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Poder

Michelle consolida liderança política e acirra disputa interna no bolsonarismo

Para Financial Times, lobby de Eduardo nos EUA 'fracassou espetacularmente'

Publicado em 03/12/2025 9:59 - Semana On

Divulgação Reprodução

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A crise desencadeada no PL do Ceará acirrou a disputa pelo controle do bolsonarismo e evidenciou a ascensão política de Michelle Bolsonaro. Ao se opor publicamente ao acordo articulado pelos filhos do ex-presidente Jair Bolsonaro e defender uma candidatura alinhada a princípios ideológicos ultraconservadores, a ex-primeira-dama não apenas venceu uma queda de braço com Flávio, Eduardo e Carlos Bolsonaro, como também projetou um novo eixo de poder na direita brasileira. A consequência imediata foi o recuo do PL na aliança com Ciro Gomes (PSDB), após pressão direta de Michelle, em gesto interpretado nos bastidores como uma derrota simbólica dos filhos do ex-presidente.

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O episódio levou líderes partidários, governadores e pré-candidatos à Presidência a rever seus cálculos eleitorais. Com Jair Bolsonaro inelegível e preso, o vácuo de liderança no campo conservador tornou-se palco de disputas entre uma ala pragmática — liderada por Flávio Bolsonaro — e outra purista e ideológica, representada por Michelle. “Ela está disputando o futuro do bolsonarismo ao defender uma extrema direita mais purista em princípios”, observou o jornalista Leonardo Sakamoto, em análise publicada no UOL.

A movimentação de Michelle não foi isolada. Ela já articulava há meses com o senador Eduardo Girão (Novo), nome que defendeu como alternativa à candidatura de Ciro Gomes no governo do Ceará. No lançamento da pré-campanha de Girão, Michelle discursou de costas para o público e diretamente aos políticos presentes, classificando como erro a tentativa de aliança com o PSDB — partido majoritariamente antagônico ao bolsonarismo. Girão, que se define como “cristão, pró-vida, pró-família e contra o aborto e jogos de azar”, se encaixa no perfil ideológico defendido por Michelle.

O gesto foi interpretado como uma reafirmação da identidade bolsonarista raiz, em contraste com a aproximação política proposta por Flávio e seus irmãos. O senador Flávio Bolsonaro, até então apontado como porta-voz político do pai, articulava a aliança como uma forma de ampliar o arco de alianças contra o PT. O racha, no entanto, evidenciou o conflito central: vencer a esquerda a qualquer custo ou manter a coerência com os princípios ideológicos do bolsonarismo.

Em resposta à crise, o PL suspendeu oficialmente a negociação com Ciro Gomes e tentou minimizar o episódio como um “mal-entendido”, alegando falhas de comunicação provocadas pela ausência de Jair Bolsonaro nas articulações diretas. Mas nos bastidores, o embate foi lido como um divisor de águas. “Michelle se fortalece politicamente ao se opor ao acordo e impõe sua agenda dentro da legenda”, afirmou um parlamentar do PL em condição de anonimato.

Esse novo protagonismo da ex-primeira-dama não passou despercebido por atores relevantes da direita. Grupos ligados a Ronaldo Caiado (União Brasil) e Ratinho Júnior (PSD) enxergam uma oportunidade de se reposicionar no tabuleiro político. Com Michelle liderando as intenções de voto entre os nomes da família Bolsonaro, segundo sondagens internas, abre-se uma brecha para candidaturas que disputem o eleitor conservador sem a necessidade de fidelidade absoluta ao bolsonarismo tradicional — especialmente se Michelle vier a ser vista como inexperiente para o debate de políticas públicas, como apontam lideranças do centrão.

Risco para Tarcísio em 2026

A leitura é que a derrota da aliança com Ciro pode ser um prenúncio do que aguarda Tarcísio de Freitas. A dúvida é se Jair Bolsonaro, mesmo fora da disputa, imporá sua esposa como vice do governador de São Paulo —ou se avançará ainda mais, lançando Michelle como cabeça de chapa.

O risco, avaliam lideranças políticas, está na rejeição que Michelle carrega junto ao eleitorado. Segundo pesquisa Genial/Quaest de novembro, 61% dos eleitores que a conhecem afirmam que não votariam nela. O índice é superior ao de Tarcísio (40%) e até ao do presidente Lula (53%). Ainda assim, Bolsonaro —inelegível e cada vez mais isolado politicamente— parece enxergar na ex-primeira-dama sua última chance de manter relevância e preservar seu legado eleitoral.

A movimentação de Michelle, com discursos moralistas e postura anti-sistema, replica a estratégia usada por Jair Bolsonaro em 2018. Mas agora, o custo político recai sobre aliados estratégicos. A debandada do PL no Ceará, após a pressão pública da ex-primeira-dama, desidratou a articulação de Flávio e acendeu o alerta em São Paulo. No xadrez da direita, Tarcísio, até então blindado, pode ser o próximo a enfrentar o dilema: ceder espaço a Michelle ou arriscar ser descartado pelo núcleo duro do bolsonarismo.

Internamente, porém, setores do PL ainda veem com reservas o protagonismo de Michelle. Ela nunca ocupou cargo eletivo e, embora tenha liderança sobre o PL Mulher, sua atuação esbarra nas estruturas do partido, hoje dominadas por políticos com trajetória consolidada. “Se ela não conseguir convencer a cúpula partidária, pode acabar isolada ou forçada a migrar para outra legenda”, pontuou Sakamoto.

A disputa, no entanto, está longe de ser apenas partidária. Trata-se de uma batalha pelo legado político do ex-presidente. Com os filhos tentando manter o controle do bolsonarismo através de alianças estratégicas e Michelle defendendo um retorno aos princípios originais de 2018 — discurso contra o “sistema”, foco em valores religiosos e rejeição ao pragmatismo político — o embate ganhou contornos familiares e ideológicos.

Michelle já deixou claro que não pretende se submeter às decisões dos enteados. Em comunicado recente, evitou ataques diretos, mas reafirmou seu direito de se manifestar. “Tenho o direito de me colocar”, escreveu, num tom que foi lido como resposta firme, ainda que diplomática.

A disputa pelo controle do bolsonarismo deve se intensificar à medida que se aproximam as definições eleitorais de 2026. Tanto Michelle quanto Flávio despontam como potenciais candidatos — não necessariamente à Presidência, mas como nomes centrais em qualquer composição majoritária. O resultado desse embate definirá não apenas quem herdará o capital político de Jair Bolsonaro, mas também qual será o rosto da nova direita brasileira.

Financial Times enterra o bolsonarismo

Enquanto Michelle amplia sua influência política, o movimento bolsonarista enfrenta dificuldades também no plano internacional. Segundo o jornal britânico Financial Times, o lobby conduzido por Eduardo Bolsonaro (PL-SP) nos Estados Unidos para tentar conter o avanço das investigações contra o pai “fracassou espetacularmente” e expôs ainda mais o clã ao desgaste político.

A publicação afirma que o movimento conservador no Brasil passa por um momento de crise aguda, intensificada por decisões equivocadas dos filhos de Jair Bolsonaro. “A estratégia do clã de buscar ajuda em Washington fracassou espetacularmente”, destaca a reportagem. Eduardo Bolsonaro, que permanece nos EUA em uma espécie de “exílio autoimposto”, teria atuado junto a aliados do ex-presidente Donald Trump para pressionar o governo americano a intervir indiretamente no cenário brasileiro — uma tentativa que não apenas falhou, como gerou reações negativas em diversos setores.

O jornal destaca que o lobby resultou, entre outras consequências, na imposição de tarifas comerciais de até 50% a produtos brasileiros, medida que irritou empresários e aumentou a desconfiança sobre a atuação de Eduardo. As tarifas, ainda segundo o FT, não surtiram qualquer efeito no Supremo Tribunal Federal, que manteve as ações contra Jair Bolsonaro. Parte dessas medidas comerciais foi suspensa por Trump neste mês devido ao impacto nos preços dos alimentos nos EUA, o que agravou a percepção de fracasso da estratégia bolsonarista.

Além de Eduardo, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) também é citado como peça-chave no atual desgaste. Ao organizar vigílias em apoio ao pai, preso desde agosto, Flávio teria causado desconforto até mesmo entre aliados do governador Tarcísio de Freitas, que temem que a associação direta com o bolsonarismo puro contamine sua imagem junto ao eleitorado de centro-direita.

De acordo com o Financial Times, Jair Bolsonaro “apresentava uma figura abatida e solitária” no momento da prisão. A publicação relembra que, em seu auge político, o ex-presidente era capaz de mobilizar multidões e desestabilizar instituições com seu discurso inflamado. Hoje, porém, o cenário é outro. Fontes ouvidas pelo jornal relataram que os filhos do ex-presidente “enlouqueceram politicamente” e que o capital político da família se deteriorou consideravelmente. Um executivo do setor financeiro chegou a classificar a tentativa de Eduardo de interferir no Judiciário brasileiro via articulações internacionais como “absolutamente repreensível”.

Apesar do desgaste, o jornal britânico reconhece que a direita segue com força eleitoral no Brasil. A pauta da segurança pública deve ser um dos principais temas da campanha presidencial de 2026, especialmente diante das dificuldades do governo Lula em responder de forma efetiva à crescente sensação de insegurança nas grandes cidades. “Se a eleição fosse daqui a dois meses, Lula venceria. Mas ainda falta quase um ano”, observa o Financial Times.

Fracasso de ato pró-Bolsonaro evidencia esvaziamento de apoio popular

O enfraquecimento do bolsonarismo também se reflete nas ruas. No último domingo (30), uma manifestação em defesa do ex-presidente Jair Bolsonaro e pela anistia dos envolvidos nos ataques de 8 de janeiro reuniu apenas cerca de 130 pessoas em frente ao Museu Nacional da República, em Brasília. A baixa adesão levou os organizadores a encerrar o ato antes do horário previsto — originalmente programado para ocorrer das 14h às 17h, o protesto foi encerrado por volta das 16h.

A mobilização, que pedia a libertação de Bolsonaro e a aprovação de anistia para os condenados pelos atos antidemocráticos, contou com escassa presença de parlamentares bolsonaristas e teve pouca repercussão mesmo entre apoiadores tradicionais do ex-presidente. O organizador do evento, Deusélis Filho, justificou a ausência de público dizendo que “muitas pessoas estariam amedrontadas de sair de casa”, em entrevista à Rádio Itatiaia.

Apesar do fracasso da manifestação, os organizadores prometeram continuidade dos atos em outras capitais, incluindo São Paulo, Recife e novas edições em Brasília. “Vamos percorrer o país para que as pessoas percam o medo. Continuaremos até que a anistia seja aprovada”, declarou Deusélis.

O protesto com público reduzido reforça os sinais de desgaste político e social de Jair Bolsonaro, que, mesmo mantendo influência no debate público, já não mobiliza multidões como em anos anteriores. Em contraste com os atos massivos de 2018 e 2022, a cena em Brasília parece refletir o novo momento do bolsonarismo: dividido internamente, desgastado internacionalmente e, agora, fragilizado nas ruas.

Justiça atesta que Bolsonaro vai terminar de cumprir pena em 2052

O ex-presidente Jair Bolsonaro deve terminar de cumprir a condenação a 27 anos e três meses de prisão pela trama golpista em novembro de 2052. O cálculo foi feito pela Vara de Execuções Penais (VEP) do Distrito Federal e encaminhado ao ministro Alexandre de Moraes, relator do processo no Supremo Tribunal Federal (STF).

Conforme atestado de pena a cumprir, o término da pena do ex-presidente está previsto para o dia 4 de novembro de 2052. Pelo cálculos da VEP, Bolsonaro terá direito a passar para o semiaberto no dia 23 de abril de 2033 e de cumprir livramento condicional a partir do dia 13 de março de 2037.

A data de início da contagem é o dia 4 de agosto deste ano, data na qual Bolsonaro passou a cumprir prisão domiciliar, período que poderá ser descontado da pena.

Os prazos para progressão de regime ainda poderão ser reduzidos em função de outros descontos previstos pela legislação, como leitura de livros e realização de cursos na prisão.

Atualmente, Bolsonaro cumpre pena em regime fechado na Superintendência da Polícia Federal (PF), em Brasília.

Na semana passada, a defesa do ex-presidente apresentou novo recurso contra a condenação.

Os advogados protocolaram os chamados embargos infringentes para tentar derrubar a decisão do ministro Alexandre de Moraes que negou outro recurso da defesa, os embargos de declaração, e determinou a execução da condenação de Bolsonaro e mais seis réus do núcleo 1 da trama golpista.

NATUREZA MORTA


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