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Poder
Enquanto o Brasil cresce e o desemprego cai, o dólar dispara e só beneficia especuladores
Publicado em 18/12/2024 8:57 - Semana On
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Se o presidente Luiz Inácio Lula da Silva anunciasse amanhã que não será candidato à reeleição, o dólar despencaria. Essa hipótese, que circula entre analistas de mercado, suscita uma pergunta inevitável: isso significaria que Lula é um mau presidente? A resposta é desconcertante, mas precisa ser dita: o problema não está na economia brasileira — está no mercado.
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O diagnóstico não é novo. Nas palavras do economista Gabriel Galípolo, “o mercado é o mar, e o Banco Central, o marinheiro”. É uma metáfora sedutora, mas inadequada. O mar não tem vontade própria. As ondas não se movem por preferências políticas, enquanto os “mercados” se movem. São guiados por interesses, antecipações e uma ideologia que se revela cada vez mais nítida.
Um exemplo claro foi narrado pelo jornal Valor Econômico: durante a internação de Lula, agentes financeiros passaram a “precificar” a possibilidade de ele não disputar a reeleição. Com o horizonte de uma possível guinada política, as cotações do dólar despencaram. Bastou o presidente se recuperar e reafirmar sua posição política para que a cotação da moeda americana disparasse novamente. O que isso revela? Um fato incômodo, mas inegável: os movimentos do dólar têm menos a ver com fundamentos econômicos e mais com preferências políticas de “agentes anônimos”, esses mesmos que o jornalista Reinaldo Azevedo, em artigo recente, ironizou com o termo “uzmercáduz”.
Quem são “uzmercáduz”?
Não são a Dona Maria e o Seu Zé, que compram o gás de cozinha e pagam a prestação do carro. São gestores de fundos, operadores de câmbio, analistas de instituições financeiras e aqueles que, em última instância, definem o que será ou não será precificado no mundo da especulação. Eles não respondem diretamente ao público, mas têm o poder de ditar regras como se fossem intérpretes exclusivos da “racionalidade econômica”.
A questão fundamental, no entanto, é o que querem esses agentes. Se o dólar dispara diante de uma fala de Lula sobre reeleição, qual é o recado implícito? Não se trata de uma crítica à condução econômica — e nem poderia ser. Os números brasileiros desmentem as narrativas catastróficas. O Brasil, segundo a OCDE, foi o segundo maior destino de investimentos estrangeiros diretos no mundo no primeiro semestre de 2023. Além disso, o desemprego atingiu uma das taxas mais baixas da história recente e a venda de imóveis novos cresceu 22,3% de janeiro a setembro. Carros foram vendidos em quantidade recorde. Se o país estivesse “à beira do abismo fiscal”, como insistem os porta-vozes do pânico, por que investidores globais escolheriam o Brasil como destino de seus recursos?
O argumento de que “o crescimento está sendo anabolizado” também não se sustenta. O jornalista Reinaldo Azevedo, em sua análise no UOL, desmonta essa tese. De onde viria esse “anabolizante”? Das desonerações fiscais que o próprio Congresso aprovou com apoio da direita e de boa parte da imprensa econômica? Dos pacotes de investimento que atraíram capital estrangeiro? Dos investimentos diretos que, segundo a OCDE, colocaram o Brasil na liderança mundial? A narrativa de que o crescimento é falso cai por terra diante dos próprios dados.
O discurso do apocalipse e a ameaça constante
O ponto mais sensível está na forma como o mercado interpreta a condução de política monetária pelo Banco Central. Desde 2023, o Copom (Comitê de Política Monetária) do Banco Central tem sido alvo de críticas. No início do ano, o debate era se a Selic (taxa de juros) deveria cair meio ponto ou um ponto. O BC optou por uma redução mais lenta, o que foi interpretado como “cautela técnica”. Agora, no fim do mesmo ano, o mesmo Banco Central sugere que a Selic subirá novamente para 14,25% até 2025. Os juros futuros, logicamente, dispararam.
A contradição é evidente. Como pode o mesmo órgão que, meses atrás, subestimava a recuperação econômica agora prever uma escalada inflacionária de tal magnitude que justificaria o retorno de juros a níveis de retração econômica? Se a Selic for a 14,25%, o Brasil voltará ao ciclo de estagnação. E tudo isso enquanto o crescimento do PIB para 2023 pode chegar a 4%, algo que os analistas de mercado erraram em mais de 100%.
O fetiche do ajuste fiscal
O ajuste fiscal, esse mantra que persegue qualquer governo que ouse fugir do receituário liberal, está no centro do embate. O governo Lula propôs um pacote de corte de gastos e um arcabouço fiscal que, a julgar pelas condições políticas, foi ousado e eficiente. Mesmo assim, a narrativa dominante nos editoriais econômicos insiste que “não foi suficiente”. Mas, novamente, a pergunta precisa ser feita: o que seria “suficiente”?
A crítica, em geral, vem sem propostas alternativas claras. Os porta-vozes do “mercado” evitam apontar saídas concretas. Quando o governo Bolsonaro aumentou os gastos com auxílios emergenciais para viabilizar sua reeleição, o mercado silenciou. Agora, diante de um governo que retoma os programas sociais, impõe uma reforma tributária e estabelece uma nova regra fiscal, as críticas se multiplicam. Seria essa “falta de severidade” uma crítica à falta de cortes no Bolsa Família? Ao aumento do salário mínimo?
O monopólio das expectativas que “uzmercáduz” exercem no debate público é evidente. Eles não aceitam a pluralidade de vozes. Há uma nota só no samba dos colunistas de economia. E, nesse ritmo, quem não dança conforme a música é empurrado para fora do salão.
Lula: “Irresponsabilidade é aumentar os juros todos os dias”
O dólar reflete o poder, não a economia
Se Lula decidisse amanhã não concorrer à reeleição, o dólar despencaria. Isso, por si só, é uma evidência de que o dólar não responde à racionalidade econômica, mas à racionalidade política. Não é o “mercado” que reage, mas os operadores de expectativas. O que querem esses agentes? Querem um governo que lhes garanta previsibilidade, ou seja, um governo que não incomode, que não mude as regras e, de preferência, que não seja democrático demais.
A pesquisa da Quaest, citada por Reinaldo Azevedo, mostra bem o perfil desses agentes. Se a eleição presidencial dependesse apenas da opinião dos “agentes de mercado”, Jair Bolsonaro venceria Lula por 80% a 12%. E o coach motivacional Pablo Marçal também venceria o presidente com larga vantagem. Isso revela que não estamos diante de racionalidade técnica, mas de uma preferência ideológica clara.
Os economistas que erraram em 2023 sobre o crescimento do Brasil são os mesmos que agora alertam para o “apocalipse de 2025”. Esses que, sete meses atrás, se dividiam entre cortes de 0,5% ou 1% na Selic, agora prevêem um aumento de 3 pontos percentuais nos juros até 2025.
Não podemos ceder à chantagem
Se Lula vai ou não ser candidato em 2026, é uma decisão pessoal e política. Mas não se pode aceitar que essa seja a chave para a estabilidade econômica de um país. Se o dólar sobe ou desce por causa de uma declaração eleitoral, não estamos falando de mercado, mas de chantagem.
O governo brasileiro entregou a reforma tributária, aprovou o arcabouço fiscal, retomou os programas sociais e manteve o desemprego em uma das menores taxas históricas. O Brasil é o segundo maior destino de investimentos estrangeiros diretos no mundo, mas ainda assim os “mercados” respondem com pessimismo.
O problema não está na economia. Está na captura das expectativas por interesses que não querem o bem do país, mas o controle sobre ele. Quando o samba só tem uma nota, quem não dança fica fora da festa. Mas talvez seja hora de mudar a música.
“Se o dólar despencar porque Lula não será candidato, talvez a pergunta correta não seja ‘o que Lula fez de errado’, mas ‘o que os mercados estão tentando esconder’.”
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