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Poder

Lula manda recado a Trump no G7

Presidente brasileiro critica protecionismo e rejeita ingerência externa no Brasil

Publicado em 16/06/2026 3:42 - Semana On

Divulgação

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O presidente Luiz Inácio Lula da Silva aproveitou sua participação na cúpula do G7, realizada nesta terça-feira (16) em Évian, na França, para defender uma agenda baseada na cooperação internacional, no combate às desigualdades e no respeito à soberania dos Estados. Diante do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e dos líderes das principais economias desenvolvidas, Lula fez críticas ao protecionismo comercial, ao avanço de políticas unilaterais e às tentativas de enfrentamento do crime organizado que possam resultar em interferência nos assuntos internos de outros países.

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Embora tenha evitado citar diretamente o presidente norte-americano, a intervenção do chefe de Estado brasileiro ocorreu em meio ao aumento das tensões diplomáticas provocadas pela decisão da Casa Branca de classificar as facções criminosas Primeiro Comando da Capital (PCC) e Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas. O tema ganhou relevância adicional diante da aproximação entre setores da direita brasileira e integrantes do governo norte-americano, que passaram a utilizar a pauta da segurança pública como elemento central do debate político.

Ao abordar os desafios globais relacionados ao crime organizado, Lula destacou os impactos econômicos e sociais das organizações criminosas, afirmando que elas desviam recursos públicos que deveriam ser destinados a áreas essenciais, como educação, saúde e infraestrutura. O presidente, contudo, enfatizou que qualquer esforço internacional para enfrentar essas estruturas deve respeitar a autonomia dos países envolvidos.

“O combate ao crime organizado precisa considerar o respeito à soberania dos Estados”, afirmou.

A declaração foi interpretada como uma resposta à estratégia adotada por Washington nos últimos meses. Além da classificação do PCC e do Comando Vermelho como grupos terroristas, os Estados Unidos vêm utilizando o combate ao narcotráfico como justificativa para ampliar pressões diplomáticas e adotar medidas de segurança em diferentes regiões da América Latina.

Lula reconheceu como positiva a Declaração de Líderes do G7 sobre o Combate ao Tráfico de Drogas, destacando que o documento não incorporou a classificação das facções brasileiras como organizações terroristas. Para o presidente, o enfrentamento do narcotráfico exige uma abordagem mais ampla e articulada.

Segundo ele, o combate às drogas ilícitas não pode ser dissociado de crimes correlatos, como lavagem de dinheiro, tráfico internacional de armas e financiamento de organizações criminosas. Nesse contexto, o fortalecimento da cooperação institucional entre os países e organismos multilaterais surge como elemento fundamental para desarticular as redes financeiras e operacionais que sustentam essas organizações.

Lula também ressaltou o papel da Interpol como instrumento de cooperação internacional para localização de ativos financeiros e indivíduos envolvidos em atividades criminosas transnacionais.

A agenda do presidente na Europa prevê, inclusive, uma reunião com a cúpula da Interpol nesta quarta-feira (17), em Genebra. O encontro contará com a presença de integrantes da delegação brasileira, entre eles o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues.

A reunião ocorre em um momento de pressão política sobre o governo brasileiro. De um lado, a administração Trump intensifica críticas à posição brasileira sobre as facções criminosas. De outro, setores ligados ao bolsonarismo defendem alinhamento mais próximo à política norte-americana para o enfrentamento do crime organizado.

O governo brasileiro, entretanto, mantém posição contrária à classificação de PCC e Comando Vermelho como organizações terroristas. Autoridades em Brasília avaliam que a mudança de enquadramento poderia gerar impactos relevantes na cooperação bilateral entre Brasil e Estados Unidos, além de abrir espaço para iniciativas consideradas como ingerência em assuntos domésticos.

Nesse contexto, a estratégia de Lula busca equilibrar dois objetivos: demonstrar compromisso com o combate ao crime organizado e, simultaneamente, impedir que o tema seja utilizado para justificar intervenções externas ou medidas que possam afetar a estabilidade institucional e econômica do país.

A avaliação do governo é que o enfrentamento das facções deve priorizar suas estruturas de comando, seus mecanismos de lavagem de dinheiro, suas redes internacionais de financiamento e os fluxos de armamentos que abastecem suas operações. Trata-se, segundo integrantes do Planalto, de deslocar o foco da repressão para os níveis superiores das organizações criminosas, onde se concentram poder econômico e capacidade de articulação internacional.

Além do debate sobre segurança pública, o discurso de Lula foi marcado por críticas contundentes ao atual modelo econômico global. O presidente argumentou que os fóruns multilaterais têm demonstrado dificuldade para produzir respostas duradouras aos principais desafios internacionais e acusou a predominância de políticas neoliberais de aprofundar desigualdades sociais e crises políticas.

Segundo Lula, o mundo permanece preso a dogmas econômicos baseados na desregulamentação dos mercados, na redução do papel do Estado e na austeridade fiscal como objetivos em si mesmos. Para ele, esse conjunto de políticas contribuiu para ampliar a concentração de renda e enfraquecer democracias em diferentes regiões do planeta.

O presidente também direcionou críticas às medidas protecionistas adotadas por grandes potências econômicas. Sem mencionar diretamente os Estados Unidos, afirmou que o ressurgimento do unilateralismo e das barreiras comerciais representa uma resposta inadequada à complexidade dos problemas globais.

A manifestação ocorreu semanas após a Casa Branca anunciar a intenção de impor tarifas que, somadas, poderiam atingir 37,5% sobre determinados produtos brasileiros exportados para o mercado norte-americano.

Outro eixo central do discurso foi o acesso às tecnologias estratégicas e aos recursos minerais considerados essenciais para a transição energética e digital. Lula argumentou que os países detentores de minerais críticos não podem permanecer limitados à condição de fornecedores de matéria-prima.

Segundo ele, essas nações devem participar das etapas de maior valor agregado das cadeias produtivas por meio da industrialização, da transferência de tecnologia e da formação de capacidades técnicas compatíveis com seus interesses nacionais. A defesa ocorre em meio à crescente disputa internacional por minerais estratégicos utilizados em baterias, semicondutores, inteligência artificial e energias renováveis.

O presidente também alertou para o agravamento das desigualdades globais. Em sua avaliação, a distância entre a prosperidade observada nas economias desenvolvidas e a realidade enfrentada pelos países do Sul Global continua aumentando.

Lula citou a concentração de riqueza como um dos principais sintomas desse desequilíbrio. Segundo ele, o primeiro trilionário do planeta acumula patrimônio superior ao de 46% da população mundial mais pobre, resultado de décadas de políticas favoráveis à acumulação de riqueza nas camadas mais altas da sociedade.

Ao abordar a Agenda 2030 da Organização das Nações Unidas, o presidente afirmou que a comunidade internacional está se afastando das metas estabelecidas para o desenvolvimento sustentável. De acordo com sua avaliação, faltam cerca de US$ 4 trilhões anuais para financiar os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável.

Lula também argumentou que a Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP-30) evidenciou a distância entre os compromissos climáticos assumidos pelos países desenvolvidos e os recursos efetivamente disponibilizados para sua implementação. Para acelerar o cumprimento do Acordo de Paris, defendeu a ampliação do financiamento climático global para pelo menos US$ 1,3 trilhão por ano.

Em outro trecho de sua fala, o presidente destacou a redução dos recursos destinados à cooperação internacional. Segundo ele, a ajuda oficial ao desenvolvimento registrou queda histórica de 23% no último ano, afetando diretamente programas voltados ao combate à pobreza e à insegurança alimentar.

Lula citou ainda a perda de aproximadamente 40% do financiamento do Programa Mundial de Alimentos, além dos cortes superiores a 20% nos orçamentos da Organização Mundial da Saúde (OMS) e do Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF).

Para o presidente, essas reduções produzem consequências concretas para milhões de pessoas em países em desenvolvimento, comprometendo o acesso à alimentação, à educação, à proteção social e aos serviços básicos de saúde.

A crítica se estendeu aos gastos militares globais, que, segundo Lula, alcançam cerca de US$ 3 trilhões anuais. O presidente argumentou que a escalada de conflitos e o aumento dos investimentos em defesa desviam recursos que poderiam ser destinados à redução das desigualdades e ao desenvolvimento sustentável.

Outro ponto abordado foi a situação financeira das nações mais pobres. Lula afirmou que os países em desenvolvimento transferem aproximadamente US$ 1,4 trilhão por ano para pagamento de suas dívidas externas, valor que, segundo ele, supera em sete vezes o volume de ajuda internacional recebida dessas mesmas economias.

Na avaliação do presidente, o financiamento ao desenvolvimento continua sendo responsabilidade fundamental dos Estados e não pode ser substituído exclusivamente por investimentos privados ou iniciativas filantrópicas. O objetivo, afirmou, deve ser a construção de um sistema financeiro internacional que não obrigue países a escolher entre honrar compromissos com credores ou garantir condições básicas de sobrevivência para suas populações.

As divergências entre o Brasil e os países do G7 também se refletiram nos documentos produzidos durante a cúpula. O governo brasileiro decidiu não aderir a pelo menos duas declarações negociadas pelo grupo.

Uma delas tratava do enfrentamento ao Ebola. Segundo o Palácio do Planalto, o texto minimizava o papel da Organização Mundial da Saúde, alteração que teria sido feita para garantir a adesão dos Estados Unidos à declaração.

A segunda declaração abordava parcerias internacionais para o desenvolvimento. Na avaliação do governo brasileiro, o documento apresentava desequilíbrios ao ignorar questões consideradas centrais para os países em desenvolvimento, como o protecionismo comercial das economias avançadas e o descumprimento da meta internacional que prevê a destinação de 0,7% do Produto Interno Bruto dos países ricos para programas de ajuda ao desenvolvimento.

Apesar do apoio de países convidados como Quênia e República da Coreia, o Brasil optou por não subscrever o texto, reforçando sua posição de que a arquitetura internacional de financiamento precisa ser reformulada para responder de forma mais efetiva aos desafios enfrentados pelas nações mais vulneráveis.

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