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Poder

Lula diz ao New York Times que soberania e democracia são inegociáveis

Lula e Trump travarão embate de visões na ONU.

Publicado em 15/09/2025 9:27 - Semana On

Divulgação Reprodução

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Em artigo publicado ontem (14) no jornal The New York Times com o título Democracia e Soberania Brasileiras São Inegociáveis, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva rebateu os argumentos do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, a respeito do tarifaço imposto aos produtos brasileiros pelos Estados Unidos.

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Lula ressaltou que nos últimos 15 anos, os Estados Unidos registraram um superávit de US$ 410 bilhões nas relações comerciais com o Brasil. Também disse que não há excessos nas cobranças de tarifas por parte do Brasil e que aproximadamente 75% das exportações aos Estados Unidos para o Brasil são isentas de impostos.

O presidente brasileiro defendeu o multilaterialismo como melhor caminho para as relações entre os países, apontou os números favoráveis aos Estados Unidos na balança comercial entre os dois países e disse que a decisão de taxar os produtos brasileiros é política.

Ao tratar a questão como política, Lula fez uma forte defesa da soberania brasileira e do judiciário.

Ele criticou tanto as acusações de Trump de perseguição ao ex-presidente Jair Bolsonaro – condenado a 27 anos de cadeia por tramar um golpe de estado –, quanto os esforços de regulamentação das chamadas big techs, grandes empresas de tecnologia dos Estados Unidos.

Outro ponto defendido pelo presidente Lula foi a implementação do sistema de pagamentos digital, o PIX, que possibilitou a inclusão financeira de milhares de cidadãos e empresas do país. Além de facilitar as transações e estimular a economia.

A Amazônia foi outro tema tratado pelo brasileiro no artigo, recordando que nos últimos dois anos a taxa de redução do desmatamento caiu pela metade e que, no ano passado, a polícia brasileira apreendeu milhões de dólares utilizados em esquemas criminosos contra o meio ambiente.

Por fim, o presidente Lula reafirmou a disposição de o Brasil negociar o tema das tarifas com os Estados Unidos, recordou que os dois países mantêm relações há mais de 200 anos, sendo que as diferenças ideológicas não podem prejudicar o trabalho conjunto das duas nações.

Clique aqui e leia a íntegra do artigo

Brasil dá exemplo de democracia aos EUA, diz New York Times

Na sexta-feira (12), um artigo publicado no jornal afirmava que o Brasil teve sucesso onde os Estados Unidos (EUA) fracassaram, ao comentar a condenação do ex-presidente Jair Bolsonaro por tentativa de golpe de Estado, entre outros crimes.

Escrita por um dos autores do livro Como as Democracias Morrem, o professor de Harvard Steven Levitsky, e pelo professor Filipe Campante, o artigo afirma que a democracia do Brasil deu um exemplo à dos EUA ao condenar um ex-presidente por tentar anular a eleição.

“Apesar de todas as suas falhas, a democracia brasileira é hoje mais saudável do que a americana. Conscientes do passado autoritário do país, as autoridades judiciais e políticas brasileiras não deram a democracia por garantida. Seus pares americanos, por outro lado, fracassaram na tarefa. Em vez de minar os esforços do Brasil para defender sua democracia, os americanos deveriam aprender com ela”, escreveram os especialistas.

Os professores norte-americanos fazem um paralelo do julgamento de Bolsonaro com o caso de Donald Trump que, ao perder as eleições de 2020, não reconheceu o resultado e instigou apoiadores a invadir o Capitólio em 6 de janeiro de 2021, na tentativa de impedir a diplomação do democrata Joe Biden.

“O Supremo Tribunal Federal brasileiro fez o que o Senado dos EUA e os tribunais federais tragicamente falharam em fazer: levar à justiça um ex-presidente que atacou a democracia”, disse o artigo do NYT.

Filipe Campante e Steven Levitsky lamentam que as instituições dos EUA não puniram o atual presidente dos EUA.

“Ao contrário dos Estados Unidos, portanto, as instituições brasileiras agiram com vigor e, até o momento, de forma eficaz, para responsabilizar um ex-presidente por tentar anular uma eleição. É justamente a eficácia das instituições brasileiras que colocou o país na mira do governo Trump”, escreveram.

Para os especialistas, as tarifas de Trump contra o Brasil e as sanções contra o ministro Alexandre de Moraes, relator do caso, alteram uma política que a Casa Branca tinha na América Latina desde o fim da Guerra Fria.

“Em um movimento que evoca algumas das intervenções mais antidemocráticas dos EUA na Guerra Fria, os Estados Unidos estão tentando subverter uma das democracias mais importantes da América Latina”, avaliam os colunistas do NYT.

Proteger a democracia

Os autores alertaram ainda que as democracias não podem ser defendidas sozinhas e lembrou os movimentos autoritários que tomaram conta da Europa entre 1920 e 1930, como o fascismo italiano e o nazismo alemão.

“Como os liberais europeus aprenderam naquele período, a passividade diante de tais ameaças pode custar caro. As democracias não podem se defender. Elas precisam ser defendidas. Mesmo os freios constitucionais mais bem elaborados são meros pedaços de papel, a menos que os líderes os exerçam”, argumentaram Campante e Levitsky.

Os especialistas citam que “inúmeras evidências” da Polícia Federal indicaram que Bolsonaro e aliados militares conspiraram para anular a eleição e bloquear a posse de Lula.

“Após os eventos de 8 de janeiro de 2023 deixarem claro que Bolsonaro representava uma ameaça à democracia, a Justiça brasileira agiu agressivamente para responsabilizá-lo — e impedir seu retorno ao poder”, destacaram.

Trump 

O artigo do jornal nova-iorquino também denuncia o “autoritarismo” do novo governo Trump e culpa as falhas institucionais do país norte-americano.

“O segundo governo Trump tem sido abertamente autoritário, instrumentalizando agências governamentais e mobilizando-as para punir críticos, ameaçar rivais e intimidar o setor privado, a mídia, escritórios de advocacia, universidades e grupos da sociedade civil. Ele tem rotineiramente burlado a lei e, por vezes, desafiado a Constituição. Menos de nove meses após o início da segunda presidência de Trump, os Estados Unidos provavelmente já cruzaram a linha do autoritarismo competitivo”, declararam os especialistas.

Na ONU, dois discursos, duas soberanias

Quando o presidente Luiz Inácio Lula da Silva abrir oficialmente a 79ª Assembleia Geral das Nações Unidas, no próximo dia 23 de setembro, uma palavra-chave deve marcar sua fala: soberania. Instantes depois, ao subir no mesmo púlpito, Donald Trump, em seu segundo mandato presidencial, ecoará o mesmo termo — mas em um tom radicalmente distinto. O contraste será imediato: um apelo à cooperação multilateral contra um discurso de retração nacionalista.

O embate não será apenas simbólico. Segundo diplomatas envolvidos na organização do evento, o clima entre as delegações brasileira e americana é de tensão máxima. A ONU, tradicionalmente um palco de disputas diplomáticas, verá neste ano um confronto direto entre duas visões antagônicas de mundo, encarnadas por dois líderes em meio a crises políticas domésticas e agendas internacionais incompatíveis.

A própria logística da abertura reflete esse ambiente hostil. O protocolo da ONU, que costuma organizar os encontros entre comitivas sem grandes cerimônias, foi orientado a evitar qualquer cruzamento físico entre Lula e Trump, antes ou depois de suas falas. O objetivo é claro: impedir que o choque retórico se transforme em constrangimento diplomático.

Conceito em disputa

A palavra “soberania” será o ponto de partida para discursos que abordarão temas centrais da agenda internacional: liberdade de expressão, crise climática, guerra no Oriente Médio e o papel das instituições multilaterais. Mas o que está em jogo, na verdade, é a redefinição do próprio conceito no cenário geopolítico atual.

Para Lula, a soberania será apresentada como recusa à ingerência de potências estrangeiras — uma resposta indireta, mas evidente, às pressões recentes dos EUA sobre o governo brasileiro. Fontes do Itamaraty confirmam que o presidente fará referência à tentativa americana de interferência na política interna do Brasil, sobretudo após o julgamento de Jair Bolsonaro por tentativa de golpe de Estado, criticado abertamente por Trump.

A retórica brasileira encontrará eco em outros países do Sul Global. A China, que publicou recentemente um documento sobre sua visão para a nova ordem internacional, coloca o respeito à soberania nacional no centro de sua proposta. África do Sul e até países europeus também devem se alinhar ao discurso que critica a ofensiva diplomática e econômica americana.

O secretário-geral da ONU, António Guterres, já advertiu sobre os riscos de ações unilaterais que enfraquecem o direito internacional. Em entrevista ao The Guardian em maio deste ano, Guterres afirmou: “Estamos testemunhando uma erosão crescente das normas multilaterais, que põe em risco a estabilidade internacional”.

Soberania como isolamento

Do lado americano, a narrativa será outra. A embaixadora dos EUA na ONU, Dorothy Shea, adiantou que a soberania estará entre as prioridades do discurso de Trump. Mas, diferentemente do entendimento defendido por Lula e outros países do Sul Global, os EUA tratam o termo como escudo contra organismos internacionais.

“A ONU deve respeitar a independência de seus Estados-membros e evitar impor regulamentações ou políticas onerosas que sufocam a inovação, impedem o crescimento econômico ou infringem a tomada de decisões nacionais”, afirmou Shea na coletiva da missão americana em Nova York na última semana.

É a retomada do discurso antiglobalista já presente no primeiro mandato de Trump, agora reeditado com mais ênfase, especialmente após seu retorno ao poder com o apoio da extrema direita e da ala ultraconservadora do Partido Republicano.

Liberdade de expressão

Outro ponto de colisão será a liberdade de expressão. A diplomacia americana prepara terreno para criticar diretamente o Brasil por supostas restrições à liberdade política e controle de conteúdo digital — uma acusação que ganhou força após Trump e aliados republicanos processarem o ministro Alexandre de Moraes, do STF, por censura.

“A liberdade de expressão não é apenas um direito, é a base de uma sociedade livre”, disse Dorothy Shea, reforçando que Washington “não tolerará censura governamental, bloqueio da Internet ou silenciamento da oposição”.

Lula, por sua vez, planeja defender a regulação das plataformas digitais como instrumento de proteção da democracia diante da desinformação e do discurso de ódio. Para o governo brasileiro, liberdade de expressão não pode ser confundida com liberdade de agressão.

Palestina: divisões explícitas

O conflito entre Israel e Palestina também fará parte dos dois discursos — mais uma vez, em direções opostas. Lula deve reiterar a condenação às mortes em Gaza e pedir o reconhecimento do Estado palestino, defendendo a responsabilização internacional por violações de direitos humanos.

Trump, por outro lado, manteve a rejeição histórica de seu governo a esse reconhecimento. Na semana passada, os EUA foram um dos poucos países a votar contra uma resolução na ONU que previa a criação do Estado palestino, reforçando seu alinhamento incondicional a Israel.

Clima: ausência americana e protagonismo brasileiro

No campo ambiental, o abismo entre as duas lideranças se aprofunda. Lula convidará os países-membros a participarem da Conferência do Clima em Belém, no fim do ano, com metas ambiciosas para redução de emissões e preservação da Amazônia. A COP de Belém será central na tentativa brasileira de recuperar protagonismo ambiental no cenário global.

Trump, por sua vez, não enviará sequer uma delegação formal ao evento — um gesto interpretado como desprezo deliberado à agenda climática. O retorno à retórica negacionista marca o isolamento americano em um tema de consenso internacional.

ONU em xeque

O confronto entre Lula e Trump na Assembleia Geral não será apenas um duelo de palavras. Representa uma disputa por legitimidade em um sistema internacional em crise. Se de um lado há a tentativa de reformar o multilateralismo para torná-lo mais inclusivo e efetivo, do outro há o projeto de deslegitimar as instâncias coletivas em nome de interesses nacionais imediatos.

Em um mundo cada vez mais polarizado, o púlpito da ONU volta a ser um campo de batalha ideológica — com ecos que podem definir os rumos da ordem internacional nas próximas décadas.

Quando e onde Bolsonaro cumprirá sua pena?


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