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Poder

Malafaia sela apoio a Flávio Bolsonaro: reconfiguração evangélica redesenha cenário eleitoral

Queda na aprovação de Lula entre católicos revela reacomodação política e pressões conservadoras

Publicado em 04/05/2026 9:22 - Semana On

Divulgação Reprodução

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O templo da Assembleia de Deus Vitória em Cristo, localizado na Penha, zona norte do Rio de Janeiro, transformou-se em arena política neste domingo. À frente da igreja, o pastor Silas Malafaia conduziu uma oração em favor do senador Flávio Bolsonaro, que esteve acompanhado de aliados da política fluminense.

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O episódio ilustra mais um capítulo da interseção entre religião e política no país. Durante o ato, a condução espiritual assumiu contornos eleitorais, sugerindo aos fiéis uma leitura em que a vontade divina se alinha a interesses políticos específicos — neste caso, vinculados ao entorno do ex-presidente Jair Bolsonaro, atualmente em prisão domiciliar.

A cena ganha contornos ainda mais complexos quando se observa a posição anterior de Malafaia. O pastor havia manifestado preferência por uma alternativa à candidatura de Flávio, defendendo o nome do governador Tarcísio de Freitas, com Michelle Bolsonaro como possível vice. A recente bênção ao senador, portanto, sinaliza uma reacomodação política, possivelmente orientada por mudanças no cenário eleitoral.

Durante a cerimônia, Flávio Bolsonaro e seus aliados se ajoelharam para receber a oração. Ao final, o senador destacou o caráter respeitoso de sua relação com o pastor e afirmou sair fortalecido para seguir sua trajetória política ao lado dele. Já o deputado Sóstenes Cavalcante, uma das principais vozes do bolsonarismo na Câmara, interpretou o gesto como indicativo de apoio futuro mais explícito, avaliando que a aproximação tende a impulsionar a candidatura.

Ainda que os rumos dessa aliança não estejam completamente definidos, o movimento revela um padrão recorrente: lideranças religiosas ajustando posicionamentos conforme as dinâmicas de poder. O desempenho de Flávio Bolsonaro nas pesquisas — em alguns cenários empatado com Luiz Inácio Lula da Silva — parece ter contribuído para essa reaproximação, marcada por um gesto simbólico de forte apelo entre eleitores evangélicos.

Reconfiguração da bancada evangélica fortalece PL

Paralelamente, o cenário político foi impactado pela reorganização da bancada evangélica no Congresso Nacional, intensificada durante a recente janela partidária. O movimento beneficiou diretamente o Partido Liberal (PL), legenda de Jair Bolsonaro, e reforçou a base de apoio à pré-candidatura de Flávio Bolsonaro.

Composta atualmente por 235 parlamentares — sendo 209 deputados e 26 senadores —, a bancada passou por um processo de realinhamento ideológico. Parlamentares migraram, em sua maioria, para partidos posicionados mais à direita, com destaque para o PL e o Republicanos.

O PL foi o principal destino dessas movimentações, incorporando 15 novos integrantes e alcançando um total de 78 parlamentares ligados ao segmento evangélico. Na sequência, o Republicanos — partido associado à Igreja Universal e que abriga nomes como a senadora Damares Alves — ampliou sua bancada para 39 membros.

Por outro lado, o União Brasil registrou perdas significativas, com a saída de dez parlamentares, a maioria direcionada ao PL. No total, a janela partidária provocou a mudança de ao menos 73 deputados federais, cerca de 14% da Câmara, evidenciando um redesenho mais amplo das forças políticas.

Impactos projetados para 2026

As alterações na composição da bancada evangélica têm implicações diretas para as eleições presidenciais de 2026. O fortalecimento do PL amplia a influência do campo bolsonarista, especialmente junto a lideranças religiosas com capacidade de mobilização eleitoral.

Flávio Bolsonaro emerge desse processo em posição mais robusta, beneficiado tanto pela reorganização partidária quanto pelo apoio simbólico de figuras como Malafaia. Do outro lado, Lula enfrenta desafios relevantes para consolidar apoio entre eleitores evangélicos — segmento que, segundo o Censo de 2022, representa 26,9% da população brasileira.

Dados do Datafolha indicam uma vantagem expressiva de Flávio nesse grupo, chegando a atingir cerca de 50% das intenções de voto em determinados cenários, enquanto Lula alcança, no máximo, 23%. Essa disparidade é vista por aliados do governo como um dos principais obstáculos à reeleição.

Nos bastidores do Planalto, avaliações internas apontam o eleitorado evangélico como um dos pontos mais vulneráveis da estratégia eleitoral do presidente. Nesse contexto, a recente movimentação política e religiosa sinaliza não apenas alianças momentâneas, mas uma disputa estruturada por influência em um dos segmentos mais decisivos do eleitorado brasileiro.

Pesquisa aponta erosão de apoio entre católicos

A recente oscilação na avaliação do governo de Luiz Inácio Lula da Silva entre eleitores católicos indica um movimento mais amplo de reposicionamento político dentro do segmento. Dados da pesquisa Genial/Quaest mostram que a aprovação caiu de 55% em janeiro para 49% em março, enquanto a desaprovação avançou de 41% para 47%, variações que ultrapassam a margem de erro de três pontos percentuais. O resultado coloca aprovação e rejeição em empate técnico, cenário incomum para um grupo que historicamente demonstrou maior alinhamento ao petista.

Especialistas interpretam a mudança menos como uma ruptura abrupta e mais como um processo gradual de reacomodação. A socióloga Ana Carolina Marsicano, da Universidade Federal de Pernambuco, avalia que o catolicismo no Brasil não opera como um bloco político coeso, o que torna suas oscilações mais sensíveis a fatores conjunturais e simbólicos. Nesse contexto, o desafio do governo estaria menos na ausência de interlocução e mais na dificuldade de construir narrativas capazes de dialogar com diferentes sensibilidades dentro da própria Igreja.

Outro elemento apontado é o impacto da desinformação e da baixa eficácia da comunicação institucional. Para o professor Hilton Fernandes, da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo, a agenda positiva do governo tem alcance limitado diante de conteúdos negativos que circulam com maior intensidade. Ele destaca que a tendência de queda na aprovação já vinha sendo observada desde o fim de 2024, quando o índice recuou de 56% para 49% entre católicos.

Além disso, há sinais de reativação de setores conservadores dentro do catolicismo, tradicionalmente mais críticos ao governo. Segundo o cientista político Vinicius do Valle, esse grupo tem se articulado em convergência com segmentos evangélicos de direita, especialmente em pautas relacionadas a costumes, como família, sexualidade e educação. A politização desses temas tende a gerar atritos mesmo entre eleitores que, em outros momentos, demonstraram simpatia por Lula.

A queda na aprovação também reflete, em parte, a avaliação geral do governo. Analistas apontam que o desempenho entre católicos acompanha a percepção mais ampla da população, indicando que fatores econômicos e administrativos têm peso equivalente ou superior às questões religiosas.

Episódios recentes, como a repercussão do Carnaval na Marquês de Sapucaí, foram explorados por lideranças religiosas como símbolo de distanciamento entre o governo e valores tradicionais. O deputado Luiz Gastão, ligado à Frente Parlamentar Católica, criticou o silêncio do presidente diante de interpretações negativas sobre alegorias do desfile. Ainda assim, pesquisadores relativizam o peso isolado desse tipo de evento, sugerindo que tais episódios atuam mais como catalisadores de percepções já existentes do que como causas diretas de mudança de opinião.

O cenário descrito pelas pesquisas reforça a preocupação do Planalto com a manutenção de sua base eleitoral tradicional. A perda de apoio entre católicos, embora ainda moderada, sinaliza a necessidade de ajustes estratégicos, sobretudo na comunicação e na mediação de temas sensíveis — sob risco de ampliação do desgaste em um segmento numericamente relevante e historicamente decisivo nas disputas eleitorais.

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