Entre em nosso grupo
2
19.485.790/0001-70
Poder
O que vai decidir as eleições de 2026 é a economia e não os desejos de Trump
Publicado em 06/01/2026 9:02 - Semana On
Clique aqui e contribua para um jornalismo livre e financiado pelos seus próprios leitores.
O Brasil já conheceu, ao longo de sua história, o custo político e humano de flertar com saídas autoritárias — sobretudo quando embaladas por discursos salvacionistas ou pela tutela de potências estrangeiras. Ainda assim, mais de seis décadas após o golpe de 1964, o debate público volta a ser contaminado por insinuações que tensionam os limites da soberania nacional e da própria democracia. Desta vez, não por tanques nas ruas, mas por montagens digitais, memes de alcance milionário e declarações que naturalizam a ideia de uma intervenção militar estrangeira no país.
CLIQUE PARA SEGUIR A SEMANA ON NO INSTAGRAM, NO FACEBOOK E NO WHATSAPP
É nesse contexto que o líder do Partido dos Trabalhadores na Câmara, Lindbergh Farias, anunciou a apresentação de uma representação à Polícia Federal contra os deputados Nikolas Ferreira, Eduardo Bolsonaro e o senador Flávio Bolsonaro. A acusação é grave: incentivo a uma intervenção militar dos Estados Unidos no Brasil — o que, no ordenamento jurídico brasileiro, dialoga diretamente com crimes contra o Estado Democrático de Direito.
A iniciativa de Lindbergh ocorre após uma escalada retórica nas redes sociais, sobretudo no X (antigo Twitter) e no Instagram. O episódio mais emblemático foi uma publicação de Nikolas Ferreira que alcançou 7,3 milhões de visualizações, na qual o presidente Luiz Inácio Lula da Silva aparece em uma montagem sendo escoltado por dois militares norte-americanos — uma alusão direta à imagem da prisão do presidente venezuelano Nicolás Maduro.
A resposta de Lindbergh foi dura e politicamente calculada. Ao classificar a conduta como parte de um “golpe continuado”, o deputado resgata uma categoria central da ciência política contemporânea: a ideia de erosão democrática gradual, conceito amplamente debatido por autores como Steven Levitsky e Daniel Ziblatt em How Democracies Die. Para Lindbergh, não se trata de opinião ou sátira política, mas da tentativa de normalizar, no imaginário social, a noção de que forças estrangeiras poderiam arbitrar conflitos internos brasileiros.
Essa leitura é compartilhada pela deputada Erika Hilton, que protocolou representação semelhante na Procuradoria-Geral da República. No documento, ela sustenta que as postagens extrapolam a crítica política e constroem deliberadamente uma narrativa na qual autoridades estrangeiras — no caso, os Estados Unidos — assumiriam legitimidade para investigar, prender ou julgar o chefe de Estado brasileiro, usurpando competências exclusivas de instituições como o Senado Federal, o Supremo Tribunal Federal, a PGR e a própria Polícia Federal.
O pano de fundo dessas manifestações é a recente ofensiva norte-americana contra o governo venezuelano, celebrada por parlamentares bolsonaristas como se fosse um precedente exportável. As postagens compiladas nas representações chegam a associar Lula e Maduro em slogans como “promoção, prenda 1 e leve 2”, um expediente retórico que busca colar o governo brasileiro a um regime amplamente criticado por violações de direitos humanos — ignorando, convenientemente, diferenças institucionais, históricas e políticas profundas entre os dois países.
A estratégia, contudo, não é nova. A Venezuela comparece ao debate eleitoral brasileiro há pelo menos uma década, quase sempre mobilizada como espantalho ideológico. O que os dados empíricos mostram, entretanto, é que esse tipo de narrativa tende a repercutir muito mais intensamente em bolhas politicamente radicalizadas do que no eleitorado médio. Pesquisas do Datafolha e da Quaest, bem como estudos conduzidos por Felipe Nunes e Pablo Ortellado, indicam que os grupos mais barulhentos nas redes sociais são, paradoxalmente, minoritários em termos eleitorais.
Esse descompasso entre o ruído digital e a vida concreta ajuda a compreender por que analistas mais atentos alertam para o exagero na leitura do impacto da crise venezuelana — ou mesmo da política externa de Donald Trump — sobre a eleição brasileira de 2026. A história eleitoral recente do país sugere que, salvo cenários extremos, como uma guerra civil com milhões de refugiados cruzando fronteiras sul-americanas, o voto segue orientado por variáveis muito mais prosaicas: renda, emprego, custo de vida e percepção de mobilidade social.
A literatura clássica da economia política do voto reforça essa tese. Desde Anthony Downs, sabe-se que o eleitor tende a agir de forma retrospectiva, avaliando se sua vida melhorou ou piorou sob determinado governo. No Brasil, essa lógica ganha contornos ainda mais concretos quando se observa o peso simbólico e material da alimentação básica. Não por acaso, a economista Maria da Conceição Tavares costumava lembrar que “o povo não come PIB” — uma síntese brilhante da distância entre indicadores macroeconômicos e a experiência cotidiana das famílias.
Nesse ponto, os dados recentes ajudam a explicar por que o governo Lula observa algum alívio político apesar do ambiente internacional turbulento. Até novembro de 2025, o arroz acumulava queda de 25% e o feijão preto, de 33%, enquanto a inflação geral girava em torno de 4% e a alimentação no domicílio subia apenas 1,3%. São números que falam mais alto para o eleitor comum do que a mínima histórica do desemprego ou a euforia da Bolsa de Valores — fenômenos que, embora relevantes, não se traduzem automaticamente em sensação de bem-estar.
Isso não significa que o debate sobre soberania, democracia e ingerência externa seja irrelevante. Ao contrário: a normalização de discursos que flertam com a ideia de intervenção militar estrangeira é um sinal de alerta institucional. A ciência política comparada mostra que democracias não colapsam apenas por golpes clássicos, mas também pelo desgaste contínuo de normas, pela banalização do autoritarismo e pelo uso estratégico da desinformação. Nesse sentido, as representações apresentadas à PF e à PGR cumprem um papel pedagógico e institucional: reafirmam que há limites jurídicos e democráticos para a retórica política.
Ao mesmo tempo, a experiência histórica ensina que eleições raramente são decididas nos extremos. O cidadão comum pode até assistir com espanto às imagens de bombardeios ou às bravatas nas redes sociais, mas tende a decidir seu voto no corredor do supermercado, no extrato bancário do fim do mês e na sensação — muitas vezes difusa — de que a vida anda para frente ou para trás.
Em 2026, portanto, é pouco provável que sejam as bombas sobre Caracas ou os memes de Brasília que definirão o resultado das urnas. Mais uma vez, a política brasileira deverá ser decidida longe das bolhas histéricas e mais perto da pergunta silenciosa que cada eleitor faz a si mesmo: deu ou não deu para viver melhor?
Deixe um comentário