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Poder
PF investiga plano de evasão e prende o ex-ministro Gilson Machado
Publicado em 13/06/2025 11:29 - Semana On
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A democracia brasileira, tantas vezes ameaçada ao longo da história, volta a se ver diante de um dilema: como lidar com a covardia dos que tramaram sua destruição, mas que agora, chamados a responder pelos seus atos, fogem, omitem e conspiram no silêncio? A decisão do ministro Alexandre de Moraes, do STF, de decretar e, em seguida, revogar a prisão preventiva do tenente-coronel Mauro Cid, nesta sexta-feira (13), é apenas o mais recente capítulo de um enredo que escancara o abismo entre a bravata autoritária de seus protagonistas e a responsabilidade institucional que buscam evitar a qualquer custo.
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Cid, ex-ajudante de ordens de Jair Bolsonaro, é considerado peça-chave na denúncia da Procuradoria-Geral da República que acusa o ex-presidente e seus aliados de arquitetarem um golpe de Estado após a derrota nas urnas em 2022. A delação de Cid é volumosa, explosiva e controversa: revela tentativas de ruptura institucional, falsificação de documentos, conspirações armadas e a elaboração de um decreto que instauraria um regime de exceção sob a retórica da “defesa da pátria”. Agora, porém, o militar — outrora tão próximo ao centro do poder — é investigado por tentar fugir do país, possivelmente com apoio de outros nomes do bolsonarismo.
Tentativas de evasão e passaportes paralelos
A Polícia Federal prendeu hoje, no Recife, Gilson Machado, ex-ministro do Turismo do governo Bolsonaro. Ele foi preso por suspeita de tentar emitir passaporte português para Mauro Cid. A prisão foi decretada pelo ministro Alexandre de Moraes a pedido da PGR (Procuradoria-Geral da República), que solicitou abertura de inquérito sobre o caso após a PF descobrir a tentativa de expedir o documento.
A Polícia Federal suspeita que Mauro Cid estivesse preparando sua saída do Brasil. Em 12 de maio de 2024, Gilson Machado — também figura de proa no bolsonarismo — teria buscado emitir um passaporte português para o tenente-coronel no consulado de Portugal em Recife. O plano foi detectado pela PF, e Machado foi preso na manhã desta sexta, embora negue as acusações. Cid, por sua vez, admitiu ter solicitado cidadania portuguesa em janeiro de 2023, logo após os atos golpistas de 8 de janeiro, mas afirmou desconhecer a iniciativa de Machado. Sua defesa alegou que o pedido foi motivado apenas pelo fato de sua esposa e filhas já possuírem cidadania portuguesa.
O contexto, porém, levanta suspeitas legítimas. No fim de maio, os pais, a esposa e uma das filhas de Cid embarcaram para os Estados Unidos, alegadamente para visitar a filha mais velha, residente em Los Angeles. Embora a viagem não tenha impedimento legal, seu timing — em meio à intensificação das investigações — alimenta a hipótese de uma tentativa de evasão coordenada. O recado implícito é claro: quem conspirou contra a democracia brasileira agora tenta, em silêncio, escapar da responsabilização.
O silêncio dos generais e a audácia seletiva
A postura de Cid e seus aliados revela um traço que acompanha a tradição autoritária no Brasil desde os tempos do regime militar: a coragem se desfaz quando a legalidade bate à porta. Os mesmos que defenderam ruptura institucional com armas, orações e bravatas, agora se escondem atrás de duplas nacionalidades, chancelas diplomáticas e recursos jurídicos que negam a legitimidade do Estado que um dia prometeram proteger.
É a repetição de um padrão que, como lembra o historiador José Murilo de Carvalho, marca a elite política e militar brasileira: “Na ausência de punições exemplares, o autoritarismo torna-se um expediente recorrente”. A tentativa de golpe em 2023 e as investigações que se seguiram não são desvios pontuais, mas parte de um processo contínuo de resistência à consolidação plena do Estado de Direito.
Uma delação que incomoda — e enfraquece
A trajetória recente de Mauro Cid é marcada por idas e vindas na relação com a Justiça. Já foi preso em 2023 por fraudar o cartão de vacinação de Bolsonaro, solto após firmar delação, e voltou à cadeia em 2024 após áudios seus virem à tona, criticando o STF e alegando coação nos depoimentos. Libertado novamente, declarou que os áudios eram “desabafos”. Sua oscilação entre colaboração e ameaça — ora fonte, ora vilão — evidencia não apenas a fragilidade de sua posição, mas também os limites da delação como instrumento de verdade plena.
Não por acaso, outros acusados pela PGR passaram a contestar os termos da colaboração de Cid. O próprio Bolsonaro, em depoimento ao STF, negou ter redigido qualquer decreto golpista, contrariando trechos centrais da delação. Em meio à disputa de versões, cresce o risco de que o jogo político contamine as provas, e que o processo judicial se torne um embate de narrativas — justamente o terreno preferido dos populistas autoritários.
O custo político da impunidade
O Brasil já experimentou o gosto amargo da impunidade autoritária. A ausência de punição efetiva aos agentes do regime militar — amparados pela Lei da Anistia de 1979 — legou ao país uma cultura institucional em que violações graves de direitos podem ser tratadas como diferenças ideológicas. Agora, quatro décadas depois, cabe ao Judiciário romper esse ciclo.
A denúncia da PGR contra Cid, Bolsonaro e outros seis acusados sustenta-se em cinco crimes: organização criminosa armada, tentativa de abolição violenta do Estado democrático de Direito, golpe de Estado, dano qualificado e deterioração de patrimônio público. As penas podem chegar a 46 anos de prisão por réu. Se a responsabilização não for exemplar, corre-se o risco de repetir o erro histórico de 1979: selar com o esquecimento crimes que atentam contra o próprio coração da República.
Como alerta o filósofo italiano Norberto Bobbio em O Futuro da Democracia (1984), “a democracia é o regime da responsabilidade, não do esquecimento”. É diante desse princípio que o Estado brasileiro precisa agir, com firmeza e serenidade — mas também com coragem institucional.
O episódio envolvendo Mauro Cid é mais do que uma tentativa individual de fuga. É o símbolo de um movimento maior, de uma elite política e militar que sempre se sentiu acima da lei. De um bolsonarismo que, ao menor sinal de responsabilização, veste o manto da vítima e procura asilo na geografia ou no discurso.
Diante da história, a democracia brasileira está sendo testada mais uma vez. Não por tanques, mas por passaportes. Não por fuzis, mas por estratégias silenciosas de evasão. A resposta não pode ser o silêncio.
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