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Poder

A direita que aplaude bombas contra a América Latina

Ao celebrar a agressão dos EUA à Venezuela, presidenciáveis de direita colocam cálculo eleitoral acima do direito internacional

Publicado em 05/01/2026 10:17 - Semana On

Divulgação Reprodução

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A reação entusiasmada de lideranças da direita brasileira à ação militar dos Estados Unidos contra a Venezuela escancarou uma escolha política perigosa: em nome de ganhos eleitorais imediatos, parte do campo conservador passou a legitimar uma intervenção estrangeira realizada à revelia das Nações Unidas, do Congresso norte-americano e do direito internacional, abrindo precedentes que fragilizam toda a América do Sul — inclusive o Brasil.

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O episódio ganhou contornos explícitos de campanha com o vídeo publicado pelo governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, no qual celebrou a captura do ditador Nicolás Maduro em tom eleitoral. Gravado durante seu período de férias, mas com texto escrito de próprio punho, o vídeo associa a queda do regime venezuelano à disputa presidencial brasileira de outubro, encerrando com a frase: “A Venezuela agora está vencendo a esquerda e que, no final do ano, o Brasil também vença”. A fala foi reforçada pela primeira-dama paulista, Cristiane Freitas, que projetou para 2026 uma “vitória” semelhante no Brasil.

A mensagem foi bem recebida pela militância bolsonarista e interpretada por aliados como um recado claro de pretensão presidencial. Não por acaso, outros governadores da direita cotados como presidenciáveis — Ronaldo Caiado, Ratinho Júnior e Romeu Zema — também exaltaram a derrubada de Maduro, ainda que sem fazer menção direta ao cenário eleitoral brasileiro. Tarcísio foi o último a se manifestar, mas o único a transformar o episódio em slogan de campanha.

A reação do governo federal veio pela ministra das Relações Institucionais, Gleisi Hoffmann, que lembrou o histórico recente do governador paulista: o uso do boné com o slogan de Donald Trump, o apoio tácito ao tarifaço imposto pelos EUA a produtos brasileiros, a defesa da anistia a condenados por atos golpistas e o alinhamento ao clã Bolsonaro. “É muito cinismo para um bolsonarista só”, escreveu a ministra, ao acusar Tarcísio de responsabilizar o presidente Lula por uma invasão estrangeira.

Em entrevista ao O Estado de S. Paulo, o governador paulista foi além: atribuiu a ação militar norte-americana a uma suposta omissão do Brasil em liderar uma transição democrática na Venezuela por conta do alinhamento do PT com Maduro. “A gente pode criticar os meios que foram usados agora, a legitimidade ou não. Mas o fato é que algo precisava ser feito e foi feito”, afirmou. A frase sintetiza o núcleo do problema: a naturalização da violação do direito internacional como ferramenta política aceitável.

Não há controvérsia relevante sobre a natureza do regime venezuelano. Maduro fraudou eleições, perseguiu adversários, sufocou a imprensa e acumulou denúncias sistemáticas de violações de direitos humanos. Organismos internacionais e entidades como a Human Rights Watch documentam esse quadro há anos. Mas a história recente demonstra que ditaduras e crimes não autorizam, por si só, intervenções militares unilaterais. Se autorizassem, países como a Arábia Saudita — governada por um príncipe herdeiro acusado do assassinato do jornalista Jamal Khashoggi — estariam no topo da lista. Não estão porque a régua nunca foi a democracia, mas o interesse estratégico.

O próprio Trump deixou isso claro ao indicar que o controle da maior reserva de petróleo do mundo, localizada na Venezuela, é um fator central da operação. A estatal PDVSA, responsável por esse patrimônio, passa a ser elemento-chave de disputa geopolítica. A analogia é inevitável — e alarmante: troque PDVSA por Petrobras e imagine uma potência estrangeira decidindo, pela força, o destino dos recursos naturais brasileiros.

O direito internacional foi construído exatamente para conter esse tipo de lógica. A Carta das Nações Unidas, de 1945, estabelece como princípio a soberania dos Estados e a proibição do uso da força, salvo em legítima defesa ou com autorização do Conselho de Segurança. Ao aplaudir uma ação feita à margem dessas regras, presidenciáveis brasileiros sinalizam que, se eleitos, podem abandonar compromissos históricos da diplomacia nacional.

O Brasil, com exceção do governo Jair Bolsonaro, sempre evitou alinhamentos automáticos. A continência prestada por Bolsonaro à bandeira norte-americana em 2019 não foi folclore, mas símbolo de uma inflexão. Para agradar Trump, o então presidente sacrificou interesses concretos do país: dificultou a vida do setor sucroalcooleiro brasileiro, renovou a cota de etanol dos EUA sem imposto de importação e aceitou restrições à exportação de aço, tudo em meio à pandemia e ao fechamento de empresas no Brasil. O resultado foi vassalagem sem contrapartida.

Essa lógica reaparece agora, repaginada. Flávio Bolsonaro e Michelle Bolsonaro celebraram o ataque. Governadores presidenciáveis também. Buscam, ao mesmo tempo, o endosso de Trump — visto como potencial interferente no processo eleitoral brasileiro — e os votos dos órfãos do bolsonarismo. A política externa vira moeda eleitoral, e a soberania, detalhe.

Houve exceções. O governador Eduardo Leite condenou a ditadura de Maduro e, simultaneamente, classificou a agressão estrangeira como “igualmente inaceitável”. É a posição que respeita a legalidade internacional. Mas ponderação não mobiliza o eleitorado bolsonarista-raiz, ávido por gestos simbólicos de submissão a Washington.

A diplomacia ensina, há séculos, que países não têm amigos, têm interesses. A frase é atribuída ao estadista britânico Lord Palmerston e permanece atual. O interesse dos Estados Unidos sob Trump é explícito. O que permanece nebuloso — e preocupante — são os interesses dos presidenciáveis brasileiros que celebram bombas no país vizinho. Se a soberania alheia pode ser relativizada por conveniência eleitoral, a própria soberania brasileira passa a ser, amanhã, negociável.

Da euforia à apologia da tutela estrangeira

A euforia demonstrada por lideranças bolsonaristas diante da ofensiva militar dos Estados Unidos contra a Venezuela não ficou restrita à retórica eleitoral. Ela passou a ser tratada, no interior do governo e no Congresso, como um sinal inequívoco de flerte com a ideia de intervenção estrangeira no Brasil — um salto qualitativo no discurso político que, agora, começa a produzir consequências institucionais.

A ministra das Relações Institucionais, Gleisi Hoffmann, foi direta ao reagir às manifestações de governadores da oposição, entre eles Ratinho Júnior, Tarcísio de Freitas, Ronaldo Caiado e Cláudio Castro, que celebraram a captura de Nicolás Maduro pelas forças norte-americanas. Em publicação nas redes sociais, Gleisi afirmou que a reação “não tem nada a ver com defesa da democracia” e reflete, na verdade, “o desejo de uma intervenção estrangeira no Brasil, contra a nossa democracia”.

A ministra classificou como “simplesmente vergonhoso” o uso político da crise venezuelana pela extrema direita e alertou que a situação “ameaça a estabilidade de todo o continente”. Para Gleisi, o entusiasmo bolsonarista revela mais do que oportunismo eleitoral: indica a disposição de relativizar a soberania nacional sempre que isso possa ser convertido em vantagem política interna.

No mesmo posicionamento, a ministra vinculou esse comportamento ao histórico recente do deputado cassado Eduardo Bolsonaro, que defendeu sanções internacionais contra o Brasil, incluindo a aplicação da chamada Lei Magnitsky, como forma de pressionar o Supremo Tribunal Federal e o Congresso. “Era o projeto do traidor Eduardo Bolsonaro, com o tarifaço e as sanções da Magnitsky, que fracassou e foi repudiado pela sociedade brasileira”, escreveu Gleisi, ao lembrar que esse tipo de articulação externa já produziu danos econômicos concretos ao país.

A escalada retórica ganhou contornos jurídicos nesta segunda-feira (5). A deputada federal Erika Hilton protocolou representação criminal na Procuradoria-Geral da República contra o senador Flávio Bolsonaro e o deputado federal Nikolas Ferreira, acusando-os de incitar ou naturalizar a possibilidade de intervenção estrangeira no Brasil.

Segundo a representação, as publicações feitas pelos parlamentares nas redes sociais, no contexto da ofensiva dos EUA contra a Venezuela, extrapolam o exercício da crítica política e sugerem que autoridades estrangeiras poderiam investigar, sancionar ou constranger o Estado brasileiro à margem da Constituição. O documento sustenta que esse tipo de narrativa “submete o Estado brasileiro à jurisdição estrangeira” e afronta diretamente a soberania nacional.

Erika Hilton chama atenção para a estratégia comunicacional adotada: memes, montagens e imagens manipuladas digitalmente, que ampliam o alcance das mensagens e diluem a percepção pública de sua gravidade. Para a deputada, o tom irônico ou aparentemente humorístico não neutraliza o conteúdo político das postagens — ao contrário, funciona como ferramenta para banalizar a ideia de intervenção externa e apresentá-la como resposta legítima a disputas políticas internas.

No caso de Nikolas Ferreira, a peça menciona publicações que ironizam decisões do Supremo Tribunal Federal e colocam em dúvida a legitimidade das instituições democráticas, sugerindo que apenas a ação de potências estrangeiras seria capaz de “corrigir” o cenário político nacional. Em relação a Flávio Bolsonaro, a representação aponta postagens que reforçam a narrativa de colapso institucional no Brasil e associam o país a supostos mecanismos de investigação ou sanção conduzidos por autoridades norte-americanas ligadas ao governo de Donald Trump.

O texto sustenta que, ao usar a intervenção na Venezuela como referência simbólica, os parlamentares difundem a ideia de que o Brasil estaria sujeito a um juízo externo, relativizando a autonomia do sistema jurídico nacional. Para a deputada, quando esse discurso é propagado por agentes públicos com mandato eletivo e grande alcance nas redes sociais, ele contribui para enfraquecer a confiança nas instituições e legitimar discursos de ruptura democrática.

A representação pede que a PGR avalie a possível prática do crime de apologia ao golpe de Estado, previsto no artigo 359-M do Código Penal, introduzido após os ataques às sedes dos Três Poderes em 8 de janeiro de 2023. O documento ressalta que nem a liberdade de expressão nem a imunidade parlamentar autorizam a defesa de ruptura institucional ou a submissão do país à tutela de potências estrangeiras, ainda que sob a forma de humor ou crítica política.

O caso explicita um deslocamento preocupante no debate público: o que antes era retórica marginal passa a ser articulado de forma aberta por governadores, parlamentares e presidenciáveis. Ao celebrar uma intervenção militar estrangeira na América do Sul, parte da direita brasileira deixa de apenas atacar adversários internos e passa a flertar com a ideia de que a democracia nacional pode ser condicionada à vontade de potências externas. É um passo além do alinhamento automático — é a normalização da dependência política, com implicações diretas para a soberania e a estabilidade democrática do país.

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