar o comportamento de Tarcísio, Zema e Caiado como “ultrajante” diante dos ataques de Trump ao Brasil. Ao acusar Lula pelas sanções americanas, os três governadores, segundo o jornal, demonstraram “miséria moral e intelectual” e reafirmaram sua submissão a um projeto “retrógrado, personalista e francamente antinacional”.
A crítica é contundente: “Não é possível defender o Estado Democrático de Direito e, ao mesmo tempo, louvar e defender um ex-presidente que incitou ataques às urnas eletrônicas, ameaçou as instituições republicanas e sabotou políticas de saúde pública”. Para o jornal, associar-se a Bolsonaro é trair os interesses do país.
Mesmo após essa sucessão de reveses, Tarcísio insiste em seu projeto presidencial. Sua aposta: apresentar-se como um “consenso possível” entre os polos ideológicos. Uma espécie de “extremismo de centro”, como ironiza Azevedo — uma figura que pretende representar ao mesmo tempo a ordem institucional e a base ideológica que deseja destruí-la.
Mas, como já demonstrou a experiência recente no Brasil e no mundo, não há centro possível onde se tolera o autoritarismo. Como nos lembra o filósofo Karl Popper, em A Sociedade Aberta e Seus Inimigos (1945), “devemos reivindicar, em nome da tolerância, o direito de não tolerar os intolerantes”. A convivência democrática exige limites, especialmente quando ameaçada por projetos que desprezam a própria ideia de democracia.
Um espelho quebrado
Tarcísio, hoje, é um espelho quebrado de uma direita que não sabe quem é. Seu fracasso é pedagógico. Mostra que não é possível construir um projeto político sustentável sem valores democráticos claros, sem compromisso real com a soberania nacional, e sem coragem para romper com um passado que ameaça o futuro.
A direita brasileira precisa escolher: ser parte do jogo democrático ou continuar orbitando em torno de um líder condenado pela história. Enquanto isso não acontecer, qualquer tentativa de renovação será apenas mais um capítulo na crônica de uma decadência anunciada.
Dando ruim para Eduardo
O anúncio do ex-presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de uma tarifa de 50% sobre produtos brasileiros, sob a alegação de que Jair Bolsonaro é alvo de uma “caça às bruxas”, teve efeitos mais simbólicos do que práticos na economia até o momento. No entanto, suas reverberações políticas atingem diretamente o núcleo bolsonarista — especialmente o deputado licenciado Eduardo Bolsonaro (PL-SP), que vê sua atuação nos bastidores da política norte-americana se transformar em possível prova de obstrução de justiça e ataque ao Estado de Direito.
Enquanto o ex-presidente Jair Bolsonaro enfrenta um processo que já caminha com cronograma estabelecido no STF, analistas políticos, ministros da corte e operadores do direito apontam que a movimentação recente de seu filho pode ter implicações mais graves no inquérito que apura uma tentativa golpista e outras infrações constitucionais. A ironia histórica é contundente: ao buscar reforço externo para defender o pai, Eduardo pode ter selado um agravamento de sua própria situação jurídica.
A carta que virou evidência
Em carta assinada com o ex-apresentador Paulo Figueiredo — também réu por envolvimento na tentativa de golpe — e divulgada no mesmo dia do tarifaço de Trump, Eduardo Bolsonaro não apenas comemorou a medida, mas a vinculou diretamente a seu esforço de articulação com autoridades americanas. O documento afirma que a sanção imposta por Trump seria fruto de um “intenso diálogo” com integrantes do governo republicano, no qual o parlamentar teria “apresentado, com precisão e documentos, a realidade que o Brasil vive hoje”.
Mais do que retórica política, o conteúdo da carta pode ter se tornado material probatório. O ministro Alexandre de Moraes, relator de inquéritos que envolvem a tentativa de subversão da ordem constitucional, já havia incluído no processo um vídeo postado por Eduardo como indício de sua persistente interferência nas investigações. A carta apenas reforça essa linha de apuração: atuação junto a governo estrangeiro contra membros do STF, da PGR e da Polícia Federal.
A Procuradoria-Geral da República, sob comando de Paulo Gonet, considera que Eduardo pode ter cometido crimes de obstrução de justiça, coação no curso do processo e até abolição violenta do Estado democrático de Direito, ao tentar deslegitimar instituições brasileiras em instâncias internacionais. Moraes prorrogou por mais 60 dias o inquérito contra o deputado, ampliando o prazo para a PF aprofundar diligências.
O impacto político do tarifaço
O contexto geopolítico dessa movimentação não pode ser ignorado. Historicamente, o Brasil mantém uma diplomacia de Estado pautada pelo princípio da não intervenção e da resolução pacífica dos conflitos. O uso de um ator estrangeiro para pressionar a Suprema Corte brasileira representa uma inversão preocupante desse princípio.
A relação de Bolsonaro e sua base com Trump remonta à ascensão da nova direita global, inspirada em modelos de populismo autoritário, desinformação digital e confrontação institucional. Como alerta o cientista político Yascha Mounk, autor de O Povo contra a Democracia (Companhia das Letras, 2019), “o populismo moderno busca legitimar-se não pela mediação democrática, mas pelo apelo direto à ‘vontade do povo’, frequentemente manipulada por lideranças carismáticas e estratégias internacionais de desestabilização”.
Ao justificar a tarifa como resposta à “censura” imposta por Alexandre de Moraes e à “perseguição” a Bolsonaro, Trump ecoa as exatas narrativas promovidas por Eduardo e setores da extrema direita brasileira. Mais do que coincidência, trata-se de uma simbiose política e ideológica que pode colocar em risco a soberania institucional do país.
A estratégia de chantagem diplomática
Em um lance que provocou perplexidade até entre aliados, Eduardo chegou a vincular publicamente a suspensão das tarifas a uma “anistia ampla, geral e irrestrita” — um conceito político típico da transição democrática pós-ditadura, agora resgatado de forma oportunista para tentar impedir responsabilizações judiciais. A proposta foi divulgada horas após o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, defender uma “negociação” com autoridades norte-americanas, o que também gerou forte reação interna no bolsonarismo.
Para o núcleo duro liderado por Eduardo, não há espaço para diálogo sem a completa absolvição dos aliados, o que inclui, conforme expressaram em redes sociais, a “punição aos ministros do STF”, especialmente Alexandre de Moraes. Esse nível de exigência revela que a ala radical da direita brasileira está menos interessada em soluções políticas e mais comprometida com um projeto de revanche institucional.
Uma aposta que pode sair pela culatra
Nos bastidores do STF, a leitura majoritária é de que a pressão internacional poderá provocar efeito contrário ao desejado. Um ministro ouvido sob reserva afirmou que a declaração de Trump e a articulação de Eduardo apenas “aumentam a antipatia” dentro da Corte, reforçando a percepção de tentativa de intimidação. Outros membros do tribunal avaliam que, embora a declaração de Trump tenha natureza política, ela pode acabar endurecendo a posição dos magistrados.
O presidente do STF, Luís Roberto Barroso, atuou rapidamente para conter os danos institucionais: ligou para o presidente Lula e, no dia seguinte, conversou com o ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira. Ambos concordaram que a resposta brasileira deve ocorrer pelas vias diplomáticas e institucionais — um gesto que reafirma a importância da separação entre política externa e política interna, um dos pilares do republicanismo.
O esvaziamento do bolsonarismo internacional
A tentativa de Eduardo Bolsonaro de converter sanções externas em instrumento de autoproteção interna revela um paradoxo: ao tentar internacionalizar a crise institucional brasileira, ele também torna mais visível a atuação antidemocrática de seu grupo. O conceito de “lawfare”, que vem sendo apropriado pela direita como se fosse um monopólio de perseguição judicial, perde força quando os próprios agentes promovem retaliações extrajudiciais a autoridades legítimas.
Como escreveu o filósofo francês Pierre Rosanvallon em A Contrademocracia, a democracia moderna se sustenta tanto na eleição dos representantes quanto na vigilância das instituições. Quando essa vigilância é capturada por interesses pessoais e familiares, o risco de erosão democrática se acentua.
Se os cálculos de Eduardo eram de que um tarifaço estrangeiro poderia funcionar como escudo contra as ações do STF, o resultado pode ser o oposto: evidências reforçadas, inquérito prorrogado e imagem política ainda mais desgastada — tanto no Brasil quanto no exterior.
Resposta didática
O ministro Luís Roberto Barroso, atual presidente do STF, disse, em carta-resposta a Trump, que as impressões do presidente americano sobre o Brasil trata-se de uma “compreensão imprecisa dos fatos” — e de uma tentativa de interferência indevida em assuntos internos de uma democracia soberana.
De forma firme e pedagógica, Barroso listou uma sequência de atentados e ameaças reais ocorridas desde 2019: tentativa de explosão no aeroporto de Brasília, invasão da sede da Polícia Federal, atentado ao próprio STF, acampamentos golpistas em frente a quartéis, e uma campanha sistemática de deslegitimação das eleições com base em mentiras. Citou, ainda, o relatório militar que inicialmente validou a integridade das urnas eletrônicas, mas que, sob pressão bolsonarista, foi posteriormente distorcido para alimentar teorias conspiratórias. E, o mais estarrecedor, referiu-se à denúncia da Procuradoria-Geral da República, segundo a qual o plano golpista envolvia o assassinato de Lula, do vice-presidente Geraldo Alckmin e do ministro Alexandre de Moraes.
O ministro fez um apanhado de diversas tentativas de golpe de Estado ao longo da história brasileira e, em seguida, apresentou fatos ocorridos desde 2019 que indicou uma nova ameaça à democracia. “Nos últimos anos, a partir de 2019, vivemos episódios que incluíram: tentativa de atentado terrorista a bomba no aeroporto de Brasília; tentativa de invasão da sede da Polícia Federal; tentativa de explosão de bomba no Supremo Tribunal Federal (STF); acusações falsas de fraude eleitoral na eleição presidencial; mudança de relatório das Forças Armadas que havia concluído pela ausência de qualquer tipo de fraude nas urnas eletrônicas; ameaças à vida e à integridade física de Ministros do STF, inclusive com pedido de impeachment; acampamentos de milhares de pessoas em portas de quartéis pedindo a deposição do presidente eleito”, listou Barroso.
O presidente do Supremo afirmou ainda que denúncia do Procurador-Geral da República (PGR) aponta ter havido na nova tentativa de golpe, que teria sido liderada por Bolsonaro, o plano para assassinar Lula, além do vice-presidente Geraldo Alckmin e o ministro Alexandre de Moraes, do próprio Supremo. “Foi necessário um tribunal independente e atuante para evitar o colapso das instituições, como ocorreu em vários países do mundo, do Leste Europeu à América Latina. As ações penais em curso, por crimes diversos contra o Estado democrático de direito, observam estritamente o devido processo legal, com absoluta transparência em todas as fases do julgamento. Sessões públicas, transmitidas pela televisão, acompanhadas por advogados, pela imprensa e pela sociedade”, escreveu Barroso.
O presidente do Supremo também negou que haja censura no Brasil e disse que as decisões da Corte buscam proteger a liberdade de expressão. Ele mencionou a mais recente decisão sobre a responsabilização de redes sociais por publicações ilegais feitas por usuários, afirmando “que o STF produziu solução moderada, menos rigorosa que a regulação europeia, preservando a liberdade de expressão, a liberdade de imprensa, a liberdade de empresa e os valores constitucionais”.

O fator Bolsonaro
Em meio a esse cenário, Bolsonaro assume nas redes sociais que as sanções americanas têm viés político. “Tem muito mais, ou quase tudo, a ver com valores e liberdade do que com economia”, escreveu. Reconhece que a tarifa prejudica os produtores brasileiros, mas subordina o sofrimento do povo a um objetivo pessoal: escapar da prisão. Seu recado é cristalino: ou o Congresso aprova a anistia até 1º de agosto, ou a economia brasileira sangra. A lógica é mafiosa, como analisa o jornalista Josias de Souza: “O chefe da organização criminosa exige anistia para uma trama golpista que diz não ter existido. Quer que o Congresso vire cinzas para que ele possa renascer como fênix”.
Esse modelo de chantagem, de aparência grotesca, tem precedentes históricos perigosos. Em 1933, Adolf Hitler pressionou o parlamento alemão a aprovar a Lei de Concessão de Plenos Poderes (Ermächtigungsgesetz), que esvaziou a democracia por dentro. No Brasil, a Lei de Anistia de 1979, embora tenha sido importante para a transição da ditadura à democracia, também perpetuou a impunidade de torturadores e agentes do Estado. Hoje, ao tentar reeditar o instrumento da anistia em benefício próprio, Bolsonaro não busca reconciliação, mas apagamento da memória e liquidação das consequências jurídicas do golpe que tentou perpetrar.
Chantagem digital, diplomática e econômica
A conspiração que se desdobra entre Brasília e Washington representa um novo tipo de ameaça: não se trata de tanques nas ruas, mas de hashtags, tarifas e cartas diplomáticas. A extrema direita global aprendeu a operar dentro das democracias para corroê-las por dentro. As redes sociais — muitas delas sediadas nos EUA — foram usadas como catalisadoras de discursos de ódio, teorias da conspiração e ameaças institucionais. Agora, são também escudos para impedir a responsabilização legal dos seus usuários mais poderosos.
O STF, acusado falsamente de censura, tem tentado, como Barroso afirmou, “produzir soluções moderadas”. Na decisão sobre a responsabilidade das plataformas digitais por conteúdos ilegais, o tribunal optou por um modelo menos rigoroso que o europeu, garantindo a liberdade de expressão sem abrir mão da responsabilização. A retórica da censura, repetida por Bolsonaro, busca inverter os polos: transformar criminosos em mártires e instituições em vilãs.
A narrativa construída pelo bolsonarismo, com o aval de Trump, inverte os valores republicanos. A liberdade deixa de ser um valor coletivo para tornar-se um bem privado — o direito de um homem escapar de seus crimes. A economia deixa de ser um espaço de construção nacional para se tornar uma arma de sabotagem interna. E a anistia, em vez de instrumento de paz, vira sinônimo de rendição.
O Congresso diante do abismo
A pressão recai agora sobre o Congresso Nacional. Ao condicionar a “paz econômica” à aprovação da anistia, Bolsonaro transforma o Parlamento em refém. Como advertiu o filósofo político John Rawls, “a justiça é a primeira virtude das instituições sociais”. Um Congresso que, diante da chantagem, opta pela autopreservação, abdica da justiça — e da legitimidade.
Há, felizmente, resistência. Parte da elite econômica, antes simpática ao bolsonarismo, agora se vê perplexa diante dos prejuízos comerciais causados pela crise diplomática. O bolsonarismo, que antes falava em “libertar o Brasil da ditadura do STF”, agora clama pela intervenção de Lula nos outros Poderes — exatamente o que tanto condenava quando o alvo era Nicolás Maduro.
Se ceder à pressão, o Congresso brasileiro deixará de ser um Poder independente para se tornar cúmplice da autodestruição democrática. E, como escreveu Norberto Bobbio em O Futuro da Democracia, “a democracia morre não apenas quando é violentada, mas também quando seus guardiões se calam”.
O caso em curso é uma aula ao vivo sobre os riscos de conciliar com o autoritarismo. O bolsonarismo escancarou seu projeto de poder: não há República, não há Nação, não há povo — apenas o “mito”. E agora, para preservar o mito, está disposto a deixar o país sangrar. Se a democracia brasileira quiser sobreviver, não poderá aceitar esse preço.
Lula anuncia diálogo direto com empresários
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) determinou ontem (13) a criação de um comitê interministerial para avaliar os efeitos da nova tarifa de 50% imposta pelo governo dos Estados Unidos sobre produtos brasileiros. A medida foi anunciada pelo ex-presidente norte-americano Donald Trump, que voltou a ocupar o cargo recentemente, e passará a vigorar a partir de 1º de agosto.
Segundo apuração da reportagem, Lula comunicou aos ministros que pretende se reunir pessoalmente com representantes dos setores mais afetados pela medida, a fim de construir uma estratégia conjunta de resposta e negociação com o governo norte-americano.
O comitê contará com representantes dos ministérios da Fazenda (Fernando Haddad), Relações Exteriores (Mauro Vieira) e Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (Geraldo Alckmin), que já participaram da reunião convocada por Lula na noite de domingo, no Palácio da Alvorada. Também estiveram presentes integrantes da Casa Civil, da Secretaria de Comunicação Social (Secom), da Secretaria de Relações Institucionais e do Ministério da Agricultura.
Outras pastas deverão ser acionadas conforme o impacto setorial da tarifa, sobretudo a Agricultura, diante das consequências para a produção agropecuária. Entre os produtos mais atingidos estão laranja, café, carne bovina, celulose e etanol.
Diagnóstico bilateral
O objetivo do governo brasileiro é produzir um diagnóstico detalhado sobre os efeitos econômicos da nova alíquota não apenas para o Brasil, mas também para os Estados Unidos, e apresentar esse levantamento em eventual negociação com Washington.
Na reunião, Lula destacou que as tratativas com o governo norte-americano ocorrerão exclusivamente no campo econômico. Segundo o presidente, a defesa das instituições brasileiras e da soberania nacional “não estão na mesa de negociação”.
A tarifa anunciada por Trump substitui a sobretaxa de 10% em vigor desde abril deste ano, aplicada adicionalmente às tarifas de importação já existentes. No caso do etanol, por exemplo, o produto brasileiro era anteriormente taxado em 2,5%, passou a 12,5% com a sobretaxa anterior, e atingirá 52,5% com a nova medida. Produtos como aço e alumínio, que já são alvo de tarifa setorial de 50%, não sofrerão aumento adicional.
Pressão política e defesa institucional
A nova tarifa foi justificada por Trump com base em críticas ao Supremo Tribunal Federal (STF), especialmente às decisões da Corte relacionadas ao ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), réu por tentativa de golpe de Estado. Trump também mencionou a responsabilização de plataformas digitais por conteúdos ilegais, tema que tem gerado tensão entre o STF e setores conservadores nos EUA.
Lula tem se posicionado publicamente em defesa do STF, criticando a tentativa de interferência de Trump nas instituições brasileiras. Segundo o presidente, não há espaço para condicionar o diálogo econômico à suspensão de investigações ou julgamentos em curso. “A soberania do Brasil e o respeito às instituições democráticas não se negociam”, afirmou a uma fonte presente no encontro.
Deixe um comentário