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Poder
Enquanto o mercado financeiro celebra a especulação sobre a saúde do presidente, ele responde com otimismo econômico e o desafio de retomar o crescimento sustentável
Publicado em 16/12/2024 2:44 - Semana On
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Após seis dias de internação no Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva voltou ao Palácio do Planalto e, em entrevista ao programa Fantástico, da TV Globo, rebateu críticas à condução econômica de seu governo. Na conversa com a jornalista Sonia Bridi, o presidente foi incisivo ao apontar o Banco Central (BC) como o verdadeiro responsável pelo suposto desequilíbrio fiscal do país, destacando que a manutenção da taxa de juros acima de 12% não encontra justificativa diante de uma inflação já controlada. “A irresponsabilidade é de quem aumenta a taxa de juros todo dia. Não é do governo federal”, afirmou Lula.
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A declaração foi uma resposta direta ao mal-estar provocado pela reação do mercado financeiro ao novo pacote de ajuste fiscal proposto pelo governo. Enquanto Lula reiterou que sua responsabilidade fiscal não precisa de lições do setor financeiro, as mesas de operações da Faria Lima pareciam celebrar a possibilidade de uma ausência definitiva do presidente.
“Bet na morte de Lula”: o cinismo do mercado financeiro
Na semana passada, o humor ácido do site Sensacionalista viralizou com a manchete “Faria Lima lança bet para apostar na morte de Lula”. A ironia, embora fictícia, evidenciou uma percepção latente: o “mercado” não disfarça o otimismo com a hipótese de um governo sob o comando do vice-presidente Geraldo Alckmin. E as reações do mercado financeiro não tardaram a corroborar o sarcasmo.
Basta observar os números: com a internação de Lula, a Bolsa de Valores disparou e o dólar caiu. Agentes do mercado começaram a especular abertamente sobre a possibilidade de Alckmin assumir a presidência, insinuando que o ex-governador de São Paulo teria um perfil mais “palatável” para as demandas do capital financeiro. Gustavo Cruz, estrategista-chefe da RB Investimentos, sintetizou a lógica do mercado: “A visão é de que Alckmin faria um governo mais parecido com o de Temer, mais assertivo na organização das contas públicas e mais preocupado em entregar o mandato com controle da dívida pública.”
A despeito das reações do mercado, Lula segue com aprovação popular. Segundo pesquisa Quaest, 52% dos brasileiros aprovam o governo contra 47% que o desaprovam. No entanto, o levantamento também revelou o abismo entre a opinião pública e a opinião da Faria Lima. Se a eleição fosse hoje, Lula venceria Jair Bolsonaro por 51% a 35% no segundo turno. O mesmo cenário se repetiria contra outros potenciais candidatos da direita, como Tarcísio de Freitas, Pablo Marçal e Ronaldo Caiado.
A chantagem do mercado: lógica eleitoral e política econômica
A tensão entre o governo e o mercado financeiro não é nova. Desde que o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso introduziu a autonomia do Banco Central e o regime de metas de inflação, o Brasil vem convivendo com uma espécie de “tutela” dos interesses do mercado financeiro sobre a política econômica.
Com Lula, essa relação se acirrou. Sua gestão é marcada pelo aumento do salário mínimo, pela ampliação de políticas sociais e pela tentativa de romper com a dependência do mercado financeiro na formulação de políticas econômicas. É justamente essa ruptura que transforma o presidente em alvo constante de críticas e especulações.
Luiz Carlos Hauly, deputado do Podemos e membro da bancada ruralista, foi um dos que se manifestaram publicamente contra o modus operandi do mercado. Em plenário, ele declarou que “o que o mercado financeiro vem fazendo com a economia chama-se crime de lesa-pátria” e acusou a existência de um “conluio” entre o Banco Central e o setor financeiro. “Se o Banco Central é independente, não deveria ouvir a opinião do mercado financeiro e não deveria aumentar a taxa do dólar, porque não há nenhum motivo”, afirmou.
A crítica de Hauly, ainda que inesperada, evidencia que o descontentamento com o Banco Central e o mercado financeiro não é exclusivo de lulistas ou petistas. Há uma percepção crescente de que os interesses financeiros estão desalinhados com as demandas populares. O uso da taxa de juros como ferramenta de controle inflacionário — ainda mais quando a inflação já está controlada — tem sido questionado por diversos economistas e parlamentares.
Entre o controle fiscal e a pressão popular
Lula tem uma trajetória marcada por gestos de conciliação. Em seus dois primeiros mandatos (2003-2010), buscou harmonizar as demandas do mercado com as necessidades sociais, entregando um crescimento de 7,5% do PIB e o maior aumento real do salário mínimo das últimas décadas. Mas, em 2023, o contexto é outro. A autonomia formal do Banco Central e a força política da Faria Lima desafiam a capacidade de o governo controlar o rumo da economia.
O pacote de ajuste fiscal proposto pela equipe econômica, liderada por Fernando Haddad, visa demonstrar comprometimento com a responsabilidade fiscal. Contudo, ao contrário do que ocorreu nos governos Lula anteriores, a resposta do mercado foi cínica e imediata. O presidente resumiu a lógica que domina o mercado: “Não é o mercado que tem que se preocupar com os gastos do governo. É o governo. Porque se eu não controlar os gastos, se eu gastar mais do que eu tenho, sabe quem vai pagar? O povo pobre.”
A dualidade entre mercado e democracia
O descompasso entre as demandas populares e os interesses do mercado financeiro se mostra evidente nos dados de intenção de voto. Enquanto 80% dos agentes do mercado financeiro declararam voto em Bolsonaro, a maioria do eleitorado brasileiro votaria em Lula em um eventual segundo turno. Isso expõe um paradoxo: as medidas econômicas que buscam equilibrar as contas públicas não servem para reduzir as críticas do mercado.
O economista francês Thomas Piketty já apontou, em sua obra O Capital no Século XXI, que a financeirização da economia transfere o poder de decisão dos governos para os grandes fundos financeiros. Isso se aplica de forma notória no Brasil. O próprio ex-presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, é apontado como uma peça-chave no bloqueio de algumas políticas econômicas do governo Lula, ainda que formalmente o BC seja independente.
Para muitos analistas, a “independência” do Banco Central não é bem assim. Se é verdade que a autonomia do BC deveria blindá-lo de pressões políticas, na prática, ele passou a ser guiado pelas expectativas do mercado financeiro. Nesse contexto, as falas de Hauly ganham força: “Se ele [o Banco Central] é independente, não deveria ouvir a opinião do mercado financeiro.”
Entre o caixão e a reeleição
Lula segue desafiando a lógica do mercado. Enquanto as bolsas de valores disparam com o simples anúncio de sua internação hospitalar, o presidente se posiciona como defensor da responsabilidade fiscal e da justiça social. O Brasil de 2023 é um país que vive sob a sombra de uma disputa silenciosa: de um lado, o poder do capital financeiro, que não tem rosto, mas se manifesta com clareza nas telas das corretoras. De outro, um presidente que resiste a esse poder e, por isso, se torna alvo constante de especulação política — e até biológica.
Em 2026, Lula poderá disputar a reeleição. E, se a lógica das pesquisas se mantiver, o povo o colocará novamente na presidência. Não se trata de romantismo, mas de leitura de dados. Em uma democracia, é o povo quem define quem governa, não a Faria Lima.
Enquanto o mercado aposta na morte de Lula, o povo, de acordo com as pesquisas, aposta na continuidade de seu projeto de governo.
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