Entre em nosso grupo
2
19.485.790/0001-70
Poder
Polícia Federal indicia Eduardo e Jair Bolsonaro por suspeita de coação
Publicado em 21/08/2025 9:27 - Semana On
Clique aqui e contribua para um jornalismo livre e financiado pelos seus próprios leitores.
O inquérito de 170 páginas da Polícia Federal sobre as ações de Jair Bolsonaro e de seu filho Eduardo expõe, com crueza inédita, o que há tempos se desenhava como padrão de conduta no núcleo duro do bolsonarismo: uma atuação centrada em autopreservação, lobby internacional, pressão sobre instituições democráticas e desprezo absoluto pela nação. A maior ausência nos arquivos não é um detalhe — é o próprio Brasil.
CLIQUE PARA SEGUIR A SEMANA ON NO INSTAGRAM, NO FACEBOOK E NO WHATSAPP
As mensagens obtidas pela PF a partir do celular apreendido do ex-presidente foram tornadas públicas ontem (20) e sustentam o indiciamento de Bolsonaro e de Eduardo por coação no curso do processo penal que tramita no Supremo Tribunal Federal (STF) sobre a tentativa de golpe de Estado após as eleições de 2022.
Os conteúdos revelam não apenas estratégias para interferir no julgamento, mas também uma rede de articulações no exterior, uma disputa interna por protagonismo e sinais claros de desconfiança mútua entre aliados.
Lobby em Washington e tarifaço como chantagem
O eixo mais revelador das mensagens diz respeito à movimentação de Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos. O deputado atuou de forma direta para que a Casa Branca pressionasse o governo brasileiro a suspender as investigações contra seu pai. A ofensiva incluiu a articulação de medidas comerciais contra o Brasil — entre elas, a imposição de um tarifaço de 50% sobre produtos brasileiros.
O episódio ecoa práticas de chantagem diplomática e econômica que pouco têm a ver com o interesse público e tudo a ver com a tentativa de blindar juridicamente o ex-presidente. O uso de sanções comerciais como instrumento de pressão sobre o Judiciário brasileiro escancara não só o desprezo pelas instituições nacionais, mas também a disposição de colocar a soberania do país em segundo plano em nome de interesses familiares e políticos.
Pedido de asilo e risco de fuga
A PF também localizou no celular de Bolsonaro um arquivo editável, sem assinatura, com um pedido de asilo político endereçado ao presidente argentino Javier Milei. Para os investigadores, trata-se de mais uma peça que reforça a suspeita de que o ex-presidente avalia rotas de fuga diante do avanço das investigações.
O documento foi levado em consideração pelo ministro Alexandre de Moraes, relator dos inquéritos no STF, que determinou que Bolsonaro preste esclarecimentos em até 48 horas sobre o descumprimento de medidas cautelares, reiteração de condutas ilícitas e o risco concreto de evasão do país. A ordem amplia o cerco judicial contra o ex-presidente e sinaliza que a Corte está atenta às movimentações do entorno bolsonarista.
Malafaia, a PF e o papel dos aliados
Outro nome que emerge com força nas conversas é o do pastor Silas Malafaia. Amigo e conselheiro político de Bolsonaro, Malafaia aparece articulando pressões contra os ministros do STF. Ao desembarcar de um voo vindo de Lisboa, foi interrogado pela PF e, posteriormente, proibido de deixar o país ou de se comunicar com Jair e Eduardo.
“Não vão me calar. Sou um líder religioso”, declarou Malafaia à imprensa, em tom de enfrentamento. Sua participação no esquema reforça a atuação de setores religiosos como agentes políticos ativos no projeto bolsonarista — não como fiadores morais, mas como operadores estratégicos.
Prisioneiros do 8 de janeiro: peças descartáveis
Talvez o aspecto mais revelador das mensagens seja o tratamento dispensado aos presos pelos atos golpistas de 8 de janeiro de 2023. Nos diálogos, fica claro que os detidos são usados como instrumento de chantagem emocional e mobilização política, mas que, na prática, serão descartados tão logo não sirvam mais aos interesses do clã.
É o retrato do bolsonarismo como projeto de poder: centralizado, personalista, sem lealdade real a seus seguidores e disposto a tudo — inclusive recorrer a conspirações internacionais e a traições internas — para manter o controle da narrativa e evitar punições.
Disputas internas, vaidade e oportunismo
As trocas de mensagens também revelam um clima de tensão entre pai e filho, com divergências estratégicas sobre comunicação, timing político e rumos da oposição. O que deveria ser uma frente unida se mostra uma disputa interna por protagonismo, recheada de vaidade, desconfiança e competição.
Em nota, Eduardo Bolsonaro reagiu às revelações afirmando que “jamais teve como objetivo interferir em qualquer processo em curso no Brasil” e que seu foco sempre foi “o restabelecimento das liberdades individuais”. Chamou de “lamentável e vergonhoso” o que classificou como a criminalização de conversas privadas. A defesa de Bolsonaro, por sua vez, ainda não se manifestou sobre o conteúdo específico das mensagens.
Contexto mais amplo e implicações políticas
As novas evidências surgem em um momento crucial do cenário político brasileiro. O avanço dos inquéritos no STF, somado ao desgaste público da figura de Bolsonaro, tem pressionado o PL e outros partidos da direita a recalcular seus apoios. No Congresso, cresce a divisão entre os que ainda defendem a anistia aos envolvidos no 8 de janeiro e os que veem na manutenção desse discurso um ônus eleitoral crescente.
O cientista político Cláudio Couto, da FGV, já havia alertado que o bolsonarismo “se sustenta na criação contínua de inimigos e na exploração de uma lógica de guerra”, o que, segundo ele, “acaba por corroer as bases institucionais da democracia”. (Fonte: FGV CPDOC, entrevista em 2024)
Um clã em guerra contra a institucionalidade
O inquérito da PF não apenas expõe os bastidores do bolsonarismo — ele os documenta com provas materiais, diálogos comprometedores e movimentações internacionais que beiram a conspiração diplomática. O Brasil, ao contrário do que pregam os discursos públicos dos envolvidos, não aparece como prioridade em nenhum momento. É, no máximo, um pano de fundo conveniente.
Mais do que revelações sobre um ex-presidente, o caso desnuda a lógica de funcionamento de um grupo político que se sustenta em chantagem, messianismo e desinformação. Um projeto que, a julgar pelas evidências, enxerga o país apenas como meio — nunca como fim.
Confira a seguir os principais trechos dos áudios:
Anistia seletiva
Em uma das mensagens obtidas pela Polícia Federal, enviada por Eduardo Bolsonaro ao pai em 7 de julho, o deputado menciona a proposta de uma “anistia light” — termo usado para descrever a possibilidade de conceder perdão exclusivamente a Jair Bolsonaro, deixando de fora os demais condenados pelos atos golpistas de 8 de janeiro. Segundo a PF, essa seria uma estratégia articulada nos bastidores com apoio buscado nos Estados Unidos.
No texto, Eduardo expõe a tensão entre interesses pessoais e políticos:
“Se a anistia light passar, a última ajuda vinda dos EUA terá sido o post do Trump. Eles não irão mais ajudar. (…) Temos que decidir entre ajudar o Brasil, brecar o STF e resgatar a democracia OU enviar o pessoal que esteve num protesto que evoluiu para uma baderna para casa num semiaberto. (…) Neste cenário, você não teria mais amparo dos EUA, o que conseguimos a duras penas aqui, bem como estaria igualmente condenado final de agosto.”
A mensagem reforça o entendimento da PF de que havia uma atuação coordenada para tentar interferir no curso das investigações no Brasil, priorizando a proteção de Bolsonaro mesmo que isso implicasse abandonar os aliados presos.
Pressão por gratidão
Em 10 de julho, um dia após o então presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, anunciar a imposição de tarifas de 50% sobre produtos brasileiros — medida interpretada como instrumento de pressão sobre o governo brasileiro — e divulgar uma carta defendendo a suspensão do processo contra Jair Bolsonaro, Eduardo Bolsonaro enviou ao pai uma mensagem cobrando uma resposta pública de agradecimento a Trump.
No texto, o deputado insiste para que Bolsonaro reconheça o apoio do norte-americano e critica sua postura:
“O cara mais poderoso do mundo está a seu favor. Fizemos nossa parte. Se o maior beneficiado não consegue fazer um tweet vaselina, aí realmente ferrou. Você tem sido o meu maior empecilho para poder te ajudar.”
Na sequência, Eduardo alerta para os riscos de desgaste diplomático com Trump, segundo análise da Polícia Federal:
“Opinião pública vai entender e você tem tempo para reverter se for o caso. Você não vai ter tempo de reverter se o cara daqui virar as costas para você. Aqui é tudo muito melindroso, qualquer coisinha afeta. Na situação de hoje, você nem precisa se preocupar com cadeia, você não será preso. Mas tenho receio que por aqui as coisas mudem.”
A troca de mensagens reforça, segundo a PF, a tentativa de articulação de apoio externo para interferir nas decisões do Judiciário brasileiro, além de evidenciar o uso político das relações com os Estados Unidos em benefício direto do ex-presidente.
Ruptura e tensão familiar
Em 17 de julho, uma semana após uma entrevista de Jair Bolsonaro ao site Poder360, o deputado Eduardo Bolsonaro enviou ao pai uma série de mensagens agressivas, revelando o grau de tensão interna no núcleo político-familiar. O estopim foi uma declaração pública de Bolsonaro sobre a atuação do filho em relação ao governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), nome que desponta como alternativa da direita para 2026.
Na entrevista publicada dois dias antes, o ex-presidente relatou ter intervindo para apaziguar um atrito entre Eduardo e Tarcísio, e chegou a afirmar que o filho não era “tão maduro” — comentário que provocou uma reação explosiva.
O conflito havia começado quando Eduardo criticou duramente a postura de Tarcísio por tentar negociar com empresários uma solução diplomática ao tarifaço de 50% imposto por Trump a produtos brasileiros. Segundo Eduardo, a conduta do governador representava “subserviência servil às elites” e ignorava a necessidade de combater o “regime de exceção” que, em sua visão, ameaçava liberdades e a economia nacional.
Diante da exposição pública feita pelo pai, Eduardo disparou:
“Eu ia deixar de lado a história do Tarcísio, mas graças aos elogios que você fez a mim no Poder360, estou pensando seriamente em dar mais uma porrada nele, para ver se você aprende.”
A seguir, em tom ainda mais exaltado, atacou diretamente o ex-presidente:
“VTNC, seu ingrato do caralho! Se o imaturo do seu filho de 40 anos não puder encontrar com os caras aqui, porque você me joga pra baixo, quem vai se foder é você. E vai decretar o resto da minha vida nesta porra aqui!”
No dia seguinte, Eduardo recuou e enviou nova mensagem, em tom mais brando:
“Peguei pesado… Estava puto na hora.”
A troca reforça o clima de instabilidade e vaidade nos bastidores do bolsonarismo, onde alianças são frequentemente atravessadas por disputas pessoais, egos inflados e embates estratégicos sobre quem controlará a narrativa — tanto no Brasil quanto fora dele.
Malafaia como articulador político e operador de pressão contra o STF
As mensagens extraídas do celular de Jair Bolsonaro pela Polícia Federal revelam uma participação direta e estratégica do pastor Silas Malafaia na articulação de pressões contra o Supremo Tribunal Federal (STF). Os diálogos mostram que o líder religioso não atuava apenas como aliado político, mas como um dos principais orientadores das ações destinadas a influenciar decisões da Corte e sustentar o discurso bolsonarista.
Em 10 de julho, Malafaia escreveu ao ex-presidente:
“Presidente! Você voltou para o jogo. Podem usar bravatas aqui, vão ter que sentar na mesa para negociar. Você é o cerne da questão. Quem é o Brasil para peitar os EUA? Mico contra um gorila. O vídeo que vou postar daqui a pouco eu vou ao cerne da questão. A próxima retaliação vai ser contra ministros do STF e suas famílias. Vão dobrar a aposta apoiando o ditador? Duvido!”
Três dias depois, o pastor voltou a contatar Bolsonaro com orientações mais explícitas sobre a estratégia a ser adotada:
“Tem que pressionar o STF dizendo que se houver uma anistia ampla e total, a tarifa vai ser suspensa. Ainda pode usar o seguinte argumento: não queremos ver sanções contra ministros do STF e suas famílias! Eles se cagão [sic] disso! A questão da tarifa é justiça e liberdade, não econômica. Traz o discurso para isso!”
As mensagens evidenciam um esforço deliberado para construir uma narrativa de chantagem internacional, associando a revogação das tarifas impostas pelos Estados Unidos a uma eventual anistia dos envolvidos nos atos golpistas — com foco claro em pressionar ministros do Supremo.
A atuação de Malafaia é tratada com seriedade pelas autoridades. O procurador-geral da República, Paulo Gonet, ao se manifestar favoravelmente às medidas cautelares contra o pastor, afirmou que ele “aparece como orientador e auxiliar das ações de coação e obstrução promovidas pelos investigados Eduardo Nantes Bolsonaro e Jair Messias Bolsonaro”.
Já o ministro Alexandre de Moraes, relator dos inquéritos no STF, foi além. Para ele, os diálogos revelam “fortes indícios” de que Malafaia integra a “empreitada criminosa, de maneira dolosa e com unidade de desígnios com Jair Bolsonaro e Eduardo Bolsonaro”.
A participação do pastor lança luz sobre o papel de setores religiosos no projeto político bolsonarista — não apenas como apoio ideológico, mas como atores ativos em estratégias de intimidação institucional e articulação política internacional.
Malafaia ataca Eduardo e exalta Flávio Bolsonaro em mensagens ao ex-presidente
As mensagens obtidas pela Polícia Federal no celular de Jair Bolsonaro também revelam desentendimentos internos entre aliados próximos do ex-presidente. Em 11 de julho, o pastor Silas Malafaia disparou críticas contundentes contra Eduardo Bolsonaro, a quem chamou de “estúpido de marca maior”, e ao mesmo tempo elogiou a postura do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), o filho mais velho do ex-presidente.
A crítica de Malafaia surgiu após a forma como Eduardo havia divulgado o tarifaço de 50% imposto pelos Estados Unidos contra produtos brasileiros — movimento que o pastor considerou politicamente desastroso e prejudicial à narrativa bolsonarista.
Em mensagem escrita enviada a Bolsonaro, Malafaia afirmou:
“Desculpa, presidente! Esse seu filho Eduardo é um babaca, inexperiente, que está dando a Lula e à esquerda o discurso nacionalista, e ao mesmo tempo te ferrando. Um estúpido de marca maior. Estou indignado! Só não faço um vídeo e arrebento com ele por consideração a você. Não sei se vou ter paciência de ficar calado se esse idiota falar mais alguma asneira.”
No mesmo dia, em outro contato com Bolsonaro, desta vez por áudio, o tom mudou ao comentar a atuação de Flávio Bolsonaro, a quem Malafaia atribuiu uma postura mais estratégica e equilibrada nas declarações públicas sobre o caso:
“Agora, presidente, a boa. Dá parabéns ao Flávio, pô. Falou certo, cacete. Na CNN… na GloboNews. ‘Eu não sou a favor da taxação, não. Mas tem que sentar pra conversar sobre anistia’. Pô, tudo a carta do Trump é pra você.”
As mensagens reforçam o clima de divisão e disputa por protagonismo dentro do núcleo bolsonarista, além de expor o papel de Malafaia como figura central nas articulações e nos bastidores políticos da família, atuando como conselheiro informal e, muitas vezes, crítico contundente.
Bolsonaro teria redigido pedido de asilo político à Argentina, aponta PF
Durante a análise do celular do ex-presidente Jair Bolsonaro, a Polícia Federal encontrou um arquivo de texto editável, sem data nem assinatura, no qual consta um esboço de petição dirigida ao presidente da Argentina, Javier Milei, solicitando asilo político.
No documento, escrito em nome de Bolsonaro, ele alega ser “perseguido por motivos e por delitos essencialmente políticos”.
De acordo com a PF, a última modificação no arquivo ocorreu em 10 de fevereiro de 2024 — dois dias após a apreensão do passaporte de Bolsonaro e dois dias antes de sua estadia por duas noites na embaixada da Hungria, em Brasília.
Em relatório, os investigadores afirmam que, “embora se trate de um único documento em formato editável, sem data e assinatura, seu teor revela que o réu planejou atos para fugir do país, com o objetivo de impedir a aplicação da lei penal”.
PF aponta tentativa de golpe internacional por Bolsonaro e filho
A Polícia Federal indiciou o ex-presidente Jair Bolsonaro e o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP) por coação no curso do processo penal e tentativa de abolição do Estado Democrático de Direito. A investigação aponta que pai e filho mobilizaram apoio internacional — especialmente do ex-presidente norte-americano Donald Trump — para pressionar o Supremo Tribunal Federal (STF) e interferir no julgamento da trama golpista de 2023.
Segundo relatório da PF, Eduardo atuou diretamente junto à administração Trump para retaliar o governo brasileiro, enquanto Jair Bolsonaro teria financiado a operação com recursos próprios. A ação gerou consequências concretas: o governo dos EUA impôs uma tarifa de 50% a produtos brasileiros e adotou sanções contra o ministro Alexandre de Moraes. O episódio foi interpretado pelos investigadores como tentativa de obstrução de Justiça por meio de ingerência estrangeira.
“A mobilização internacional teve como objetivo criar constrangimento institucional ao Supremo Tribunal Federal, além de incentivar medidas externas que impedissem o andamento das ações penais em curso”, diz o relatório da PF, divulgado em Brasília. O inquérito, iniciado em maio, foi reforçado com novas provas que incluíram o envio de R$ 2 milhões por Bolsonaro ao filho, por meio da conta da ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro, destinados a “atividades de natureza ilícita”.
Estratégia internacional e tarifaço de Trump
A operação de lobby nos Estados Unidos não foi discreta. Aliado de Bolsonaro, Donald Trump tem se pronunciado publicamente sobre o caso. Em vídeo divulgado em julho, o republicano afirmou: “Bolsonaro está sendo vítima de uma caça às bruxas no Brasil. Não há democracia sem liberdade, e o que estão fazendo com ele é uma vergonha mundial”. A declaração antecedeu o anúncio de tarifas sobre produtos brasileiros e o congelamento de ativos relacionados a ministros do STF.
Especialistas ouvidos pela Folha de S.Paulo e pela BBC Brasil interpretaram o gesto como manobra política de Trump em sua campanha de reeleição, mas destacaram o ineditismo do episódio: trata-se da primeira vez em que um país aliado impõe sanções motivadas por apoio a um acusado de tentativa de golpe de Estado.
Para a Polícia Federal, o alinhamento entre os Bolsonaros e a extrema direita internacional é parte de uma estratégia mais ampla de desestabilização institucional. “O uso de influência estrangeira para pressionar ministros da Corte configura grave atentado à soberania e ao funcionamento regular das instituições democráticas brasileiras”, sustenta o relatório entregue ao STF.
Tentativa de fuga e plano de asilo na Argentina
Além das articulações nos EUA, a PF descobriu que Jair Bolsonaro preparava uma rota de fuga. Durante a análise de seu celular, os agentes localizaram um arquivo de texto editável, sem data nem assinatura, endereçado ao presidente argentino Javier Milei, solicitando asilo político. No documento, o ex-presidente afirma ser vítima de “perseguição por motivos e por delitos essencialmente políticos”.
O arquivo foi modificado pela última vez em 10 de fevereiro de 2024 — dois dias após a apreensão de seu passaporte e dois dias antes de passar duas noites na embaixada da Hungria, em Brasília. Para a PF, a descoberta confirma que Bolsonaro buscava escapar das medidas impostas pelo STF e frustrar a aplicação da lei penal.
O ministro Alexandre de Moraes determinou, em julho, uma série de restrições ao ex-presidente, incluindo o uso de tornozeleira eletrônica e a apreensão de seus aparelhos eletrônicos. Já no início de agosto, impôs prisão domiciliar após Bolsonaro descumprir as cautelares ao participar de eventos bolsonaristas por videoconferência, com transmissão nas redes sociais.
Trama golpista será julgada em setembro
O caso se insere na ação penal que trata da tentativa de golpe de Estado de 8 de janeiro de 2023, cujos líderes — entre eles Jair Bolsonaro — serão julgados pelo STF em 2 de setembro. Segundo a Procuradoria-Geral da República, os denunciados integravam o núcleo decisório da tentativa de subversão do resultado das eleições de 2022, que culminou na invasão e depredação das sedes dos Três Poderes, em Brasília.
Entre os crimes imputados estão tentativa de abolição violenta do Estado Democrático de Direito, golpe de Estado, organização criminosa armada e deterioração de patrimônio tombado.
“O que se vê é uma continuidade das práticas autoritárias de um grupo que se recusa a aceitar as regras do jogo democrático. O uso de canais internacionais para constranger instituições nacionais é um desvio gravíssimo de conduta”, afirmou a jurista Eloísa Machado, professora da FGV Direito SP, em entrevista ao Estadão.
Com o julgamento às portas e novos elementos sendo revelados, a crise institucional aberta pelo bolsonarismo alcança uma dimensão transnacional, com repercussões que ultrapassam o território brasileiro — e colocam em xeque os limites da democracia diante de líderes que operam à margem da lei.
Deixe um comentário